Santos F.C.: Conheça o capitão que é pescador de almas

Santos F.C.: Conheça o capitão que é pescador de almas

Atualizado: Segunda-feira, 29 Março de 2010 as 12

Roberto Brum, 31, começou a jogar futebol nos campos de pelada de São Gonçalo (RJ). Quando? Segundo ele, desde que se entende por gente.

No colégio, passou pelo núcleo do Flamengo, mas não deu tempo de fazer os testes para o clube. Aos 13 anos, com o apoio de seu pai, que comprou e carregou a chuteira embaixo dos braços, fez um teste no Fluminense, onde jogou como amador por seis anos, e mais três como profissional.

Em uma boa fase no time carioca, o volante reconhecido por sua marcação, foi para o Coritiba, no Paraná. Buscando, de acordo com Brum, o que ele mesmo não sabia.  Depois de três anos no clube paranaense, jogou mais três nos times portugueses  Académica de Coimbra e Sporting-Braga, graças a um convite que ele denomina como "um chamado".

O jogador está há um ano e oito meses no Santos, interrompidos de setembro a dezembro de 2009, quando Brum esteve emprestado para o Figueirense, após desentendimentos com o ex-treinador Vanderlei Luxemburgo. Em julho de 2009, o jogador chegou a declarar no programa Mesa Redonda, da TV Gazeta, que estaria sendo perseguido pelo vidente Robério de Ogum, que fez previsões ruins para o Santos, caso o Peixe mantivesse no elenco Brum e "a patota dele".

Com sotaque carioca, Brum é um contador de testemunhos. Em um longo bate-papo, falou ao GUIAME.com.br  sobre o papel de capitão; suas preocupações com o novo Santos, de jogadores jovens; a chegada de Robinho; o assédio feminino; agressividade no futebol. Sempre brincando, o jogador tem autoridade ao falar de seu ministério, que é também sua profissão: "Mesmo se eu perder casas, carros, dinheiro. Mesmo se eu for preso, mesmo se vier alguém falando que vai me matar, eu vou continuar falando do amor de Deus".

Guia-me: Brum, você foi subcapitão no Académica, capitão no Santos antes de ir para o Figueirense, e voltou para o Peixe como capitão.

Roberto Brum: Fui no Coritiba também e no Fluminense quando subi como capitão da Taça Rio.

Guia-me: A que você atribui essa liderança? Até mesmo em um país europeu.

Roberto Brum: Eu coloco a Bíblia sagrada como um manual para a minha vida.  Jesus falou que o maior é o que serve e eu vou sempre com a intenção de servir as pessoas. Não de liderar, mas servir. Eu procuro fazer o que Jesus fez, imitar o Senhor, viver de acordo com a Palavra de Deus, e às vezes os homens veem o serviço como uma coisa positiva e dão uma posição para você, cargos de certa autoridade.

Guia-me: Você é conhecido pela ousadia para assumir opiniões, brincar nas coletivas de imprensa.  O teu apelido "Guerreiro", de quando jogava no Coritiba, tem a ver com isso?

Roberto Brum: Esse aí é meu jeito de jogar. Eu sou do meio-campo defensivo, que exige muito essa garra para conseguir tomar as bolas, e a torcida gosta muito disso, principalmente no sul do país. Eles reconhecem às vezes mais o esforço do que o talento. Mais do que uma jogada bonita. Já em outros lugares é diferente. Lá eu tinha um reconhecimento muito grande do torcedor, "coxa branca", né? Inclusive um dia um amigo precisava de sangue porque fez uma cirurgia no fígado, mas não tinha quem doasse, e eu pedi à torcida organizada Império Alviverde que doasse o sangue, e eles doaram ao meu amigo. Chegaram a esse ponto, entende? Então, eu tenho uma gratidão, um carinho muito grande pelo Coritiba, pela torcida lá.

Guia-me: Você costuma se reunir com os jogadores para orar?

Roberto Brum: Eu tenho os meus momentos pessoais com Deus diariamente, tem também os momentos que eu vou à casa do Senhor congregar. Também procuro estar evangelizando, falando de Deus não só para meus amigos, mas para todas as pessoas com as quais eu me relaciono.  Aqui no meu trabalho eu não preciso falar tanto porque a gente prega com as nossas atitudes, né? Então, as pessoas convivem comigo diariamente e podem ver o Senhor através das atitudes, mas quando é necessário pregar, eu também prego.

