A adversidade como professora

A adversidade como professora

Atualizado: Terça-feira, 2 Fevereiro de 2010 as 12

No title Em algumas ocasiões, no decorrer de minha vida cristã, consciente ou inconscientemente, julguei que Deus era o responsável em promover minha felicidade. Esperava que meu relacionamento com Ele assegurasse apenas sentimentos prazerosos. Ao enfrentar dificuldades e provações, ficava frustrado... com ele.

Parece-me que nós, cristãos, queremos uma garantia de alegria, satisfação e felicidade permanentes, sem a menor sombra de problemas ou provações.

No mundo evangélico atual muitos pregam que Jesus é a única resposta para nossa felicidade. Ouvimos que Deus suprirá todas nossas necessidades, curará todas nossas enfermidades e nos dará riqueza e realização total em todas as áreas. Você "ingere uma aspirina divina" e anestesia os mal-entendidos e impossibilidades do dia-a-dia. Esse é o chamado "Evangelho da Prosperidade". É claro que esta pregação é mentirosa!

Parte da razão do triunfalismo apregoado hoje em dia, dessa visão irreal de vida cristã, é porque tudo é encarado como sendo um "mar de rosas". Interpretamos versículos bíblicos, como o de Mateus 6.33: "Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas." - como um cheque em branco - tudo será acrescentado, o que quisermos, o que desejarmos.

Outra "garantia" de felicidade é "sugerida" em João 10.10: "O ladrão vem somente para roubar, matar, e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância". Vida abundante, conforme a Palavra de Deus ensina, não é um mar de rosas. Muitas vezes buscamos pela bênção divina e não pelo doador da bênção.

Confesso que nos duros momentos de crise pelos quais passei, também perguntei a Deus:

- Senhor, eu estou dando minha vida para cuidar das famílias, será que não posso ter a segurança de que o Senhor cuidará da minha?

De onde nós, cristãos, tiramos essa idéia de que os servos de Deus têm uma proteção especial, estão livres das complicações do cotidiano, têm um passe de imunidade cristã divino que impede a mais remota aproximação de dificuldades? Se cremos nessa isenção, como interpretamos 1 Pedro 4.12,13: "Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também na revelação de Sua glória vos alegreis exultando".

Quem ensina, atualmente que devemos ser co-participantes dos sofrimentos de Cristo? Leia Filipenses 3.10 e Hebreus 12.10 para confirmar o fato de que somos destacados por Deus para sofrer.

"Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás? Por que me mostras a iniqüidade, e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim: há contendas e o litígio se suscita. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida" (Habacuque 1.2-4).

A dor faz parte da vida. Ela pode se manifestar através de um corpo doente ou de um coração despedaçado. De qualquer maneira, cedo ou tarde, ela surge e invade nosso cotidiano.

Quando a dor irrompe com toda sua força, temos duas escolhas a fazer:

1. Culpar e rejeitar o Deus que poderia ter evitado o sofrimento.

2. Confiar que aquele ocorrido integra o plano perfeito do Soberano Senhor de nossas vidas.

Em toda história da humanidade, Jó foi a figura que melhor personificou a escolha da segunda opção acima, mesmo após receber a notícia de quatro tragédias repentinas incluindo a morte de seus dez filhos. A Bíblia relata: "Então, Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou, e disse: Nu sai do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor" (Jó 1.20,21).

Imagino-me, às vezes, em pé num parlamento ou mesmo num púlpito, ou como Habacuque, em cima de um muro gritando: "Por quê, Senhor?" - ou – "Até quando?". Mas quando me detenho para pensar um pouco mais sobre este trecho, noto que a indignação do profeta não era causada pelo seu sofrimento pessoal, mas sua angústia se exacerbava porque a reputação de Deus era posta à prova, e isso prejudicava as causas do Reino. As suas próprias causas não eram tão significativas diante disso.

Nossas orações são imaturas e egoístas. Quando devemos orar e chorar para que Deus trabalhe através dos sofrimentos de nossa vida e os utilize para sua glória, oramos e choramos para que ele os afaste de nós e nos livre de todos eles.

Pouco a pouco aprendemos que o alvo de Deus para nós não é a ausência de tribulações no nosso cotidiano, mas a presença e o poder dele trabalhando dentro e através delas para sua glória e nosso benefício.

Em meio à nossa maior dificuldade podemos ser transportados do desespero à adoração, se...

- formos honestos a respeito do que sentimos;

- questionarmos o Senhor sobre o que nos perturba interiormente;

- lembrarmos da sua atuação poderosa e misericordiosa no passado;

- louvarmos ao nosso Deus, mesmo antes de receber qualquer resposta.

Uma vez que reconhecemos a necessidade de parar de procurar felicidade em coisas e fatos e começarmos a buscar o Deus que oferece bênçãos. Compreenderemos que a adversidade e o sofrimento que surgem em nossas vidas não acontecem para nos destruir mas, para nos ajudar a entender os valores eternos e nos purificar do desgaste da luta pelas coisas temporais e passageiras.

O Senhor, segundo nossa necessidade e seu grande amor, acrescentará as bênçãos que julgar valiosas e benéficas para nosso crescimento como seus filhos.

Que em meio à tribulação possamos nos lembrar que o Pai está no controle de nossas vidas e que, em Cristo, estamos seguros nele (Colossenses 3.3)

Jaime Kemp é doutor em ministério familiar e diretor da Sociedade Religiosa Lar Cristão. Foi missionário da Sepal por 31 anos e fundador da missão Vencedores Por Cristo. É palestrante internacional e autor de 39 livros. Casado com Judith é pai de três filhas e avô de dois meninos.

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