Questionada sobre proteína ter forma de cruz, pesquisadora defende: ‘Ciência não é tudo’

Tatiana Sampaio, que descobriu a polilaminina, foi questionada por um jornalista se a proteína ter o formato de cruz não seria um problema.

Fonte: Guiame Atualizado: quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026 às 13:15
Tatiana Sampaio. (Foto: Reprodução/YouTube/Roda Viva).
Tatiana Sampaio. (Foto: Reprodução/YouTube/Roda Viva).

A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, que descobriu a proteína que pode regenerar lesões de medula causadas por traumas, foi questionada sobre a relação da fé e religião, durante o programa Roda Viva, na segunda-feira (23).

O jornalista Jairo Marques, da Folha de S. Paulo, perguntou se a laminina, base da polilaminina, ter o formato de uma cruz não era um problema.

“Um dos vídeos com a fala da senhora, que se propagou nas redes sociais, é um que liga a a laminina a um crucifixo. Isso virou como se fosse a proteína divina, a proteína de Deus. Não existe um problema em relação a isso, a essa aproximação muito forte entre a polilaminina com uma questão de fé? E do mesmo caminho vai a ciência. A gente não precisa deixar as questões religiosas um pouco mais afastadas da pesquisa em si?”, questionou o jornalista.

A pesquisadora não concordou com a visão de Jairo e respondeu: “A laminina tem uma forma de cruz. Isso é um fato. Não tem como evitar que seja assim”.

E defendeu: “Eu acho que as pessoas que são religiosas e que têm fé, elas podem se apropriar dessa imagem como uma metáfora daquilo em que elas acreditam. Eu acho que não cabe a mim julgar se isso está certo ou se está errado”.

A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que estudou a polilaminina por mais de 20 anos, disse que sabe separar a ciência da fé em seu trabalho.

“Eu consigo perceber muito claramente a fronteira entre a ciência e aquilo que não é ciência. Eu tive um treinamento científico. Eu vim de uma ciência básica e estou habituada a trabalhar dessa forma, a produzir, a trabalhar dentro desses limites da ciência. Eu conheço quais são esses limites e acho que sempre trabalhei dentro deles”, ressaltou.

“Ciência não é o mais importante”

Mas, Tatiana ponderou que ser cientista é apenas uma parte de quem é. “O que eu acho que pode ser conversado, discutido, é se esses limites da ciência são os mesmos limites dos seres humanos. Porque eu pessoalmente acho que não”, afirmou.

“Eu me vejo como cientista, mas também me vejo como uma pessoa. E eu acho que os limites não são os mesmos. Então, eu consigo botar o chapéu de cientista e consigo botar o chapéu de não-cientista”.

A professora observou que a vida das pessoas não gira somente em torno da ciência. “Eu não acho que a ciência seja a coisa mais importante que um ser humano é capaz de fazer. Sinceramente, não acho. Acho que a gente faz coisas mais bacanas do que isso”, declarou.

“Proteína de Deus”

Em uma entrevista anterior, Tatiana descreveu a polilaminina como a “proteína de Deus” devido ao seu formato.

A polilaminina é uma molécula sintética desenvolvida em laboratório a partir da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano, principalmente durante o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso.

A molécula descoberta pela pesquisadora estimula a reconexão de fibras nervosas rompidas após lesões na medula causadas por trauma, em casos de paraplegia e tetraplegia.

No estudo experimental da professora com oito pacientes com lesão medular grave – que receberam o diagnóstico que não iriam mais se movimentar –, seis recuperaram parte dos movimentos e um voltou a andar.

O medicamento ainda está em fase experimental e, atualmente, passa por estudos clínicos na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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