Guia-me: E acabam recorrendo a você em momentos difíceis?

Roberto Brum: Quando não tem solução para os médicos, eles querem recorrer ao "médico dos médicos". Então, já houve vários casos assim.

Guia-me: Tem algum que você possa contar?

Roberto Brum: Tem o caso de uma criança, filha de um jogador, que hoje está na Portuguesa, o Domingos. Uma criança de um ano. Fizeram o exame e viram que a coluna dela estava torta e espremendo o coração para o lado direito, era um caso muito grave. Ela precisava passar por uma cirurgia com grande risco de óbito. E aí o Domingos estava chorando muito no vestiário, em volta dos jogadores, e eu falei com ele: "Você crê que o meu Deus cura a sua filha? E amanhã quando você fizer os exames o coração dela vai estar no lugar certo, e a coluna vai estar perfeita?". Ele falou: "Creio". Então eu levantei um clamor ali e Deus foi fazendo, e quando o Domingos fez o exame, a coluna dela estava certinha, o coração no lugar. Ele louvou ao Senhor e foi até comigo para a igreja, e hoje a esposa dele vai com frequência. Ele está em São Paulo, vai à igreja de vez em quando também.

E você vê que engraçado... Três, quatro meses depois, ele era meu vizinho, nós fizemos amizade e compramos até uma casa ao lado da outra. Aí o meu filho, brincando com minha filha de "pic-esconde" se trancou em uma mala de viagens. A minha filha mudou o código e ele ficou trancado, sem ar. Eu não estava, e nem minha esposa. A moça que trabalha lá em casa, a Maria, saiu na rua desesperada porque não conseguia abrir a mala. Aí o Domingos, que é muito forte, estava saindo de casa. Ele não podia abrir a mala com faca porque poderia furar o meu filho, que estava sem ar ali, mas abriu a mala com as próprias mãos (risos). Deus me usou para que Jesus curasse a filha dele e o usou para retribuir a gentileza e salvar meu filho.

Guia-me: Aqui no Santos, a imprensa começou a falar ainda mais de você quando relatou que tinha sido curado de uma lesão.

Roberto Brum: Eu tive essa experiência, estava com uma lesão na minha perna que levaria de 20 a 30 dias. Aí no terceiro, quarto dia, eu estava em casa, véspera de um jogo, indo para mais uma sessão de tratamento, e falei: "Senhor, mostra um sinal para as pessoas verem a diferença. Sou uma pessoa que tem a presença o Espírito Santo, que serve um Deus que cura". E aí o Senhor falou: "Faz a sua parte então. Tenha fé". Então tá bom, em vez de ir de carro, eu vou andando. Aí eu andava com dificuldade por causa da lesão, né? Comecei a cantar um louvor e durante essa caminhada minha dor foi passando. Eu continuei glorificando o Senhor no meio rua. Cheguei no treino correndo, curado.

Aí contei para o fisioterapeuta na época, que era o Filé. Ele ficou um pouco impressionado, mas acreditou. O Dr. Braga, que era o médico, também acreditou em mim: "Se você está falando...Vá e faça o teste". Acreditaram por conhecerem minha vida com Deus.

Eu fui para o campo, fiz os testes, e fui para o jogo. Falei: "Se o Senhor me der essa vitória de jogar esse jogo e permitir que me convoquem para a conferência de imprensa, eu vou falar para o Brasil todo desse Deus que eu sirvo e que cura".

Fiz como Davi quando ia para suas guerras e adorava o Senhor. Eu fui e adorei o Senhor diante das câmeras. Porque ele é digno, né? De toda honra e toda glória (com ênfase).

Guia-me: Às vezes essa ousadia para assumir a fé pode ser mal interpretada. Você viveu um momento difícil com Luxemburgo. Em sua opinião, como o cristão deve se posicionar sem omitir o que pensa?

