Ser tradicional não é ser tradicionalista, diz líder da Batista da Liberdade

Ser tradicional não é ser tradicionalista, diz líder da Batista da Liberdade

Atualizado: Quinta-feira, 20 Maio de 2010 as 5:33

Em 2009, a Igreja Batista da Liberdade, em São Paulo (SP), completou 100 anos de história, 26 deles liderados por Eli Fernandes.

Mestre em Teologia e membro da Academia Paulista Evangélica de Letras, Fernandes tem artigos publicados em jornais seculares e publicações evangélicas. Fernandes sempre esteve envolvido com ações ministeriais: foi presidente da Juventude Batista Brasileira/JUMOC; membro do Comitê de Mocidade da Aliança Batista Mundial, representando a JUMOC; atuou no Conselho Geral da Aliança Batista Mundial, representando a CBB; seis vezes Presidente da Convenção Batista do Estado de São Paulo (CBESP) e Vice-Presidente da Convenção Batista Brasileira pelo mesmo número de vezes.

Em entrevista ao GUIAME.com.br , o pastor falou sobre liderança pastoral e evidenciou a falta de ensinamento bíblico nas igrejas. O líder contou um pouco sobre as mudanças que viveu em 30 anos de pastorado e o desafio de liderar a convenção que reúne igrejas batistas do estado de São Paulo, que integram a mesma denominação, mas expressam o culto a Deus de diferentes formas.

Guia-me: Assistindo a uma ministração sua, o senhor disse que muitos líderes, de maneira diferente da qual fez Neemias, desistem da "reconstrução dos muros" com as adversidades e abandonam o templo. O que para o senhor é o principal motivo disso?

Pr. Eli Fernandes: Primeiro eu acho que são problemas com convicções. Nós temos hoje muitos líderes frágeis, no que creem, em profundidade bíblica, defesa de teses, defesa de princípios. Hoje nós vivemos uma época em que o bom pastor é aquele que age de forma politicamente correta, para agradar todo mundo, para que ninguém fique zangado com ele na congregação, e com isso ficam lares infelizes, filhos criados dora dos princípios bíblicos, falta ensinamento, que não é ficar bravo e nem ser feio, mas ficar claro no que cremos e em quem nós cremos.

Guia-me: Às vezes ser sutil pode acabar transformando-se em omissão?

Pr. Eli Fernandes: Às vezes ser sutil não representa ser estratégico. Ser sutil hoje tem representado alguém que perde valores, que negocia o inegociável. Amar não é só dizer sim.

Falta de profundidade bíblica, o que faz parte dessa geração. Fazemos hoje uma geração analfabeta de Bíblia, que ignora a Bíblia. Até brinco: a gente é capaz de cantar uma hora, todo mundo em pé, mas é incapaz de ficar meia hora ouvindo a Palavra, queremos olhar o relógio e sair. Perdemos o gosto pela Palavra, nos tornamos ignorantes da Palavra.

Você veja, os princípios de Neemias, 450 anos ou quase isso, antes de Jesus, são ainda os mesmos para nós hoje, ajustadas as realidades, as contextualizações, no mais, são os mesmos. No entanto, a gente ainda os negocia.

Guia-me: E o senhor vem pastoreando a Igreja Batista da Liberdade desde 1984?

Pr. Eli Fernandes: Desde fevereiro de 84, são 26 anos.

Guia-me: Então o senhor acompanhou mudanças na igreja, estruturais e relacionadas à membresia.

Pr. Eli Fernandes: Acho que além da mudança da igreja, acompanhei uma mudança em mim. Fui crescendo, descobri que muitas vezes eu fui um homem vaidoso, orgulhoso, dono da verdade, um homem arrogante... E o Espírito Santo foi me quebrando e fazendo de mim não um dirigente de culto, um líder de show, mas um servo dele com posições bíblicas. E isso fez diferença no pastorado porque, de um momento para outro, jovens que precisavam disso se achegaram, adultos. Então a igreja, que era mais uma igreja em São Paulo, passou a ser conhecida como a igreja da Bíblia, porque nós temos ensino bíblico.

O ano passado foram quase 50 casamentos, nenhum casamento misto. Todos de jovens crentes. E você quebra até outro tabu: "Ah, não tem jovens na Igreja". Quando você crê, obedece, Ele é quem faz a obra. Quando se fecham portas aqui, ele abre outras. Ele é o dono do jogo, quem mexe os pauzinhos.

Guia-me: O senhor é presidente da Convenção Batista em São Paulo, que segue uma linha mais tradicional...

Pr. Eli Fernandes: Eu acho que hoje, filha, não tem mais isso.

Guia-me: No entanto, vemos igrejas da denominação Batista que se expressam de formas diferentes, algumas mais avivadas, outras mais tradicionais. Como presidente da CBESP, como o senhor lida com isso?

Pr. Eli Fernandes: Eu acho que ser Batista não é ser padronizado. Ser batista é ser diverso. Um dos princípios da Igreja Batista é a autonomia da igreja local, ela é soberana. Um pastor é mais animado, mais quente, mais avivado, e se ele respeita os princípios que nós defendemos de interpretação bíblica, isso é com ele. Já têm outros mais tradicionalistas, eu só acho uma pena muito grande. Porque penso que são coisas distintas, uma é ser tradicional, outra ser tradicionalista.

O que é ser tradicional? É ser seguidor de uma história, do curso do rio, de um legado. Tradicionalismo é incapacidade, incompetência, é não atualizar a linguagem do ministério à realidade, o mundo em que se vive.

Então eu vejo como muito saudável as diversas formas das igrejas batista, seus cultos, suas práticas. A minha é uma igreja quente, animada, e continuamos felizes, louvando ao Senhor.

Não há mais como colocar dentro de uma camisa de força. Algo como: Só é batista se for assim. Tem que ser de Jesus, ser da Palavra, ser da Bíblia. Jesus antecede, a Palavra precede tudo. São movimentos que vieram com o tempo.

Todos nós precisamos ter convicação. Quem é presbiteriano tem que ter convicção, ou então saia. Quem é batista, assembleiano, tem que ter convicção. Conquanto que não faça de sua denominação uma bandeira maior que Jesus, a graça dele, e ser de Jesus e ser da bênção.

Por Adriana Amorim

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