"Sou o mendigo chorando nos bancos da igreja"

"Sou o mendigo chorando nos bancos da igreja"

Atualizado: Quarta-feira, 15 Maio de 2013 as 8:34

 

thiago grulhaAinda frequento os trens.
 
Agarro nas barras de aço e tento não cair com os constantes chacoalhões. Aventura!
 
Vendem de tudo (olha o amendoim torrado!) e, quase sempre, a falta de fones de ouvido providencia a trilha sonora da viagem (Tira foto no espelho bra botar no facebook… rs). É gente de todo tipo e esta riqueza me comove sempre.
 
Tem dias que dá uma vontade de ir puxando assunto com os desconhecidos, mas o receio de ser mal interpretado atrapalha, fico na minha.
 
Choro de criança, conversas em volume de Baile Funk (sim, falam alto mesmo rs), leitores ávidos (de livro espírita a filósofos alemães) e casais arriscando uns beijinhos entre uma estação e outra. É o trem!
 
Quando eu não estou exausto, eu até me divirto.
 
Porém, antes de tudo isto, eu percorro uma rua larga, cheia de memórias, cheia de vida.
 
Tento cumprimentar a todos e vou me esforçando para lembrar o nome dos moradores mais velhos.
 
Fico triste em ver alguns deles em cadeiras de rodas e outros recuperando-se de cirurgias delicadas.
 
Outros, figurinhas carimbadas, já são de outra vizinhança, aquela do lado de fora dos muros deste mundo. O adeus ainda ecoa por ali.
 
Olhem só! A garota bagunceira agora é mãe. O baixinho, que corria na frente do bar, está maior do que eu, ou seja, não cresceu muito! rs As casas preservam suas cores. Amo esta caminhada diária. Minha alma mora nestas andanças.
 
Hoje, enquanto repetia este trajeto, fui chamado por um homem que estava sentado na beirada da calçada. Ele, com mais 3 companheiros, estavam bem embrigados.
 
Fui até ele e perguntei-lhe se eu poderia ajudar em alguma coisa.
 
Ele foi breve, educado e, aparentemente, sincero: – Quero comer. Um pão.
 
Disse a ele: – Lembro de você. Você não se lembra de mim, mas me lembro de você.
 
Já parei outras vezes aqui e conversamos sobre a bíblia. Você me contou que, assim como Boaz permitia que Rute comesse da colheita que caía em seu campo, eu estava fazendo o mesmo.
 
Ele chorou! Num quase grito, exclamou! – Você é homem de Deus! Você conhece a bíblia. Então, em lágrimas contidas, recitou um texto que disse estar em apocalipse: – : É. É. Diz assim! Deus não me deixará perecer… (o outro completou sorrindo) – teremos a vida eterna…
 
Obviamente, eles se referiam ao maravilhoso versículo registrado em João 3:16.
 
Providenciei o café da manhã, conversamos um pouco, falamos de Jesus e o choro e a promessa de que “voltaremos aos caminhos do Senhor”, foi a tônica de suas falas.
 
Me despedi e continuei minha jornada.
 
Saí de lá triste.
 
Não duvido nenhum pouco do desejo que eles têm de mudar. De sair. De retornar para os dias onde a bebida não os prendia.
 
No entanto, eles sempre choram. Cantam! Lamentam-se. Prometem. Mas faz anos que nos encontramos nas mesmas condições.
 
Meu irmão já aproximou-se de um deles. Caminhou junto. Ajudou. E o viu ir se reestabelendo, mas a transformação durou pouco. A prisão tem vencido a vontade.
 
Não estou reclamando, ou acusando-os de não tentarem o suficiente. Longe de mim.
 
Saí triste porque me vejo neles.
 
Sou o mendigo chorando nos bancos da igreja. Cantando sem reservas. Prometendo mudanças, mas exalando o mesmo cheiro, revirando-me na mesma lama, alimentando os mesmos vícios que assaltam a alma e levam a alegria sem oferecer resgate.
 
É preciso mais. O poder de Deus, revelado no Amor que sangrou até a morte, apresentado na ressurreição que venceu o fim, entregue no Espírito que consola e convence, necessita mudar os rumos da história.
 
Continuemos lançando sementes, Deus tem planos e meios perfeitos. Continuemos regando o que foi semeado em nós, a renovação está pronta pra acontecer.
 
 
 
- Thiago Grulha
 

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