Roberto Brum: Eu acho que é pessoal. O chamado de cada um. Acho que uma pessoa que está disposta a levantar a bandeira de Cristo no seu trabalho tem que saber da retaliação. No futebol dá até para fazer uma ilustração: Um time quando sai para o ataque e perde a bola, automaticamente recebe um contra-ataque para tentar fazer o gol. No mundo espiritual não é diferente. Quando você levanta a bandeira de Cristo, o inimigo tenta contra-atacar. Aí cabe a você ter uma boa defesa para não tomar o gol. Essa defesa que você tem é oração, é santidade, é vida na presença de Deus, e estar fazendo isso debaixo de uma cobertura e debaixo de um chamado. Não é chegar e sair falando se você não tem o chamado de evangelismo. Deus me deu esse dom de evangelizar as pessoas, e me deu esse ministério que é o de evangelista. Eu tenho que usar, senão eu morro. Mesmo que eu perca meu emprego, mesmo que eu perca tudo, meus colegas, pessoas que falam que gostam de mim... Mesmo se elas não quiserem ficar perto de mim... Mesmo se eu perder casas, carros, dinheiro... Mesmo se eu for preso, mesmo se vier alguém falando que vai me matar, eu vou continuar falando do amor de Deus. Eu prefiro que o Senhor me leve logo para a glória do que ficar aqui de braços cruzados, sabendo que existe um remédio para curar a enfermidade da pessoa.

Aí vem outro detalhe. Quando você é direcionado, como agora que o Santos proibiu práticas religiosas, então, claro, a gente respeita as autoridades. Dentro do estabelecimento, da empresa, a gente não pratica nossas reuniões, cultos, que fazíamos aqui, entendeu? Mas na rua eu posso pregar, posso chamar um companheiro para ir a minha casa, ir à igreja. Eu só não faço reuniões. Prego com a minha atitude, como Paulo falou: "Sede meus imitadores como eu sou de Cristo". Eu mostro para eles como podem encontrar Deus, como eles têm que fazer.

Guia-me: Então seu trabalho é seu ministério?

Roberto Brum: Meu trabalho é meu ministério. Eu jogo para Deus, eu jogo para o Senhor. Algo que as pessoas possam ver, e quando vierem até mim, glorificarem o nome do Senhor. Eu não escondo isso.

Guia-me: Passado esse episódio com o Luxemburgo, você se sente honrado pelo fato de ter saído e voltado ao Santos?

Me sinto, me sinto honrado. Eu já sabia que isso iria acontecer... Porque eu falo com meu Pai e meu Pai fala comigo, eu ouço. E ele falou comigo um dia que envergonhados e confundidos serão todos aqueles que se levantarem contra, serão reduzidos a nada.

A minha confiança não está na minha força, no meu braço, no meu talento, a minha confiança está no Senhor. Eu tenho experimentado isso na minha vida. Isso é Bíblia.

Os sinais vão nos acompanhando, as pessoas vão crendo, e o inimigo se levantando para cair. Eu continuo tendo lutas, mas eu sei que de todas as lutas "eu sou mais do que vencedor".

Guia-me: Sua conversão foi algo natural, por orientação familiar, ou houve algum fato especial?

Roberto Brum: Eu sempre ouvi falar, vieram pessoas pregar para mim. Por exemplo, o Jorginho, auxiliar técnico da Seleção, houve algumas reuniões na casa dele; o Duílio, que foi um treinador meu, me levou em dois cultos; fui uma vez à igreja com o Magno Alves, que é um jogador do Fluminense; mas eu queria aproveitar o mundo como a maioria dos jovens, as pessoas que vivem hoje sem a presença de Deus. Eu lembro que frequentei umas duas, três reuniões, na Barra da Tijuca, na casa de um advogado, em um condomínio de luxo, Golden Green. Eu não queria compromisso com Deus, mas aquela semente foi plantada no meu coração.

Outras pessoas pregavam para mim também lá no meu bairro, pessoas que não são famosas na mídia, mas com certeza Deus as conhece.

