Um santo cara de pau

Um santo cara de pau

Atualizado: Quinta-feira, 23 Maio de 2013 as 9:18

cara de pau

Quem é o cara de pau aqui? 
 
Sou eu! Sou eu, irmão! Sou eu que te dou “A Paz do Senhor” quando meu coração está carregado de ódio, ciúme e inveja contra ti. Sou eu mesmo o cara de pau que te recebo com um sorriso, e ao virares as costas apunhalo-te com minhas palavras e pensamentos ferinos. 
 
Esse cara de pau sou eu! Sou eu, irmão! Sou eu que prego e sei tudo sobre humildade, mas não sou capaz de reconhecer meus erros, nem de pedir perdão. Todo mundo está errado, menos eu. Todo mundo tem que pedir perdão, menos eu, porque meu orgulho e minha arrogância não me deixam ver que sou um miserável pecador e fazedor de maldades contra meus irmãos.
 
Esse cara de pau sou eu! Sou eu, irmão! Sou eu que me derreto em prantos diante da congregação; faço meu showzinho emocional, aquela cara de espiritual chorão, mas não rasgo meu coração diante de Deus, não tenho coração quebrantado, ando arrastando a carniça da velha natureza. 
 
Esse cara de pau sou eu! Sou eu, irmão! Sou eu que vivo dizendo que não se deve amar o poder, mas deixo de freqüentar a igreja, abandono a fé ou me torno um problema para a igreja quando me deixam longe dos holofotes, dos palcos e dos púlpitos.
 
Sou eu esse cara de pau, irmão! Sou eu que arroto santidade diante da igreja, cobro santidade dos outros, mas minhas atitudes no mundo são vergonhosas: sou um mundano compulsivo, um adúltero indomável, um imoral insaciável, além de um cínico sem pudor. 
 
Eu sou um senhor cara de pau, irmão, porque prego, ensino e cobro comunhão e amor aos irmãos, quando na verdade meus surtos de ira não medem conseqüências para expulsar pessoas da igreja. A quantos expulsei, a quantos destruí, a quantos anulei. Todo mundo já fez as contas, menos eu. Eu sou um senhor cara de pau, irmão.
 
Mas que cara de pau sou eu, irmão! No louvor, eu reviro os olhos, tenho surtos histéricos, encho-me de uma tal autoridade para escovar os corações dos meu irmãos, mas estou com minha alma cheia de carunchos, de nódoas, de manchas, de fungos, de resíduos de uma vida de hipocrisia e acúmulo de pecados não confessados na presença de Deus. Mas que cara de pau sou eu!
 
Óh! Mas quanta cara de pau, ao representar uma espiritualidade que não tenho. Sou um ator perfeito no palco da santidade de Deus. 
 
Meu Deus! Que tremendo cara de pau sou eu, que admito e concordo com a submissão às autoridades da igreja, mas não posso ter meus interesses ameaçados que já me transformo num tremendo alvoroçador de ânimos, em um causador de rebeliões, um maldizente dos meus líderes, dos meus pastores. 
 
Santa cara de pau, a minha! Eu sou um deboche da fé cristã. Sou um monte de entulhos da maldita carnalidade. Sou uma pretensa celebridade do universo religioso, um ser que sobrevive miseravelmente de bajulações, aplausos, elogios e fatias de privilégios. Muita gente sabe disso e alimenta meu ego insano com palavras, gestos e jeitinhos. 
 
Eu, um tremendo cara de pau, sou um truque, um estelionato, uma grande mentira, um ato fascinante e arrebatador da peça macabra, escrita no inferno, que, por descuido de quem vigia a igreja, está arrancando aplausos da plateia que se esqueceu da Bíblia, que se empolgou com carismas humanos, que deixou de ter fé para ser fã, que se encanta com os efeitos especiais da apostasia e com todas as performances de carnalidade.
 
Eu sou sujeito-autor da deformação espiritual de muitas vidas que estão sendo submetidas a um perverso discipulado. Minha influência é digna de prêmios, afinal, ser cara de pau é compensador enquanto o juízo divino não se manifesta, enquanto Deus não arranca minha máscara e mostra meu rosto desfigurado, deformado e infeliz. 
 
Minha cara de pau tem o gosto amargo do cedro, mas o verniz da hipocrisia a torna doce e encantadora aos olhos de quem me vê. Além do mais, é uma obra de arte, inspirada nas formas e traços mais fascinantes que uma espiritualidade de aparências pode produzir.
 
Desgraçado cara de pau sou eu, que apodreço nestas certezas forjadas, nestas ilusões perversas, no engano que me dominou.
 
 
 
- Pr. Abimael Canto Melo
 

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