Um retrato da juventude evangélica

Um retrato da juventude evangélica

Atualizado: Quarta-feira, 13 Outubro de 2010 as 2:52

Em 1968, o então jornal Ultimato, noticiando o aniversário de 17 anos da Mocidade Para Cristo, divulgou alguns dados da entrevista feita pela revista Manchete com estudantes universitários para reforçar “o já conhecido declínio da religião entre os jovens: três em cinco universitários reconhecem que são menos religiosos que seus pais, 40% declaram pertencer à religião apenas por tradição e 69% deles julgam que a humanidade se afasta cada vez mais das ideias de Cristo”.

Uma recente reportagem da revista Época (“Jovens redescobrem a fé”) cita dados da Fundação Getúlio Vargas para mostrar o atual fervor religioso dos jovens. Mais de 90% dos jovens brasileiros entre 20 e 24 anos declaram ter alguma crença. Em comparação com as outras faixas etárias pesquisadas, o número é o mais alto de todos. Dos jovens entre 20 e 24 anos, 14,16% se declararam evangélicos, 73,5% afirmaram que são católicos, 2,96% creem em outras religiões e 9,38% se definem como sem-religião.

Os dados obtidos pelo Instituto alemão Berelsmann Stifung, a partir de pesquisa feita em 21 países, coloca o jovem brasileiro como o terceiro mais religioso do mundo, perdendo para os nigerianos e guatemaltecos. Entre os jovens brasileiros, 95% se dizem religiosos e 65% afirmam que são profundamente religiosos.

Mas quem são, o que pensam e o que fazem esses jovens religiosos? E os jovens evangélicos? A pesquisa “Juventude Evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos”,* feita pela Editora Ultimato em julho de 2010, responde parcialmente a essas perguntas. Os resultados não podem ser generalizados. O que se tem é o retrato parcial de uma das juventudes evangélicas: jovens direta ou indiretamente ligados à editora. A esse viés se juntam a metodologia usada para a pesquisa (internet) e -- derivado de sua ligação com Ultimato -- o fato de se concentrarem nas igrejas históricas (apenas 19% são de igrejas pentecostais). Para exemplificar os contrastes entre essa amostra e a juventude em geral: entre os que responderam a pesquisa, a quantidade de jovens que estão cursando ou que já concluíram algum curso superior é de mais de 80% -- uma taxa inversa a da população brasileira total. (veja Passando a perna nas estatísticas).

Com isso em mente, é possível obter muitas informações e conclusões interessantes e surpreendentes!

A pesquisa

O questionário foi preenchido por 1960 jovens entre 13 e 34 anos. Todos os estados foram representados, sendo que os de maior representatividade foram São Paulo (20%), Rio de Janeiro (19%) e Minas Gerais (13%). Ao todo, 61% deles moram com os pais -- quase a mesma porcentagem de jovens solteiros (68%). Dos motivos para a permanência na casa dos pais, 22% alegam não ter dinheiro para se sustentar sozinhos e 17% alegam ter um bom relacionamento com os pais e gostar da companhia deles. Entre os outros motivos alegados, alguns disseram não sair de casa porque ainda não casaram e alguns disseram que não podem sair porque apoiam a família financeira ou emocionalmente. Parece que eles estão cumprindo à risca a ordem: Deixará o homem a sua família...

Sobre ser jovem

As respostas às perguntas sobre a melhor e a pior coisa em ser jovem têm forte ênfase no futuro, como era de se esperar. A maioria respondeu que a melhor coisa em ser jovem é ter um futuro cheio de diversas possibilidades (65%). Quanto à pior coisa, 35% concordam que é a preocupação com o futuro e 32% acham que é a insegurança ou medo de tomar decisões. Apenas 2% acham que é não ter emprego e 3% que é o controle dos pais. Entre as três atividades que mais ocupam os jovens nos fins de semana estão: ir à igreja (85%), navegar na internet (48%) e sair com os amigos (47%). As três atividades de um fim de semana ideal são: ir à igreja (91%), sair com os amigos (63%) e sair com o namorado (44%). As atividades de lazer estão mais restritas à televisão e à internet. A comparação entre o que é considerado ideal e o que eles de fato fizeram no último fim de semana revela um pouco de suas ambiguidades. Nem todas as atividades consideradas ideais estão entre as atividades realizadas. As maiores discrepâncias são: apenas 9% acham que navegar na internet é uma atividade ideal, mas quase 40% fizeram isso no fim de semana; apenas 4% acham que assistir televisão é uma atividade ideal, mas 28% disseram ter feito isso no fim semana; e 44% disseram que sair com o/a namorado/a é uma atividade ideal, mas apenas 19% disseram ter feito isso no fim de semana.