Mas eu achava que minha alegria, que iria preencher o vazio do meu coração, era comprar um carro. Aí eu comprava um carro novo, achava o máximo, passava 15 dias eu já enjoava daquele carro. Aí trocava de carro, e mesma coisa: a alegria durava 15 dias, depois mudava. Aí eu falava: "Tenho que casar. Porque eu só fico namorando, tenho que casar". Aí descobri uma esposa maravilhosa, que é a Roberta. Pensei que iria preencher o vazio do meu coração, preencheu uma parte, mas continuou faltando alguma coisa na minha vida. Aí eu falei: "Já sei o que é. É filho". Tive uma filha, Brenda, foi uma experiência maravilhosa, mas não foi o que saciou a minha sede. Não foi o que matou a fome do meu espírito, da minha alma. Faltava alguma coisa. Eu falava: "Meu Deus, o que está faltando? Eu acho que o problema é o Rio de Janeiro". Tive uma proposta do Coritiba. Aí ninguém entendeu, eu estava no Fluminense, fui para o Coritiba. Porque no Rio as pessoas acham que só os times do Rio são grandes, e os de São Paulo. E o pessoal de São Paulo também acha que são somente os times de São Paulo e do Rio é que são. Aí eu fui para o Coritiba, e vi que era um time grande, mas quando saí eu nem sabia disso. Eu fui lá para encontrar essa resposta. Achava que o problema estava no Rio, que as minhas amizades me atrapalhavam para ser feliz, as falsas amizades.

Depois de um mês que eu estava na cidade, eu já vi que o problema não estava no Rio e nem em Curitiba, o problema estava comigo. Eu já estava com as mesmas práticas de pecado, prostituição, adultério. Vida de pecado, né?

Tava no "Egito", tava "no mundo". Comecei a ter problemas no meu casamento, cheguei a me separar da minha esposa. Ela foi para o Rio e eu fiquei em Curitiba, tive problema na minha vida profissional, na minha saúde.

Aí eu tive uma experiência com Deus um dia, no meu quarto. Nessa época eu frequentava umas reuniões na casa do Sérgio Manoel, que é um irmão nosso ali, ele e a Andréia. A Palavra estava bem plantada no meu coração, sabe? Eu sabia da existência de um Deus, só que só ouvia falar desse Deus, eu não via o agir dele. Um dia abri a janela do meu quarto, estava sozinho em casa, e comecei a conversar com Deus. Eu falei para o Senhor que eu me sentia como uma criança que saiu da barriga de uma mãe e foi abandonada no centro de uma cidade, onde tinha muito movimento. E as pessoas estavam pisando nessa criança e ela não podia se defender, porque era um bebê, não sabia ao menos como se trocar, alimentar. Era totalmente dependente de alguém para pegá-la no colo e salvá-la. E eu era essa criança, que estava sendo pisada pelo mundo, pelo pecado, dominado pelo pecado. Era como se eu não quisesse fazer o mal, mas mesmo assim eu o fazia.

E eu pergunto às vezes isso para os meus amigos que estão no pecado: "Você não quer sair dessa vida, não?". "Ah, eu quero, mas eu faço". Então, eu falei: "Deus, eu não tenho força para falar não para o pecado, mas se o Senhor me der o teu Espírito...O senhor é meu pai, a minha mãe - até fiz uma oração assim -, se eu não me entregar nos teus braços, vou morrer, esse mundo está me esmagando. Comecei a chorar ali, pedir a presença de Deus e tive uma experiência com o Senhor. O céu se abriu na minha frente, na janela do meu quarto, e o Espírito Santo de Deus entrou na minha vida, no meu espírito.  De lá para cá eu tenho vivido uma vida na presença de Deus para honra e glória do Senhor.

Aí dentro do Coritiba Deus me exaltou muito, joguei no Campeonato Brasileiro, fiz gol no São Paulo, fiz gol lá no campeonato estadual...e fui vendido para Portugal. Recebi uma profecia em uma "igrejinha", Assembleia de Deus, de um motorista de caminhão, que me disse que em três meses o Senhor iria me levar para a Europa. Em três meses me ligaram, mas eu já não fui para Portugal como discípulo, mas para fazer discípulos, entendeu? Já fui com chamado, uma unção sobre a minha vida, com uma missão.

Guia-me: Você falou em pecado, antigas práticas. Como lida hoje com o assédio feminino?

Roberto Brum: No meu ambiente de trabalho acontece muito isso, as mulheres têm o jogador como um ídolo, querem se aproximar dele. Muitas só para pedir um autógrafo, tirar uma foto, outras não, querem mesmo ter um  relacionamento amoroso, fazer sexo com o atleta, namorar, sei lá, querem casar com o jogador de futebol. Às vezes a bola deixa o jogador muito bonito (risos). O carro importado deixa o jogador charmoso, a casa na praia deixa elegante, inteligente (risos). Ele começa a ser muito assediado por causa da fama, dessa exposição na mídia, e aí é praticamente impossível uma pessoa sem Deus suportar esse assédio. Hoje na minha vida eu louvo a Deus porque pela misericórdia de Deus esse assédio não me alcança mais. Desde que tive essa experiência com o Senhor, em 2004, eu só tive a minha esposa Roberta, e nunca mais cometi adultério, para honra e glória do Senhor.

