"Tomei outro rumo e nunca fui do crime", relata morador da periferia paulistana

"Tomei outro rumo e nunca fui do crime", relata morador da periferia paulistana

Atualizado: Segunda-feira, 8 Fevereiro de 2010 as 12

Morador do Jardim Planalto, bairro vizinho ao Jardim Ângela, na zona sul, o webdesigner Vando Rodrigues da Silva, de 25 anos, foi salvo de um destino trágico pela síndrome do pânico. Caçula de uma família grande, com mãe e pai que trabalhavam fora, ele foi criado pelos quatro irmãos e quatro primos mais velhos. A turma convivia em um sobrado que passou a ser conhecido no bairro como Castelo de Greyskull, em referência ao desenho He-Man.

Adolescentes em guerra com jovens rivais no começo dos anos 1990, eles se viam como espécies de super-heróis. No fim da década, quatro deles haviam morrido e três tinham sido presos. ''Eu tinha tudo para seguir o mesmo destino. Conhecia todas as armas, diferenciava os tipos pelo barulho dos tiros. Mas fiz a escolha certa e tomei outro rumo. Nunca fui do crime'', diz.

Antes dos 13 anos, Vando já tinha testemunhado pelo menos oito execuções. Entre os 5 e 12 anos, acompanhou, ao lado dos parentes, o auge das disputas na região do Jardim Ângela e arredores que, entre 1993 e 1998, segundo a polícia, causou a morte de 156 pessoas. Em um domingo à noite, Vando se recorda de ter subido na laje da casa onde morava para ver o bairro. Contou oito sirenes de polícia ao lado de corpos recém-assassinados na região.

Na época das rixas, ele acompanhou o destempero de Chico, jovem que trabalhava em uma metalúrgica, mas que nas horas de folga mergulhava de cabeça nas correrias do crime. Chico e cerca de dez amigos, entre eles os irmãos de Vando, participaram ainda adolescentes de um linchamento que matou Zoião. Foi o primeiro de outros assassinatos que viriam.

Com o passar dos anos, viu que Chico ia tomando gosto pelos assassinatos e matava quase aleatoriamente. Vando lembra de uma vez em que Chico matou um cobrador que havia brincado com ele de maneira inocente quando estava dentro do ônibus. ''O Chico foi a única pessoa que conheci que parecia ficar feliz quando matava. Morreu assassinado por um pai de santo quando tentava fechar seu corpo'', conta.

As coisas pioravam de vez em quando para a turma. Em meados dos anos 1990, os irmãos de Vando tiveram problemas com Baianão, o principal traficante do bairro. O irmão do traficante fora assassinado por um dos integrantes da gangue. Em resposta, Baianão disse que mataria qualquer um da família que encontrasse pela frente. ''Tivemos de passar uns dias fora do bairro'', lembra.

Tempos depois, iniciaram-se as rixas com os integrantes da chamada Gangue dos Ninjas, formada por jovens do Jardim Tupi, bairro vizinho. Luizinho e Belo eram ainda adolescentes e desejavam se vingar de assassinatos ocorridos anos antes pelos integrantes da turma de Chico. Em 1998, um dos primos de Vando foi vingado. Meses depois, ocorreria o primeiro homicídio que iria desestruturar as certezas de Vando.

Valdemir, o irmão de quem era mais próximo, que trabalhava em um jornal e nunca havia se envolvido com o crime, foi assassinado. Aos 19 anos, foi morto porque Belo e Luizinho não encontraram Nenga, o irmão que eles realmente queriam assassinar. ''Fiquei em estado de choque porque nunca havia imaginado que justamente meu irmão que nunca havia mexido com nada pudesse morrer'', lembra.

Passou a ter medo de tudo. Era a tal síndrome do pânico salvadora, que o ajudou a perceber que não tinha nervos para o crime. Ele não conseguia ficar em ambientes fechados e raramente punha o pé na rua. Decidiu enfrentar o medo quando uma Igreja evangélica abriu bem na frente da sua casa. ''Só precisava atravessar a rua. Se fosse na esquina, não teria coragem''.

Nesses anos, depois que virou evangélico, acabou o ensino médio, fez cursos de empreendedorismo, trabalhos sociais, abriu uma confecção, atuou no ramo de segurança e finalmente engrenou nos negócios ao abrir uma empresa que cria sites para vendas na internet. ''Ainda hoje me assusto quando penso no passado recente aqui do bairro. Eram corpos nas ruas, tiroteios, crimes e a gente achava que aquilo tudo era normal. Coisas inaceitáveis nos dias de hoje'', diz.

50 covas

O Cemitério São Luís, que recebe quase todos os corpos da zona sul, tornou-se famoso nos anos 1990 por ser um cemitério que enterrava jovens - a maioria vítimas de assassinatos.

O sepultador Aparecido Rodrigues Alves começou a trabalhar no cemitério em 1994. Naquela época, chegava a abrir 50 covas extras para evitar atrasos. Naqueles anos, enterravam de 800 a 1 mil corpos por mês. Cerca de metade era de vítima de assassinatos. Hoje, são cerca de 150 enterros mensais. A diminuição do movimento faz hoje com que o cemitério tenha só um terço de 30 quadras ocupadas. Antigamente, havia meses em que quase faltavam covas. Cerca de 7.500 árvores puderam ser plantadas na área para enfeitar as ruas do São Luís.

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