Sobre militâncias

A maior participação se dá em grupos e movimentos jovens vinculados a igrejas: cerca de 79% dos jovens participam, 14% não participam, mas gostariam de participar, e apenas 4% não gostariam de participar. A maior rejeição se dá com relação à participação em partidos políticos: 72% dos jovens não participam e não gostariam de participar. Os dados sobre a participação em movimentos ambientalistas, voluntários em ONGs e em trabalhos comunitários colocam em evidência o potencial mobilizador das organizações sociais para tantos jovens com predisposição de serem voluntários. Estranha-se a porcentagem de 29% para os que não participam e não desejam participar de movimentos ambientalistas, já que esta é uma opção tão em voga atualmente. A participação (32%) somada à predisposição para participar em movimentos estudantis (28%) é um dado surpreendentemente alto. Segundo os jovens, os três principais problemas do Brasil são a distância de Deus (44%), a desigualdade social (13%) e a má administração pública (12%). Houve grande concentração em uma resposta religiosa, enquanto problemas mais estruturantes tiveram um índice relativamente baixo.

Sobre personalidades

Os entrevistados foram solicitados a citar o nome de uma pessoa, conhecida do público geral, brasileira ou não, que eles admirassem. As respostas citam principalmente personalidades ligadas à política, esporte, artes e literatura. Apenas quatro pessoas foram lembradas por mais de oitenta jovens (equivalente a 5% dos entrevistados), o que mostra grande diversidade de opiniões. O nome mais citado foi o de Marina Silva, admirada por 140 pessoas. Kaká foi citado por 119, Lula por 114 e Nelson Mandela por 81 pessoas. Jesus foi lembrado por 58 e Bono Vox por 45. Martin Luther King Jr. foi citado por quarenta e Angelina Jolie, por 22. Foram lembrados também os nomes de Cristovam Buarque (19), José Alencar (18), Silvio Santos (17), C. S. Lewis (17), Obama (17), Luciano Huck (13), Steve Jobs, Madre Tereza e Ayrton Senna (12), Bernardinho (11) e Lutero (10). Dez pessoas disseram admirar o próprio pai. Ao todo foram citados 240 nomes. Entre as pessoas mais admiradas, conhecidas no meio evangélico, foram citados 340 nomes, e a dispersão de votos foi ainda maior, o que demonstra mais uma vez a falta de unanimidade. O mais citado é Silas Malafaia (105), seguido por Ana Paula Valadão (75), Kaká (56), Ariovaldo Ramos (53), Jesus (45), Ed René Kivitz (45) e Caio Fábio (43). Algumas pessoas dizem admirar Ricardo Gondim (38), C. S. Lewis (29), Ronaldo Lidório (27), Fernanda Brum (27), Russel Shedd (25), Marina Silva (25), Billy Graham (24) e John Piper (23). Dez pessoas disseram admirar o próprio pastor.

Sobre a vida

Entre os fatores considerados importantes para se melhorar de vida, os mais votados foram: ter a benção de Deus (96%), ter estudo (96%), trabalhar duro e ser dedicado (91%), falar bem (86%) e ter metas específicas (81%). Muitos concordam que é ser inteligente e talentoso (75%) e ter experiência (70%). Os resultados para as opções ter boa aparência (43%), ter amigos e parentes influentes (30%) ou sorte (17%) para melhorar de vida chamam atenção. Ainda que não sejam a maioria, esses dados apontam respostas pouco vinculadas à ética protestante. Seria uma influência do senso comum brasileiro? Em relação às coisas importantes para a vida pessoal, ter fé (94%), ser honesto (89%), ser amigo e leal (87%) e ter uma boa relação familiar (86%) foram as mais votadas. Ser trabalhador e responsável (77%), viver numa sociedade mais justa (59%), ter um trabalho que traga realização (58%) e ser estudioso (58%) também são coisas importantes. Alguns concordam que é sentir-se útil para a sociedade (49%), aproveitar a vida (39%) e ter um diploma (32%). Poucos acham que é muito importante ter uma ideologia (18%), ter um corpo bonito e saudável (9%) e ter muito dinheiro (4%). Menos de 1% dos jovens acha que ser uma pessoa famosa é algo importante. Porém, para a resposta “ter um corpo bonito e saudável”, quando se soma o que é considerado ‘muito importante’ ao que é considerado ‘importante’, a análise é outra: a concordância sobe para 63%. Tal porcentagem confirma a exigência dos processos seletivos atuais e mostra que a aparência física tem sido considerada pelos jovens como um critério levado em conta nos processos de recrutamento de pessoal. A revista Superinteressante (janeiro de 2010) traz na reportagem “A arte de se vender” um desastroso conselho: “Largue os livros e vá agora mesmo para a academia de ginástica: pode ser bom para a sua carreira”. Para endossar, cita dados de pesquisas: cada ano de estudo aumenta em 15% o salário de um profissional, mas pessoas consideradas bonitas ganham, em média, 18% a mais do que as feias. E ainda: segundo um estudo da Universidade de Flórida, cada centímetro a mais de altura rende 600 reais de salário adicional por ano.