Mas o assédio continua, eu falava até para os jogadores ontem: "Tá vendo, eu também sou tentado. Por que eu consigo? Porque eu tenho Jesus".

Guia-me: Você já chegou a evangelizar alguém assim?

Roberto Brum: Claro, eu uso isso para evangelizar. Hoje mesmo no café da manhã eu estava com a minha Bíblia e com o meu caderno. É até engraçado. Eu coloquei o meu caderno e a minha Bíblia em uma mesa. Aí uma jovem que estava tomando café ao lado viu que eu coloquei minhas coisas naquela mesa, que era para quatro pessoas. Quando eu retornei para a mesa, depois de pegar meu café, meu pão, eu vi que aquela jovem estava sentada de frente para a cadeira que eu iria sentar. Tipo proposital. Eu fui, pedi licença, peguei minha Bíblia e fiz igual a José quando a mulher de Potifar foi atrás dele. Saí correndo para outra mesa (risos). Porque o homem tem que fugir do pecado. Na minha opinião, o homem não tem que ficar de conversinha, entendeu? Dando lugar para o diabo, brincando como Sansão fez.  O homem às vezes trai por causa disso, porque fica brincando com Dalila. Eu já vi que a intenção daquela menina não era ser evangelizada, era outra intenção. E aí eu já fugi, entendeu?

Tem também uma história muito engraçada. Vou te contar essa história. Foi lá em Portugal, quando eu estava no Braga, no último jantar. Os atletas ficaram o ano inteiro me marcando para ver seu eu iria dar algum deslize, seu iria cobiçar, fazer alguma coisa que desagradasse a Deus para me julgarem. Não eles, mas quem os usa. Porque a Bíblia diz que a nossa briga não é contra os homens, mas contra principados e potestades. Aí no último jantar percebi que o ambiente já não estava ficando muito bom, muito papo que não edifica, muitas palavras de baixo calão. Eu falei: "Tô indo embora". Aí o pessoal disse: "Não, Brum, hoje você vai com a gente depois do jantar para a noite, para a balada". Eu levantei da mesa e falei: "Eu vou!". Quando eu falei que iria, chamei a atenção de todo mundo, inclusive de outras pessoas que estavam no restaurante, e consegui o que queria. Então olharam para mim porque acharam: `Tá vendo, olha lá, era tudo mentira, o ano todo ele tava fingindo, ele também gosta do pecado’.

Aí eu cheguei para eles e falei assim: "Eu vou... provar para vocês que o que pensam de mim é totalmente o contrário. Vocês pensam que eu não posso nada, né? Que eu só tenho que andar com a Bíblia debaixo do braço, que não posso fazer nada, não posso ouvir um pagode, não posso ir para uma balada, não posso ficar com uma mulher, prostituta, garota de programa... Eu vou provar para vocês que eu posso fazer isso, mas que não quero. E eu vou provar que vocês é que são escravos e não podem nada. Querem ver? Eu queria perguntar se um de vocês agora vai embora comigo para casa. Algum de vocês vai embora comigo? Ficar com suas esposas, família, ou sozinho no seu apartamento? Algum de vocês tem coragem de ir embora comigo? Vamos. Levanta alguém, ‘vambora’ para casa, ficar com suas esposas, descansando". Ninguém levantou da mesa. Eu falei: "Tá vendo. Quando eu falei que iria vocês acreditaram, porque eu sou livre para ir. É opção minha. Hoje eu tenho duas opções, eu posso escolher ir ou ficar em casa. E eu vou ficar com a segunda opção, enquanto vocês só têm uma. São escravos do pecado, o pecado domina vocês". Aí ficou aquele silêncio.

Então, um jovem que nós levamos para Jesus depois, e estava lá naquele dia, falou para mim que uns três ou quatro jogadores voltaram para casa e desistiram da sua programação noturna, porque Deus falou com eles ali.

