Um erro fatal a respeito da fé - Philip Yancey

Um erro fatal a respeito da fé

Atualizado: Terça-feira, 26 Fevereiro de 2013 as 8:46

 

O blog da editora Mundo Cristão publicou um trecho do livro 'Decepcionado com Deus', de Philip Yancey.
 
No texto, o escritor relata a experiência que o motivou a escrever o livro e falar sobre questões que não tem respostas fáceis.
 
"Aquilo que pensamos a respeito de Deus e cremos a respeito de Deus é importante – importantíssimo", escreve.
 
 
Confira o artigo:
 
 
Venho refletindo sobre essa questão da decepção com Deus há bastante tempo, mas hesitei em escrever a respeito por duas raz?es. Primeiro, eu sabia que teria de me defrontar com questões que não têm respostas fáceis – questões que, na verdade, podem não ter resposta alguma. E, em segundo lugar, eu não desejava escrever um livro que, por tratar da questão do fracasso, desencorajasse a fé de quem quer que fosse.
 
Sei que alguns cristãos rejeitariam sem mais nem menos a expressão “decepcionado com Deus”. Tal ideia é inteiramente errada, dizem. Jesus prometeu que a fé do tamanho de uma semente de mostarda é capaz de transportar montanhas, que qualquer coisa pode acontecer se dois ou três se reunirem para orar. A vida cristã é uma vida de vitória e triunfo. Deus quer que sejamos felizes e prósperos e que tenhamos saúde; qualquer outra condição revela falta de fé.
 
Foi durante uma visita a pessoas que creem exatamente assim que finalmente tomei a decisão de escrever este livro. Incumbido por uma revista, estava investigando a questão da cura divina, e a pesquisa me levou a uma grande igreja de triste fama na região rural de Indiana, um Estado norte-americano. Eu havia tomado conhecimento da igreja através de uma série de artigos publicados no jornal Chicago Tribune e de uma reportagem especial no noticiário “Nightline” da rede ABC de televisão.
 
féOs membros dessa igreja criam que a fé pura podia curar qualquer doença e que buscar ajuda em qualquer outro lugar ou pessoa – por exemplo, de médicos – demonstrava uma falta de fé em Deus. Os artigos do Chicago Tribune mencionaram pais que, atônitos, observavam seus filhos travarem batalhas perdidas contra a meningite, ou a pneumonia, ou um vírus comum de gripe – enfermidades que facilmente poderiam ser tratadas. Em um mapa dos Estados Unidos que mostrava onde as pessoas ligadas a essa igreja atualmente vivem, um artista do jornal desenhou pequenas lápides de túmulo para assinalar os locais onde pessoas haviam morrido depois de recusarem tratamento médico, em obediência ao ensino da igreja. Havia cinquenta e duas lápides ao todo.
 
De acordo com as reportagens, mulheres grávidas que seguiam o ensino da igreja morriam ao dar à luz numa proporção oito vezes maior do que a média nacional, e a taxa de mortalidade infantil era três vezes maior. Apesar disso, a igreja estava crescendo e tinha-se estabelecido em dezenove Estados e em outros cinco países.
 
Visitei a igreja-mãe, no Estado de Indiana, num dia quente de agosto. Ondas de calor se espalhavam por cima do asfalto das estradas, e nos campos de milho os talos estavam murchando e ficando queimados pelo sol. O prédio da igreja jazia sem placa indicativa no meio de um daqueles milharais, isolado, tal como um gigantesco celeiro comunitário. As pessoas estavam apreensivas devido a toda publicidade, especialmente desde que ex-membros haviam recentemente entrado com processos na Justiça. E no estacionamento tive de convencer dois guardas a me deixar passar.
 
Acho que eu estava esperando um sinal de fanatismo durante o culto: um sermão hipnótico que levasse pessoas ao desmaio, pregado por alguém do tipo Jim Jones. Não vi nada disso. Durante noventa minutos, setecentos de nós estávamos sentados num grande semicírculo, cantávamos hinos e estudávamos a Bíblia.
 
Eu estava entre pessoas simples. As mulheres não usavam calças, mas vestidos ou saias, e utilizavam pouca maquiagem. Os homens, de camisa e gravata, sentavam-se junto de suas famÌlias e ajudavam a manter as crianças comportadas.
 
Ali as crianças eram bem mais onipresentes do que na maioria das igrejas; estavam em todo lugar. Ficar quieto durante noventa minutos é algo que está além dos limites que uma criança pequena consegue suportar, e observei os pais tentando contornar a situação. Livros para colorir, havia aos montes. As mães faziam jogos com os dedos dos filhos. Algumas traziam montes de brinquedos em bolsas enormes. Se eu tivesse vindo a procura de sensacionalismo para o meu artigo, teria ido embora de mãos vazias. Eu tinha visto uma pequena amostra da velha cultura americana. A família tradicional estava passando bem, pelo menos nesse local. Ali os pais amavam seus filhos tanto quanto o fazem quaisquer outros pais na terra.
 
E, apesar disso (o mapa com as pequenas lápides saltava à mente), alguns deles estiveram sentados à beira do leito de seus filhinhos morrendo, e não fizeram nada. Um pai contou ao jornal Chicago Tribune da sua vigília de oração enquanto observava seu filho de quinze meses de idade lutar contra uma febre durante duas semanas. A doença inicialmente provocou surdez, depois cegueira. O pastor da igreja conclamou a ainda mais fé e persuadiu o pai a não chamar um médico. No dia seguinte, o menino estava morto. A autópsia revelou que ele morrera de uma forma de meningite facilmente tratável.
 
No geral, os membros da igreja em Indiana não culpam a Deus pelo que aconteceu, ou pelo menos não o admitem. Em vez disso, culpam-se a si mesmos por uma fé fraca. Enquanto isso, as lápides se multiplicam.
 
Saí daquele culto dominical com uma profunda convicção de que aquilo que pensamos a respeito de Deus e cremos a respeito de Deus é importante – importantíssimo. Aquelas pessoas não são bichos-papões nem assassinos de crianças, e assim mesmo algumas dezenas de seus filhos morreram simplesmente devido a um erro (creio eu) de teologia.
 
 
Philip Yancey
 

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