Sobre os medos

A maioria dos jovens (83%) diz se sentir feliz a maior parte do tempo. Cerca de 44% sofrem continuamente com a ansiedade, 22% sofrem continuamente com a instabilidade emocional, 5% sofrem com depressão e 5% com alguma fobia. Apenas 27% dos jovens dizem não ter medo de nada. Entre os 69% que assumem ter medo de algo, o medo de fracassar, de não conseguir alcançar as metas estabelecidas, de decepcionar as pessoas, de não ser bem-sucedido, de fazer escolhas erradas e falhar na vida é percebido em cerca de 270 respostas. Medos relacionados com não ouvir a voz de Deus, não obedecer, sair dos caminhos de Deus, decepcionar Deus, aparecem em cerca de 180 respostas. Cerca de 115 pessoas mencionam o medo de perder alguém querido, cerca de 109 pessoas têm medo de ficar sozinhas, cerca de 92 pessoas têm medo da violência (incluindo estupro, assalto e sequestro) e cerca de 84 pessoas têm medos relacionados ao futuro. Cerca de 76 pessoas citam o medo de ficar velho, doente, pobre, inválido ou desempregado. O medo da morte aparece em cerca de 39 respostas. Medos relacionados com a família (não casar, ter um mau casamento, se divorciar, criar filhos etc.) aparecem em 32 respostas. Algumas pessoas citaram medos físicos: trinta pessoas dizem ter medo de insetos e 26 dizem ter medo de altura e lugares fechados. A pesquisa incluiu também uma pergunta sobre sonhos.

Sobre a conversão

Quanto ao perfil religioso dos pais, 61% dos jovens têm pai evangélico e 81% têm mãe evangélica. 19% têm pai católico e 11% têm mãe católica. Menos de 2% têm pais espíritas ou de religiões afrobrasileiras. Sobre os fatores que ‘influenciaram muito’ a conversão dos jovens, os mais citados são uma formação familiar cristã (48%), a leitura da Bíblia (47%), conversas e convívio com amigos, conhecidos ou familiares (42%), nascer num lar evangélico (41%) e a pregação (40%). Alguns citam acampamentos (37%), ministérios voltados para a juventude (34%) e alguma expressão artística (25%). Poucos consideram como fator de influência para a sua conversão o contato com pessoa até então desconhecida (12%) e algum material evangelístico impresso ou programas de televisão ou rádio (9%). Quando a estes são adicionados os percentuais dos jovens que responderam sobre os fatores que ‘influenciaram’ a sua conversão, a leitura da Bíblia sobe para 81%, a pregação para 71% e a conversa com amigos e familiares para 70%. Ministérios voltados para juventude, opção que estava em 7º lugar (com 34%), sobe para 4º lugar (com 60%).