Lá no Braga também, eu todos os dias tomava café e ia até a lata de lixo e colocava o copinho plástico. Tem aquelas cestinhas que você pisa e levanta a tampa, não tem? Eu fiquei seis meses colocando café ali. Um dia os jogadores se juntaram. "Ah, vamos pegar ele hoje". E um jogador, na frente do meu armário, tinha todas as mulheres nuas de capa de revista, Playboy, Sexy. Aí todo o dia, quando eu trocava de roupa, ele me observava para saber se eu iria olhar para alguma daquelas mulheres nuas. E eu só resistindo ali o tempo todo. E aí o que eles fizeram? "Ah, vamos pegar o Brum agora". Pegaram a foto da Viviane Araújo e colocaram dentro da lata de lixo, certinho onde eu colocava o café, para quando eu abrir me pegarem, né? Aí quando eu fui, igual a um bobo (rindo), e pisei, a Viviane Araújo nua na minha frente. Eu peguei a foto, todo mundo estava olhando para mim e dando risada. Tipo como se tivessem me pegado. Aí eu brinquei também, falei:" Tá amarrado e repreendido em nome de Jesus!". Amassei e joguei no lixo, mas falei isso brincando, né? E eles deram risada também, porque alguns acharam que eu poderia ficar chateado. O religioso acha que você alcança Deus pelo seu exterior, pelo que as pessoas podem achar de você, pelo que você viu, deixou de ver, porque pagou uma promessa, acendeu uma vela, se você segue ali os rituais religiosos. Acha que é assim que você vai ser salvo, mas Jesus falou que não está preocupado com o exterior, ele está preocupado com o interior, com o que está no nosso coração.

Eu tento mostrar isso para eles, que nós não somos religiosos, não somos fariseus, temos um relacionamento com Deus, somos filhos de Deus. O Evangelho faz parte da nossa vida, não é uma lei pesada, é algo suave.

Guia-me: Futebol é um esporte que exige contato com outros jogadores. Muitas vezes essa aproximação resulta em briga e provocação. Como é para você "dar a outra face" no futebol?

Roberto Brum: Deus deu um talento para cada um. Então, se Deus deu um talento para o marido da Joana Prado, o Vitor Belfort, de lutar e glorificar o nome de Deus, não tem como ele dar a outra face. Ele tem que socar a face do outro. Mas Deus sabe que no coração dele, ele está fazendo aquilo ali na prática de um esporte. Ele não quer matar o cara, machucar e ofender. Dar a outra face, como Jesus falou, é amar nosso inimigo, orar por aqueles que nos perseguem, entendeu? Aquele que te maltrata, você tratar bem. Então, dentro do futebol, você está competindo, e às vezes tem que fazer uma falta. Você usou uma regra que tem no jogo que é a falta, que é algo que você usa para impedir que o adversário faça o gol. Agora, você não precisa ir para quebrar o jogador, como muitos fazem. Mas às vezes você pode ser exposto a isso. Através de uma dividida, você pode cortar o supercílio de alguém, machucar a perna de alguém, porque é um esporte de contato.

Guia-me: Mas você considera importante para o jogador perceber quando ele está se defendendo ou respondendo a uma provocação?

Roberto Brum: É verdade. A gente tem que ter essa temperança. Muitas vezes no campo, aquele sangue quente, competição, quando se está ali pensando em vencer a partida... Eu posso te falar que em toda a partida o Espírito Santo vem e me incomoda para eu não tomar atitudes que normalmente um atleta tomaria. Como quando eu recebo uma ofensa de alguém. Tem jogador que vem predestinado a tentar mexer com o teu emocional e usa até sua fé para isso. Por exemplo, numa dividida você trombou com um cara, ombro a ombro, aí o cara caiu e ficou com raiva porque perdeu a dividida. Se fosse outro atleta, ele ia, mandava o cara para aquele  lugar, e tava tudo certo quando acabasse o jogo. Mas como você é um atleta de Deus, ele fala que você é um "falso profeta", entendeu? Recebo várias ofensas assim, querendo usar isso para que você facilite para ele na próxima jogada. Não, eu estou competindo ali, estou defendendo o meu time, a minha equipe, e eu jogo é para Deus, não jogo para homens.

Guia-me: Hoje você está habituado com a cidade de Santos, não? Pensa em voltar para a Europa?

