A voz rouca das ruas

A voz rouca das ruas

Atualizado: Quarta-feira, 19 Junho de 2013 as 7:31

protestoTenho acompanhado à distância as manifestações pacíficas no Brasil. A de ontem, no Rio de Janeiro, foi surpreendente pela quantidade de pessoas: cerca de 100 mil sem que houvesse qualquer logística de mobilização por trás a não ser as redes sociais. O movimento começou por causa do aumento no preço das passagens de ônibus. R$ 0.20 centavos parece pouco, mas R$ 3,20 já é um valor elevado para uma família com quatro pessoas até para locomover-se para os cultos. É só fazer as contas.
 
Nessas horas ouvimos e lemos diferentes opiniões tanto contrárias quanto favoráveis. Ficamos entre a omissão e a ação. Uns defendem, outros condenam. Tenho lido bastante nas redes sociais e a maioria das postagens é bastante reducionista. É óbvio que há vários ângulos a serem analisados. Mas não podemos cair na tentação de nos prendermos apenas a alguns deles. Assim, eis o que penso:
 
No regime democrático, as manifestações são legítimas e representam uma forma de pressionar os governos contra medidas com as quais não se concorda. Elas podem ser solitárias e coletivas, dispondo dos mais diferentes meios para fazer ecoar a voz dos insatisfeitos. Nesse sentido, não podemos negar o grande poder de fogo das redes sociais. É tanto que o próprio governo do PT dispõe de uma grande rede de blogs que lhe dão suporte com a contrainformação. Mas outra maneira de manifestar-se é para as ruas, como agora outra vez ocorre no Brasil.
 
A meu ver, o povo brasileiro é extremamente "pacífico", para não dizer omisso. Em outros países, as massas já estariam nas ruas há muito tempo. O descalabro que temos experimentado já ultrapassou todos os limites. Sequer vou entrar no mérito. Mas os que vivemos no Rio de Janeiro sabemos como os governos estadual e municipal têm tratado a população fluminense. São verdadeiros "ditadores" que fariam Hugo Chavez corar de vergonha!
 
Pelo que vi ontem, à distância, as manifestações foram pacíficas, não só no Rio mas também em outras capitais. Mas e os atos de vandalismo ao final de cada ato? Ora, precisamos condená-los com veemência, mas temos também de convir que no meio de tanta gente pode haver os mal-intencionados e aqueles que se infiltram a serviço de quem interessa para descaracterizar a natureza pacífica do movimento. Já há, no Rio de Janeiro, indícios que apontariam os atos de vandalismo nas imediações da ALERJ como algo orquestrado no "andar de cima" com essa finalidade.
 
Por outro lado, onde já se viu a polícia vir para as ruas armada de fuzis e usá-los contra os manifestantes, contrariando toda a doutrina para lidar com esse tipo de situação? De onde partiram as ordens? Afinal, o papel dos órgãos de segurança nesses casos é garantir o direito de ir e vir das pessoas e que a manifestação seja feita de forma pacífica, cuidando para que não haja acidentes de percurso. Apenas para pensar, a ação dos vândalos sempre começa depois que as manifesações terminam. Não é curioso?
 
Por fim, as manifestações não se esgotam em si mesmas. É preciso que haja consciência na hora do voto. A nossa democracia não é direta, mas representativa. Ela é exercida por meio daqueles que elegemos para legislar e administrar a coisa pública. Não adianta gritarmos, se na hora do voto não estamos preparados para fazer boas escolhas. Que os políticos entendam "a voz rouca das ruas", como já dizia Ulysses Guimarães, e melhorem a sua performance. E que nós, eleitores, aprimoremos o fazer político, expurgando os maus políticos do ambiente público.
 
 
- Geremias Couto
Via Facebook
 

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