Sobre a igreja

Dos jovens entrevistados, 60% são provenientes de igrejas tradicionais e 19% de igrejas pentecostais. Cerca de 21% são de outras linhas. Caso não fossem de igrejas pentecostais nem tradicionais, os jovens poderiam descrever como é sua igreja. É nítida a tentativa de mesclar tradicional com pentecostal e pelo menos 52 expressões usadas denotam tal esforço. Eis alguns exemplos: Tradicional com toque pentecostal /Acredita nos dons e no estudo da palavra / Busca o equilíbrio entre a tradição e o avivamento / Doutrinariamente tradicional, renovada nas práticas religiosas / Evangélica, carismática e histórica / Meio a meio / Nem apegada a tradição nem pegando fogo / Neo-ortodoxa de pentecostalismo tradicional / Calvinistas que têm vários dons do Espírito Santo / Um pouco de tudo, vive missão integral. Dois jovens desabafaram: “Essa divisão é um pouco simplista, não?” e “Não suporto essas definições, não têm sentido”. Quando perguntados se já mudaram de denominação, cerca de 64% responderam que nunca mudaram, 23% que mudaram uma vez e 4% que mudaram três vezes ou mais. É um número considerável, ainda que, entre os que já mudaram, cerca de 21% o fizeram por questões geográficas (mudança de bairro, de cidade, de país) -- o que nada tem a ver com a insatisfação com a igreja. Entre os outros motivos, 21% mudaram porque a denominação não correspondia às necessidades espirituais, cerca de 20% porque discordavam das questões doutrinárias, 17% por falta de coerência entre o que a igreja/denominação pregava e as atitudes das pessoas, 16% por influência de familiares e amigos, 10% porque a denominação não correspondia às expectativas sociais, emocionais ou relacionais, 7% porque não se sentiam acolhidas, e 4% porque não concordavam com a forma dos cultos (liturgia). A despeito disso, os jovens parecem satisfeitos com a igreja na qual congregam: 73% acham que os pastores têm uma vida coerente, 73% acham que as pregações são ricas em conteúdo bíblico, 71% acham que as pregações são cristocêntricas, 65% acham que as pregações são relevantes e pertinentes ao contexto do mundo atual e da comunidade local, 64% acham que a linguagem é acessível aos jovens, 60% acham que as pregações são voltadas às necessidades espirituais e 51% acham que os visitantes são bem recebidos. Metade (50%) acha que a igreja se envolve com missões transculturais, 48% acham que a igreja se envolve socialmente com a comunidade em que está inserida, 47% acham que a liturgia/ordem do culto é aberta/flexível à participação de todos, 46% acham que a igreja se preocupa com a saúde emocional dos participantes, 43% acham que a igreja se envolve com ações de misericórdia e na busca por justiça e 42% acham que os membros acolhem uns aos outros. As piores avaliações estão em sua maioria relacionadas à missão da igreja com os de fora. Um dado importante! Os jovens foram perguntados sobre suas funções na igreja. Era possível marcar mais de uma opção e constatou-se que vários exercem funções simultâneas. Dos 1960 jovens que responderam à pesquisa, 873 estão envolvidos com a área de música (louvor, coral, conjunto ou instrumentista), cerca de 611 são líderes de grupo de jovens, adolescentes ou casais e cerca de 578 são professores na escola dominical. Cerca de 233 são líderes de célula ou grupo nos lares, cerca de 159 são líderes ou membros de conselho missionário e cerca de 148 são líderes ou membros de conselho de ação social. Chama atenção o alto número de jovens líderes e formadores de opinião.

Sobre crenças

Constatou-se que 97% dos jovens acreditam no Deus trino (menos de 1% não acredita ou não soube responder), 91% acreditam em Jesus 100% Deus e 100% homem (2% não acreditam e 4% não souberam responder), 95% acreditam no nascimento virginal de Jesus (1% não acredita e 1% não soube responder), 97% acreditam na atuação do Espírito Santo (menos de 1% não acredita ou não soube responder), 96% acreditam na Bíblia como regra de fé e prática (1% não acredita e 1% não soube responder), 94% acreditam na existência do Diabo e dos demônios (2% não acreditam e 1% não soube responder), 96% acreditam em curas milagrosas (3% não sabem e 2% não acreditam). Até aqui, o grau de concordância supera os 90% e o nível de descrença é menor do que 3%. Constatou-se ainda que 90% acreditam na imortalidade da alma (4% não sabem e 3% não acreditam), 84% acreditam na ressurreição do corpo (6% não acreditam e 6% não sabem responder). A soma dos dados não é desprezível e confirma a tese de N. T. Wright de que a resposta cristã clássica à questão da mortalidade e do além é mais desconhecida do que rejeitada. Constatou-se ainda que 84% acreditam na atualidade de todos os dons do Espírito Santo (7% não sabem e 6% não acreditam). Esses resultados revelam jovens com convicções firmes e conservadoras do ponto de vista da doutrina. E eles têm também convicções bem ortodoxas com relação ao sincretismo religioso. Ao serem perguntados sobre a influência que outras crenças têm em sua vida (energias, aura e astral, duendes e gnomos, encarnação/vidas passadas, astrologia, espiritismo, contato com os mortos, parapsicologia e ocultismo), menos de 1% dos jovens responderam que tais crenças não têm influência em sua vida. A exceção é a astrologia, que parece influenciar 3% dos jovens.

