Êxodo Eclesial: Quando a Igreja torna-se irrelevante - Coluna Prof. Vailatti

Êxodo Eclesial: Quando a Igreja torna-se irrelevante - Coluna Prof. Vailatti

Atualizado: Quinta-feira, 26 Fevereiro de 2009 as 12

"E, naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia, (...) Então, ía ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão" . (Mateus 3.1,5).

Esse texto aparentemente inexpressivo de Mateus desenha um quadro cujos contornos são dos mais preocupantes. Ele me faz pensar no fenômeno conhecido como Êxodo Rural, o qual ocorreu no Brasil principalmente entre os séculos XIX e XX. Nessa época, era comum a população campesina abandonar suas casas e transferir-se para as grandes cidades em busca de melhores condições de vida como um todo. Partindo desse exemplo, penso que podemos ver nesse relato do Evangelho algo praticamente análogo.

O texto de Mateus nos mostra as pessoas de Jerusalém indo ter com João no deserto da Judéia. Ora, Jerusalém era o centro da fé judaica. Era o lugar acerca do qual todos os judeus se orgulhavam. Além disso, Jerusalém era o local onde estava situado o templo com toda a sua liturgia, ritual e aparatos. E era dentro desse templo que todas as atividades religiosas eram praticadas. Acontece, porém, que mesmo podendo usufruir de tudo isso, as pessoas saíam de Jerusalém para irem buscar a presença de Deus em um deserto. Bem, mas porque as pessoas faziam isso? Certamente elas agiam assim porque haviam descoberto algo no deserto que ainda não tinham encontrado no templo.

Isso me faz pensar naquilo que eu chamaria de "Êxodo Eclesial", isto é, o ato das pessoas abandonarem as igrejas e se transferirem para outros lugares que possam lhes oferecer melhores condições de crescimento e amadurecimento espiritual. E o que eu vou dizer a seguir é muito sério. Muitas vezes, as pessoas abandonam as igrejas porque encontram de tudo nelas, menos Deus! E quando Deus não está mais no templo, as pessoas vão à Sua procura onde Ele estiver, ainda que seja num deserto e debaixo de um sol escaldante. Quando Deus não está mais no lugar onde deveria estar, este lugar fica vazio e as pessoas se movem para outro lugar onde Ele possa ser achado.

Todavia, você deve estar se perguntando: mas por que esse êxodo eclesial ocorre? Bem, acho que tenho algumas possíveis respostas para essa importante pergunta. Acredito que muitas pessoas têm abandonado muitas de nossas igrejas (e talvez nós nem tenhamos nos apercebido disso) pelos seguintes motivos: em nossos cultos há muitos apelos financeiros, mas pouca preocupação com os membros; há muitos avivamentos fabricados pelo homem, mas quase nenhum que tenha sido originado por Deus; há muitas palavras de homens, mas pouca Palavra de Deus; há um excesso de emocionalismo e misticismo, mas pouca reflexão bíblica e teológica; usamos em nossas reuniões um vocabulário peculiar evangeliquês que é fortemente excludente, em vez de adotarmos um idioma mais inclusivo; temos belas coreografias, mas pouca adoração verdadeira. Enfim, damos muita ênfase às bênçãos de Deus, e não ao Deus das bênçãos. Sendo assim, não é de se admirar que tal fenômeno migratório ocorra.

Entretanto, acredito que não adianta levantarmos o problema, se não buscarmos algumas soluções para tentar resolvê-lo. Sendo assim, em vista de tudo o que foi dito, o que devemos fazer para frear essa debandada de fiéis e para tornar a igreja de Cristo mais relevante em nossa sociedade? Em primeiro lugar, devemos reconhecer que temos cometido inúmeros erros (tais como os citados acima, por exemplo) e temos que buscar de Deus a força necessária a fim de que possamos consertá-los. Em segundo lugar, nossos cultos devem ter uma forte ênfase cristocêntrica, e não antropocêntrica; Cristo deve ser o centro de nossa liturgia e de nossas vidas e não os homens ou as celebridades do mundo gospel. Em terceiro lugar, temos que voltar a levar o estudo da Bíblia a sério. Como vivemos em uma época cujos valores da sociedade são relativos e múltiplos, temos que reafirmar, a cada dia, a autoridade e o valor das Escrituras. E isso tem que ocorrer na prática. E, finalmente, em quarto lugar, temos que resgatar os princípios morais e éticos que, ao que parece, acabaram sendo encaixotados e levados para dentro do porão de muitas igrejas. Acredito que esse item, talvez, seja o mais importante em nossos dias. Em meio a tanta desonestidade, corrupção e imoralidade, o mundo clama por pessoas de bom caráter. É, pode acreditar, tais pessoas estão quase em extinção!

Enquanto não tomarmos coragem para enfrentar nossos problemas eclesiásticos e corrigir nossos erros, as pessoas continuarão a preferir o deserto em vez de Jerusalém.

Na paz de Cristo,

Carlos Augusto Vailatti é professor de Teologia no Instituto Betel de Ensino Superior, entre as matérias que já lecionou estão: Análise Bíblica do Antigo Testamento, Introdução à Literatura do Antigo Testamento, Hermenêutica, Homilética, Cristologia, Pneumatologia, Antropologia Teológica, Hamartiologia e Escatologia. O professor também realiza palestras em todo o Brasil sobre temas bíblicos-teológicos.

Contato:

Email: [email protected]

Blog: blogdovailatti.blogspot.com

veja também