Traficante Nem: "Acho que Deus tem algum plano para mim"

Traficante Nem: "Acho que Deus tem algum plano para mim"

Atualizado: Sexta-feira, 18 Novembro de 2011 as 8:39

A entrevista do traficante Nem à jornalista Ruth de Aquino, da revista Época, às vésperas de sua prisão e da ocupação do seu ?território? ? a favela da Rocinha ? por forças da Polícia, do Exército e da Marinha, é uma daquelas matérias épicas da imprensa brasileira, que merecem ser elogiadas e comentadas pela visão que ela permite que as pessoas ? de fora dessa realidade ? tenham da, digamos, ?cultura? que impera nesses pequenos reinos do poder à margem do Estado brasileiro.

São alguns pontos tão contraditórios que só a esquizofrenia, individual e coletiva, poderia ? talvez ? fornecer alguma resposta plausível a essa confusão de valores tão gritante. Tá tudo dominado, só não se sabe por quem.

Segundo relata a jornalista, quando encontrou o traficante, ele conversava com um pastor sobre um rapaz viciado de 22 anos: ?Pegou ele, pastor? Não pode desistir. A igreja não pode desistir nunca de recuperar alguém. Caraca, ele estava limpo, sem droga, tinha encontrado um emprego? me fala depois?, disse Nem. Abaixo, alguns trechos da entrevista:

Drogas ?Não uso droga, só bebo com os amigos. Acho que em menos de 20 anos a maconha vai ser liberada no Brasil. Nos Estados Unidos, está quase. Já pensou quanto as empresas iam lucrar? Iam engolir o tráfico. Não negocio crack e proíbo trazer crack para a Rocinha. Porque isso destrói as pessoas, as famílias e a comunidade inteira. Conheço gente que usa cocaína há 30 anos e que funciona. Mas com o crack as pessoas assaltam e roubam tudo na frente.?

Tráfico ?Sei que dizem que entrei no tráfico por causa da minha filha. Ela tinha 10 meses e uma doença raríssima, precisava colocar cateter, um troço caro, e o Lulu (ex-chefe) me emprestou o dinheiro. Mas prefiro dizer que entrei no tráfico porque entrei. E não compensa.?

Ídolo ?Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.?

Religião ?Não vou para o inferno. Leio a Bíblia sempre, pergunto a meus filhos todo dia se foram à escola, tento impedir garotos de entrar no crime, dou dinheiro para comida, aluguel, escola, para sumir daqui. Faço cultos na minha casa, chamo pastores. Mas não tenho ligação com nenhuma igreja. Minha ligação é com Deus. Aprendi a rezar criancinha, com meu pai. Mas só de uns sete anos para cá comecei a entender melhor os crentes. Acho que Deus tem algum plano para mim. Ele vai abrir alguma porta.?

Este último trecho, em que Nem fala sobre religião, mostra como o ?inchaço? da igreja evangélica no Brasil está produzindo distorções terríveis na maneira como as pessoas, digamos, ?captam? a mensagem que lhes é pregada. ?Pastores? convivem e se envolvem com traficantes ? sobre os quais pesam crimes os mais terríveis ? como se fosse algo absolutamente normal e corriqueiro. Afinal, imagina-se, os fins justificam os meios.

Só que a gente não sabe mais quais são os fins nem os meios desse ?evangelho? pela metade. Não se prega mais arrependimento, mudança de vida, mas uma série de práticas esotéricas que podem, de alguma forma, garantir uma certa ?salvação? ilusória a quem a pratica ou, pelo menos, repete os mantras que lhe são ensinados.

fonte: Pavablog

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