Sobre disciplinas espirituais

Os jovens foram solicitados a indicar a frequência com que praticam certas disciplinas espirituais. Surpreende o fato de que o número dos que fazem suas orações a sós, ‘sempre’ e ‘quase sempre’ (62%), seja menor do que o número dos que contribuem financeiramente, ‘sempre’ e ‘quase sempre’ (69%). O nível de leitura da Bíblia (‘sempre’: 28%, ‘quase sempre’: 34%) não está satisfatório, ainda mais quando 8% responderam não lê-la ‘nunca’ ou ‘quase nunca’. Parece que, pelo menos nesse caso, o vaticínio “como nossos pais” infelizmente não se cumpre... As disciplinas mais frequentes são: orar antes das refeições (81%) e fazer orações intercessórias (76%). A frequência à escola dominical pode ser considerada alta (62%) quando se ouve que muitas igrejas têm sofrido com a pequena frequência e outras têm até extinguindo tal programação. A evangelização de parentes e amigos é a disciplina devocional colocada entre as últimas (os que a praticam ‘sempre’ e ‘quase sempre’ somam 39%).

Sobre a conduta pessoal

Foi pedido que os jovens marcassem o nível de concordância com algumas afirmativas relacionadas à sexualidade e, em seguida, respondessem sobre sua conduta pessoal. Entre os que responderam, 86% concordam que a conduta cristã não apoia o sexo antes do casamento, 76% dos jovens dizem estar pessoalmente comprometidos com essa conduta e 8% não se comprometem. Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, 94% concordam que a conduta cristã não apoia tal comportamento, 90% dizem estar comprometidos com a conduta e 3% não se comprometem. Quanto à afirmação de que a conduta cristã ensina o não envolvimento com a pornografia, 94% concordam. Com relação à conduta pessoal, a porcentagem cai mais do que nas outras questões: 75% dizem estar comprometidos e 10% não se comprometem. Com relação à prostituição e ao adultério, 96% concordam que a conduta cristã reprova essas práticas, 81% dizem estar comprometidos com essa conduta e 2% não se comprometem. Com relação ao casamento entre pessoas da mesma fé, 85% concordam que a conduta cristã recomenda isso (porcentagem surpreendentemente alta, praticamente igual à afirmativa de que a conduta cristã não aprova o sexo antes do casamento) e 77% disseram estar comprometidos com esta conduta. Esses dados mostram uma juventude conservadora, com valores muito diferentes da juventude em geral. Basta citar a recente reportagem da revista Veja (‘A geração tolerância’), segundo a qual hoje 60% dos brasileiros declaram achar a homossexualidade natural. Também apontam para uma direção diferente de algumas pesquisas feitas entre evangélicos, como a que foi feita com jovens de 22 diferentes denominações, frequentadores regulares de igreja, a maioria solteira. De acordo com ela, 52% deles já haviam feito sexo. Destes, cerca da metade mantinha uma vida sexual ativa com um ou mais parceiros. A idade média com que perderam a virgindade era de 14 anos para os rapazes e 16 para as moças.

Sobre o aborto

Quando perguntados sobre os motivos que justificam um aborto, 46% disseram que nada justifica -- porcentagem bem mais alta do que a média nacional (segundo pesquisa do Ibope sobre o aborto, realizada em 2003, apenas 31% da população acha que ele deveria ser proibido em qualquer caso). Cerca de 40% acham que o aborto é justificável quando a vida da mãe corre perigo, 12% acham que é justificável quando o bebê pode nascer com defeito ou doença, 2% acham que a falta de condições financeiras justifica um aborto e 1% acha que qualquer motivo justifica um aborto. Cerca de 11% não quiseram ou não souberam responder. O aborto em caso de estupro, já previsto na lei brasileira como algo legal, não estava entre as opções. Sobre bebidas e drogas

