Três maneiras erradas de ser igreja diante do racismo infantil

Três maneiras erradas de ser igreja diante do racismo infantil

Atualizado: Quarta-feira, 17 Agosto de 2011 as 1:39

O mito da democracia racial, no Brasil, foi oficialmente deslegitimado, porém permanece ainda muito vivo nas igrejas evangélicas brasileiras. Muitas igrejas acreditam na existência do preconceito racial na sociedade; entretanto, nega que ele esteja presente dentro da igreja. Pensamento que é fortalecido pela crença que "na igreja todos são iguais perante Deus". A crença nesse mito leva as igrejas a favorecer a produção e manutenção do pensamento racista no seu interior. Onde deveria ser uma comunidade de fé, amor e esperança está sendo o oposto, pois pessoas sofrem racismo, e as crianças são as principais vítimas dessa mazela. Vejamos três maneiras erradas de ser igreja diante do racismo infantil:

Igrejas erram por não tratar a questão racial com as crianças

A igreja tem como papel na sociedade promover cura para os indivíduos e, consequentemente, trazer benefícios para a sociedade, ou seja, salgar. No que se refere ao processo de socialização infantil ela estabelece relações com crianças de diferentes núcleos familiares. Esse contato diversificado poderia fazer da igreja um espaço de cura e vivência das tensões raciais. No entanto, tem acontecido exatamente o contrário: a negação das questões que envolvem o negro na igreja. Essa negação vai se tornando perceptível quando nas publicações e cartazes nas igrejas, apresenta imagens caricatas de negros ou ausência dos negros em datas comemorativas, como Dia das Crianças ou Dia das Mães, em geral ilustradas por crianças brancas ou famílias brancas, o que leva a criança negra a não se reconhecer na mesma. Existe ainda uma ausência de conteúdos que problematizem a questão do negro nos estudos bíblicos, privando as crianças negras de conhecerem a sua história na bíblia, que vai além da escravidão. Na igreja, a dor da criança negra não é reconhecida, havendo uma aparente falta de acolhimento por ministérios e pastorais, que silenciam ou se omitem em face de uma situação de discriminação. Tal postura denuncia a banalização do preconceito e a conivência das igrejas com ele.

Igrejas erram por reforçar o racismo na sua didática A igreja peca por reforçar o racismo nas crianças com sua didática na educação infantil e evangelística. Esse reforço do racismo infantil em nossas igrejas vem através de símbolos que reforça esse racismo como a associação da cor preta e negra como cor do mal e de tudo que é ruim, e a cor branca como cor da pureza e do bem, e de tudo que é bom. Por exemplo, o chamado Livro Sem Palavras e matérias didáticos onde essas cores representam o mal e o bem. Outra forma é reforçando nos estudos bíblicos que um coração cheio de pecado é um coração negro ou preto. Quando purificado por Jesus, torna-se um coração branco e mais alvo que a neve. Nas atividades com as crianças essas igrejas também reforçam esse racismo quando usam canções como “o meu coração era preto”, “as nuvens negras”, entre outras. Também reforçam esse racismo quando usam histórias como a do menino e o guarda-chuva, e trabalhos onde as crianças usam recortes para confeccionar corações pretos e corações brancos simbolizando um coração com pecados e um coração sem pecado. Nesse sentido, a igreja poderá ser um meio de manutenção do racismo e discriminação pelo uso de métodos simbólicos e indiretos na representação da cor preta como algo ruim. A desconstrução dessas didáticas pode ser de difícil acesso por causa do mito de que na igreja todos são iguais perante Deus, tornando-se mais fácil a interiorização dos ensinamentos que perpetuam nas escolas dominicais e bíblicas.

Igrejas erram ao tratar o racismo de forma inadequada A igreja também peca em tratar o racismo de forma errada. Existe, por incrível que pareça, uma tentativa de abordagem do racismo na escola dominical e no evangelismo de crianças. Existe um material da APEC (Aliança Pró Evangelização de Crianças) chamado Bola de Neve - o menino preto. É o único material de que tenho conhecimento que trata o racismo na escola bíblica infantil de forma explícita. Esse material é uma historinha com ilustrações que fala de um menino pretinho que sofreu discriminação por seus coleguinhas de classe por ser preto. Até aí muito interessante a historinha que abre espaço para uma discussão do racismo na escola dominical e bíblica. Mas a história começa a perder o rumo: o menino é orientado pela sua mãe sobre como lidar com aquela situação. A mãe do menino diz que para Deus não importa a cor das pessoas, o que importa é a cor do coração: “Há crianças de pele branca com coração negro, e há pessoas como eu, por exemplo, com pele escura, mas, meu coração está branco”. A mensagem transmitida é que, para o negro ser um cristão, ele tem de ter um coração branco, ou seja, para ser um cristão verdadeiro ele precisa negar a sua cor, sua etnicidade. O resultado dessa didática é o branqueamento de muitos negros e negras nas igrejas. Convertendo-se em negro de alma branca, há um silenciamento do preconceito por parte da criança e do cristão ao longo da vida.

E você? Tem algo que venha acrescentar, criando caminhos, para a superação do racismo nas escolas dominicais e bíblicas ajudando as nossas igrejas a vencer o pecado do racismo? Colabore com o seu pensamento.     Por Hernani Francisco da Silva

Hernani é secretario executivo da Comissão Ecumênica Nacional de Combate ao Racismo (CENACORA), profissional de comunicação e marketing e empreendedor social da Ashoka. Fundou em 1991 a Sociedade Cultural Missões Quilombo para modificar a visão que as igrejas evangélicas têm da cultura negra. Recebeu em 2000 o Prêmio Direitos Humanos, da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal. É autor de Movimento Negro Evangélico: um mover do Espírito Santo? pelo Selo Negritude Cristã.   Via Novos Dialogos

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