Mangueira usa imagem de Jesus crucificado para criticar conservadorismo no Brasil

Com o tema “A verdade vos fará livre”, o samba-enredo da Mangueira critica o avanço do conservadorismo usando a imagem da crucificação.

fonte: Guiame, com informações do UOL

Atualizado: Terça-feira, 15 Outubro de 2019 as 10:19


A Mangueira terá o enredo “A verdade vos fará livre”, do carnavalesco Leandro Vieira. (Foto: Divulgação)

Usando a imagem de Jesus Cristo crucificado e fazendo crítica ao avanço do conservadorismo no Brasil, Estação Primeira de Mangueira definiu na madrugada de domingo (13) o samba-enredo que levará para o próximo carnaval carioca. 

Sua crítica pode ser encontrada até mesmo no tema para 2020: o slogan “A verdade vos fará livre” faz menção ao versículo bíblico que diz “A verdade vos libertará” (João 8:32), frequentemente citado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

A letra criada por Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo mistura o cristianismo a religiões de matriz afro e condena os “profetas da intolerância”: “Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher/ Moleque pelintra do Buraco Quente/Meu nome é Jesus da Gente”.

Em entrevista ao UOL, o carnavalesco Leandro Vieira disse que o desfile da Mangueira, atual campeã do Carnaval carioca, se coloca abertamente contra o conservadorismo que ganha espaço no Brasil.

“Desde 2018 percebia sintomas do avanço do pensamento conservador. O que tenho feito desde então é, através do Carnaval e da arte que eu produzo, mostrar opções contrárias ao conservadorismo”, disse Vieira à coluna de Chico Alves. “Em 2020, sigo combatendo o conservadorismo, a partir de uma figura que os conservadores levaram para sua trincheira: Jesus Cristo”.

O carnavalesco argumenta que os valores cristãos foram “deturpados” pela direita atual. “Discuto o sequestro da narrativa cristã, que tornou Jesus a figura principal da direita brasileira de hoje”, afirma. “Então, eu proponho uma narrativa de Jesus contra essa hegemonia que distorce os valores cristãos”.

Vieira também alegou que pretende alertar as comunidades do Rio de Janeiro sobre a hegemonia evangélica. “As comunidades cariocas vivem o avanço das igrejas evangélicas. Há uma perseguição a doutrinas religiosas de matriz afro. É preciso dar a essa gente nos botequins, nas rodas de conversa, uma perspectiva contra-hegemônica”, afirma.

As críticas com menções religiosas têm sido uma prática adotada pelo carnavalesco na Mangueira. Em 2017, Vieira trouxe o enredo “Só com a ajuda do santo” e criou o “tripé Cristo-Oxalá”, que acabou vetado para o desfile das campeãs devido um pedido da Arquidiocese do Rio de Janeiro.


Tripé da Mangueira trazia de um lado a imagem de Jesus Cristo e, de outro, a de Oxalá. (Foto: Rodrigo Gorosito/G1)

Em 2018, Vieira criticou o corte de verba do Carnaval promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Com o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco”, ele representou o prefeito Marcelo Crivella com um boneco de Judas carregando a placa "Pega no Ganzá".

Veja a letra do samba da Mangueira na íntegra:

Mangueira

Samba que o samba é uma reza

Se alguém por acaso despreza

Teme a força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

Moleque pelintra do Buraco Quente

Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro desempregado

Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

Me encontro no amor que não encontra fronteira

Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado

Em cordéis e corcovados

Mas será que todo povo entendeu o meu recado?

Porque de novo cravejaram o meu corpo

Os profetas da intolerância

Sem saber que a esperança

Brilha mais que a escuridão

Favela, pega a visão

Não tem futuro sem partilha

Nem Messias de arma na mão

Favela, pega a visão

Eu faço fé na minha gente

Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir

O desabafo sincopado da cidade

Quarei tambor, da cruz fiz esplendor

E num domingo verde-e-rosa

Ressurgi pro cordão da liberdade

veja também