A Tragédia Dentro da Tragédia (Santa Maria e Jesus – O que ele diria?)

A Tragédia Dentro da Tragédia (Santa Maria e Jesus – O que ele diria?)

Atualizado: Terça-feira, 29 Janeiro de 2013 as 11:47

 

Uma tragédia como essa acontece no Brasil, e é algo como um “mini” 11 de Setembro para nós. O país está de luto, chorando os corações que cessaram de bater no último domingo de Janeiro.
 
Na era do boom da informação, difícil é não tomar conhecimento do que houve. E não somente do que aconteceu, como de todos os detalhes reais e fictícios provenientes das notícias veiculadas na TV, jornais, revistas, sites e redes sociais.
 
Mas há outra tragédia dentro da tragédia, e é sobre essa que eu quero falar: é a da ignorância, me permita dizer. O infortúnio da insensibilidade. Da falta de compaixão, misericórdia e amor. E pasme, dentro da igreja.
 
É tudo muito triste, e a tristeza não ficou ilhada no Rio Grande do Sul, ela se alastrou. Foi um rompimento de fronteiras agressivo, não apenas territorial, mas em outras esferas também. Estamos tristes, não somente pelas vidas que se perderam, mas pelas que não compreendem o valor dela. Há um pesar profundo pelas famílias que foram apunhaladas pela fatalidade tão repentinamente, mas também há um pesar, não menos profundo, pela quantidade de ignorância sendo exposta em público, pela insensibilidade de pessoas que ainda não compreenderam a mensagem da cruz.
 
Antigamente, quando não havia internet, “todo mundo” ficava sabendo das catástrofes. Os desastres naturais, os acidentes aéreos, a enchente não sei de onde, o assassinato de Daniela Perez, a morte de Ayrton Senna… Todo mundo chorava, lamentava, comentava e criticava. As pessoas tinham suas opiniões formadas, mas elas ficavam restritas ao seu círculo social. Vizinhos, família, colegas de trabalho. Caso tivessem um comentário infeliz a fazer, deixavam uma marca negativa em seis, sete pessoas, e quando muito, (sendo bem pessimista) 20 ou 30 desafortunados os ouviam, mas isso não causava um efeito tão devastador na imagem de um grupo quanto nos dias de hoje.
 
A internet, entretanto, facilitou a comunicação de um modo que potencializou o poder de influência das pessoas. Sites, blogs e redes sociais massificaram a opinião, e agora todo mundo diz o que pensa quando quer e bem entende sobre qualquer coisa, não na mesa do restaurante, para um público que se pode contar nos dedos da mão, mas para milhares de indivíduos, simplesmente quando decide responder ao sr. Facebook “O que você está pensando?”.
 
Me refiro aos “cristãos”. Sim, a nós, que propagamos a mensagem do evangelho veementemente, que temos cadeira cativa no céu, que oramos, levantamos as mãos para adorar, ouvimos música gospel, falamos “aleluia”, “glória a Deus” e línguas estranhas. Os “cristãos”, assim entre aspas mesmo, porque ser chamado de cristão demanda uma atitude diferente do que tenho presenciado em face aos últimos acontecimentos.
 
santa maria
 
Temos uma poderosa arma nas mãos – a internet, mas muitos de nós a temos usado para atirar no próprio pé! Lembrando que estou falando do pé do Corpo do glorioso Cristo, a quem servimos. Estamos manchando a imagem do Deus vivo, quando, como representantes dele, dizemos algo que não ele diria, fazemos algo que ele não faria.
 
“O que os cristãos estão pensando?”, pergunta o Facebook, e vemos respostas como:
 
“A tragédia de Santa Maria é triste, mas eles procuraram isso”;
 
“O diabo tragou aquelas vidas, mas quem mandou elas obedecerem a satanás?” ;
 
“Se essas pessoas que estavam na boate estivessem em casa, isso não teria acontecido“
 
E por aí vai…
 
Será que essas pessoas ignoram que as que morreram no famoso 11 de Setembro tinham saído de casa para trabalhar honestamente e garantir o sustento de suas famílias? E o que dizer do acidentes em que os telhados de algumas igrejas desabaram em pleno culto, matando dezenas de irmãos?
 
