"Sou de família evangélica e nunca senti necessidade de provar bebida", diz jogador do Leão

"Sou de família evangélica e nunca senti necessidade de provar bebida", diz jogador do Leão

Atualizado: Quarta-feira, 17 Março de 2010 as 12

No title J á está virando rotina. Não é somente pelos gols e presença em campo que o atacante do Flamengo, Adriano, chama a atenção. Fora das quatro linhas, o Imperador vem sendo facilmente derrotado por um vício que transforma sua vida num vulcão em plena erupção. Mas ver o caso de Adriano como um fato isolado no futebol brasileiro é pura ilusão, principalmente após o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, afirmar que "tomar uma cervejinha não tem nada demais. O que não pode é tomar um engradado". O médico da Seleção, José Luiz Runco, reforçou a tese do "nada demais": "Que jogador não bebe? Você conhece algum? Se as pessoas forem se preocupar com isso é melhor acabar com o futebol brasileiro, com o futebol mundial".

O problema do alcoolismo é comum e desperta atenção. E o cuidado em combatê-lo tem que ser desde a categoria de base. Alguns clubes brasileiros montam, inclusive, departamentos que tratam especificamente do assunto. Quem não possui recursos para investimento em setores que trabalhem com o tema faz uso do bom e velho conselho ao "pé do ouvido".

Nos três principais clubes do Recife - Náutico, Santa Cruz e Sport - não há orientação de profissionais específicos. Os professores (treinadores) é que desempenham, na maioria das vezes, a função de orientador dos atletas. "A bebida não é uma droga ilícita. Por isso, não há tanta vigilância contra os excessos. Na vida de um atleta profisional, o prejuízo, às vezes, demora a aparecer. Tarda, mas pode ser desastroso", analisa Sérgio China, ex-jogador profissional e atualmente técnico do juniores do Náutico.

O treinador alvirrubro aproveita para alertar os clubes no que se refere a investimento amplo nas categorias de base. "Estou sempre conversando com meus atletas e mostrando a realidade de quem abusa. A gente faz a nossa parte e os clubes precisam ser parceiros dando estrutura para o trabalho andar", completa.

O assunto é polêmico. Poucos são os atletas que admitem fazer uso excessivo do álcool. "Aqui, nunca tive essa situação com os meninos. Já nos tempos em que jogava e treinei o profissional, vi isso acontecer muita vezes. Tinha jogador que preferia faltar a aparecer no clube num estado deplorável. Outros se escondiam no departamento médico. Era constrangedor", relembra China.

Entre os atletas do juniores timbu, falar sobre o uso de bebida é delicado. A maioria admite apreciar uns goles de cerveja. Os malefícios do álcool também estão na ponta da língua dos adolescentes. "Tinha um amigo que estava bem, jogando no futebol de Portugal, só que acabou caindo para um time de menor expressão por causa da bebida", revela o atleta Diego. O meia angolano Chimi Simão, que chegou há 40 dias no Náutico, filosofa sobre o assunto. "A lei da vida nos ensina que tudo em excesso faz mal. Principalmente, se particularizarmos para nós, atletas de alto rendimento", conta o estrangeiro.

Há dez meses no comando técnico do juniores do Sport, Levi Gomes - também ex-atleta profissional - leva para os garotos a experiência adquirida ao longo da carreira. Assim como China, Levi procura sempre conversar com seus atletas. "Não temos uma psicóloga para acompanhá-los, mas a vigilância em relação ao horário de entrada na concentração é bastante severo. Eles têm direito a passear, se divertirm, mas tudo com moderação. Geralmente, quando chegam à Ilha recebem uma cartilha de como se comportar. Mas, confesso, que nunca tive problemas com os meninos por questão de bebida", confessa Gomes, que assegura que nunca colocou um copo de cerveja na boca.

Os meninos da Ilha do Retiro, porém, confessam usar não somente a cerveja. Em dias de folgas prolongadas e férias, doses de uísque e vodcka são bem-vindas. "Tem um dia no mês que tiro para beber. Todo dia a gente não aguenta", confidencia um rubro-negro. Sempre acompanhada de boas risadas, boa parte do grupo leonino pede para manter seus nomes em sigilo. "É sujeira colocar o nome da gente. A minha família já vai ficar preocupada. E pega mal lá no clube, embora todo mundo saiba", adiantou outro jogador da base do Sport.

Neste universo, onde a maioria relativa opta por relaxar saboreando uma "loura gelada", há quem não chegue nem perto. O lateral-direito do Leão, Christofoly Acioly, apelidado de Toti, e o capitão alvirrubro Marcelo são dois exemplos. "Esse aí vai jogar até uns 80 anos", dispara um colega de equipe, referindo-se aos cuidados que Toti mantém desde cedo. "Sou de família evangélica e nunca senti necessidade de provar qualquer tipo de bebida. Estou muito bem assim", dispara o atleta, verdadeiro xodó dos amigos. Marcelo também é uma unanimidade entre os companheiros do Timbu. Estudante de educação física na UFPE, ele diz, sem cerimônias, que costuma sair com os amigos que não bebem. "Ninguém nunca me forçou a experimentar, mas costumo sair mesmo com quem não bebe. É mais tranquilo", dispara o volante do Clube Náutico Capibaribe.

No ambiente da base do Santa Cruz, o técnico Henry Lauar tem a parceria da nutricionista Maria Auxliadora, além do auxílio da tecnologia. "Temos um aparelho, chamado refloton, que nos permite fazer exames, através da coleta do sangue, capaz de detectar o mau funcionamento de partes do organismo. Não temos o controle 100% na vida dos atletas, mas nos cercamos do que pudemos. No Arruda, nunca tive este tipo de problema. Digo a eles que a vida social dos atletas é diferente das demais pessoas. Eles precisam manter o alicerce treino, alimentação e descanso. E a bebida está na contramão, pois atrapalha a alimentação e o descanso", disse Henry, que trabalha no Tricolor desde outubro.

Por Ana Paula Santos

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