Sobre o consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens, 32% bebem esporadicamente, 27% apenas experimentaram, 19% nunca experimentaram, 14% não bebem mais e 5% bebem nos fins de semana. Sobre o cigarro, 69% nunca fumaram, 21% apenas experimentaram, 6% não fumam mais e menos de 1% fuma todos os dias, esporadicamente ou nos fins de semana. Quanto ao uso de remédios de tarja preta sem prescrição médica, 90% dizem nunca ter experimentado, 3% apenas experimentaram, 3% não usam mais e menos de 1% usa esporadicamente ou todos os dias. Quanto ao uso de drogas ilícitas, 88% dos jovens nunca experimentaram, 6% apenas experimentaram, 3% não usam mais e menos de 1% usa esporadicamente ou nos fins de semana.

Sobre o futuro

Igrejas, ministérios, organizações e denominações têm se voltado para a juventude evangélica. A necessidade de uma linguagem específica para este público, a renovação das lideranças, o potencial conflito entre gerações, o desejo de resguardar os jovens dos apelos mundanos são alguns dos motivos para tal olhar. Como ficou evidente nos resultados da pesquisa, os jovens vêm de fato ocupando espaços importantes como promotores do reino de Deus. Muitos se sentem chamados e desejosos de servir a Deus em ministérios específicos, em missões e em suas profissões. Outros, talvez mais convencidos do que a geração anterior sobre as consequências do mandato cultural, sentem-se vocacionados a servir a Deus na arte, política, ciências sociais, música, literatura etc. Estes precisam de oração, “envio” e acompanhamento tanto quanto aqueles. Alguns jovens naturalmente desejam introduzir novidades na Igreja: na forma de se relacionarem, nas noções de autoridade e hierarquia, na liturgia etc. Eles precisam ser escutados e, algumas vezes, confrontados. Os jovens que estão titubeantes na fé devem ser, primordialmente, acolhidos. Eles precisam de espaço para questionar sem ser rechaçados, buscando assim respostas em campo seguro. Os que vivenciam conflitos por causa de sua conduta moral precisam de abertura para conversas francas. Os que buscam a igreja principalmente como espaço de apoio emocional precisam ser desafiados a uma fé mais profunda. Em todos os casos, a Igreja precisa fazer questão de estar com os jovens. E os jovens precisam fazer questão de estar com a Igreja, com toda a sua diversidade. Jesus planejou uma Igreja intergeracional, em que velhos, adultos, jovens e crianças compartilhem entre si suas experiências únicas e adorem a Deus juntos com a humanidade e a grandeza próprias de cada fase da vida.

O tempo não para; os jovens, sempre os teremos conosco. Cada geração levantará questões à geração seguinte. A respeito dos jovens e adolescentes de hoje, poderíamos perguntar:

Serão profundos conhecedores da Palavra de Deus? Serão corajosos o suficiente para assumir uma fé exclusiva, num ambiente cada vez mais plural? Deixarão que as marcas de uma sociedade que se guia pelo mercado pautem as suas prioridades e suas agendas? Conseguirão não se deixar levar pela força de um evangelho adocicado, que faz bem apenas às emoções? Anunciarão o evangelho? Serão melhores promotores da justiça do reino? Estarão dispostos a sofrer por Cristo? Serão menos sectários?

Caminharão um pouco mais na direção da unidade da igreja? Permanecerão firmes na moral cristã? Não se divorciarão -- ou se divorciarão menos do que seus pais? Criarão seus filhos e suas filhas no caminho do Senhor? O que farão com a história das gerações que os precederam?

Essas perguntas podem contribuir para a pauta a ser elaborada pelas igrejas e ministérios ‘com’ e ‘para’ os jovens. Abrir-se para os jovens é abrir-se para o novo. E mesmo que o novo pareça ameaçador, ele é fonte de rejuvenescimento para a Igreja.

Nota

* A pesquisa foi enviada em 22 de julho de 2010 por e-mail a assinantes de Ultimato de até 34 anos e a outros assinantes, convidando-os a encaminharem aos parentes e amigos jovens da igreja em que congregam, e a líderes de ministérios jovens. Não era preciso se identificar e nenhuma questão era obrigatória. A pesquisa foi encerrada em 29 de julho de 2010. Em www.ultimato.com.br/sites/jovem você encontra outros artigos e análises comparativas da pesquisa “Juventude evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos”.  

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