Fico me perguntando, diante de tudo o que vejo, o que Jesus diria. Como ele agiria. Qual seria sua reação diante da tragédia de Santa Maria, em primeiro lugar, e diante da tragédia da ignorância de alguns, em segundo. (Penso seriamente que se começarmos a nutrir o hábito de nos perguntarmos o que pensaria/diria/faria Jesus, seremos privados de nos expor ao ridículo e envergonhar o evangelho).
 
Acho que encontrei a resposta.
 
A Bíblia conta a história de uma mulher que estava num lugar, digamos, um pouco mais “pesado” que a boate de Santa Maria. Ela estava num lugar que não agradava a Deus – um lugar de pecado. Estava, assim como aqueles jovens, no lugar onde não deveria estar. Aquela mulher não havia saído de casa para comprar drogas, beber ou dançar, mas para cometer adultério. Temos certeza de que Deus não aprovaria jamais sua atitude.
 
Uma tragédia aconteceu: ela foi pega em flagrante, e os religiosos da época queriam fazer com ela o que estava previsto na Lei para tal pecado – matá-la por apedrejamento. Levaram-na diante de Jesus, e é curioso perceber que ele não agiu como alguns que dizem ser como ele (a propósito, a palavra “cristão” significa literalmente “como Cristo”).
 
Jesus não disse “bem feito, você não deveria ter ouvido a Satanás!”. Ele não perguntou onde estava a sua bíblia. Ele não a entregou para aqueles homens indiferentemente. Ele não disse que ela não deveria ter saído de casa. Não disse “quem procura, acha”. Não pensou que não era problema seu, e nem ao menos meneou a cabeça em sinal de desaprovação. A vergonha daquela mulher lhe era suficiente. A dor da tragédia já era demais!
 
A atitude do mestre é algo em que deveríamos meditar – uma atitude de amor, compaixão e misericórdia. Ele não a acusou. Ele não a repreendeu. Ele não a condenou. Jesus baixou a cabeça e deixou-se tomar pelos sentimentos de Deus a seu respeito, pelo valor inestimável que possuía sua vida, e deixou que palavras inspiradas saíssem dos seus lábios para libertá-la da morte.
 
Diante da inspiração divina, ninguém pôde prosseguir no intento maligno. Ninguém podia julgá-la porque nenhum deles era perfeito, exceto ele. E mesmo podendo, ele não quis fazê-lo. Naquele dia, pelo menos uma vida foi salva – a daquela pobre mulher enredada pelo diabo.
 
Não é difícil transpor a metáfora para a boate incendiada. Não nos custa deduzir o que Jesus diria diante dessa calamidade (pelo menos não a mim). Estou certa de que Jesus choraria por aqueles jovens. Seu rosto demonstraria o pesar do seu coração e suas palavras novamente seriam de graça. Não a eles, pois não as podem ouvir mais, mas aos seus familiares e amigos, e a todos quantos chorassem e sentissem profundamente.
 
Ele diria que sente muito. Diria que estava disponível a todos os cansados e sobrecarregados pela adversidade, a fim de aliviá-los. Ele lhes contaria uma parábola que lhes abrissem os olhos para as realidades espirituais, diria que Deus nada teve a ver com isso, mas que o diabo é quem esta no ramo da morte e destruição, e que havia vida disponível nele para quem a desejasse, em abundância. Diria, por fim, que aquele que ousasse crer nele, ainda que estivesse morto viveria, e que estava pronto para ensinar tudo a respeito do que nos espera do “outro lado”. Ele seria gentil, afetuoso, compassivo, sincero. Ele seria AMOR, como sempre é.
 
O mais incrivelmente impactante de tudo isso, é que ele faria todas essas coisas sem parecer permissivo ou conivente com tudo aquilo que possa ter se passado dentro daquela boate.
 
Aos envolvidos na segunda tragédia (a da ignorância), no entanto, acho que ele não diria coisas tão doces assim. Mas, sabe, eu prefiro nem sequer conjecturar o que lhes diria, para não correr o risco de pôr absurdos na boca do mestre. Penso que talvez palavras lhe fossem desnecessárias, diante de tão grande exemplo de amor que ele já estaria dando com os envolvidos na primeira tragédia, afinal, os silêncios de Jesus eram sempre demasiado eloquentes, e discursavam muito mais do que nossos super elaborados sermões…
 
Contudo, digo eu, não o Senhor: Melhora, crente!
 
 
por Luciana Honorata
blog pessoal
 

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