Roberto Brum: Eu vou para onde o vento me leva, onde o Espírito me leva. Quando eu falei "Senhor, eis me aqui, envia-me a mim", eu não direcionei o lugar não. A princípio eu sou muito feliz em Santos, me sinto muito cuidado e amado pelo Senhor, pelas pessoas da cidade. Todos me respeitam. Católicos, espíritas, pessoas de outras religiões me param na rua, falam que admiram a minha maneira de levantar a minha fé, alegre, sempre feliz, porque Deus é alegria. Não tenho preconceito com nenhum tipo de religião, amo todas as pessoas. Se alguém quiser me convidar para pregar no centro de macumba, no centro espírita, ou em uma missa, eu também vou pregar. Pode me convidar.

Guia-me: Então você não faz planos para tua carreira?

Roberto Brum: Não faço. Deixo Deus direcionar. Eu procuro ter uma vida organizada, né? Deixo uma parte com a minha esposa, porque eu não sou muito organizado nessa parte de finanças. É como seu eu fosse pobre, tivesse riqueza, mas fosse pobre, materialmente falando. Aí eu falo para minha esposa: "Me dá um prato de comida e pronto. Me dá seu amor, sua fidelidade, e pronto". Não preciso de mais nada. A presença de Deus, e pronto.

Guia-me: Como foi a chegada do Robinho? Ela deu ânimo para os jogadores mais jovens?

Roberto Brum: Não, acho que não. O grupo já estava bem animado. O time já era líder do campeonato, a vinda do Robinho foi algo a mais. Veio somar no que já estava muito bom. O Robinho é uma pessoa humilde pelo que conquistou. Trata todo mundo - pelo menos nós jogadores - bem, brinca, não é aqueles caras metidos, sabe? Foi bem aceito pelo grupo, tem um talento bem legal que Deus deu para ele. Inclusive eu já falei para o Robinho que se ele for glorificar o Senhor Jesus na Copa, eu vou orar por ele, para que ele seja o melhor jogador da Copa. Se ele for pegar a glória para ele, não vou orar não. (muitos risos)

Guia-me: E o que ele respondeu?

Roberto Brum: "Então tá bom, Brum. Ora por mim.Eu vou glorificar Jesus".

Guia-me: Como ele vai glorificar? Apontar para o alto depois de um gol?

Roberto Brum: Levantar a mão para o alto e glorificar nas entrevistas. Quando as pessoas perguntarem para ele qual foi o motivo, falar que foi Jesus. Falou que vai cumprir o voto dele. Ele tem o pai que é evangélico, né? Não se converteu ainda, mas vai se converter, em nome de Jesus.

Guia-me: No Santos atual, quais são as tuas preocupações como capitão, especialmente por estar em um time com tantos jogadores jovens?

Roberto Brum: Eu estou sempre tentando orientá-los. Às vezes a mãe do Neymar me liga para eu cuidar dele, orientá-lo. É uma serva de Deus fiel.

Cabe a eles reconhecer o que Deus está fazendo na vida deles. Quando eu vejo que estão muito rodeados de falsos amigos, eu falo: "Cuidado com os falsos amigos. Pessoal só quer o seu dinheiro, só quer ficar perto de você por causa da fama...". Eles escutam, respeitam.

Às vezes financeiramente. Ano passado um jogador veio falar para mim: "Eu ganho 200 mil por mês e minha conta todo mês está vermelha". Aí eu falo: "Está gastando mais do que você ganha". "Mas como? É muito dinheiro". Aí eu explico na Bíblia que fala do devorador. Falo que o pecado vai consumindo o dinheiro, a bebida, o jogo, a cobiça. Às vezes o cara tem três carros, compra outro. Fica um mês com o carro, já quer trocar de novo. Depois, se ele aceita Jesus, eu ensino para ele o que está em Malaquias 3.

Eu procuro influenciar os servindo, não impondo nada. Servir com um ombro amigo, as vezes estão passando por problemas, vêm se abrir, conversar com você. "Olha, estou com problema na minha vida sentimental". A gente ora, orienta. E o "pessoal" depois reflete no "profissional". Às vezes tem jogador que não consegue jogar bem porque está mal com a família, com a esposa. E aí a gente consegue até influenciar depois dentro de campo.

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