A Chegada das Tempestades

A Chegada das Tempestades

Atualizado: Terça-feira, 9 Fevereiro de 2010 as 12

No title Em 1976 iniciamos o Ministério da Família, uma subdivisão da 'Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo'. Já há anos na 'estrada' fazemos palestras para centenas de famílias por todo mundo. A época que estamos vivendo tem sido diagnosticada como a época da falta de compromisso. Muitos casais permanecem juntos enquanto há sol lá fora, dinheiro no bolso e saúde pra dar e vender. Quando a coisa começa a mudar…

Tempo de renovo

Temos um amigo chamado Lloyd Shadrach, também líder na área familiar, que é muito sensível e consegue tirar do cotidiano, várias ilustrações e exemplos. Recentemente quando Lloyd estava fazendo uma caminhada por um bosque, foi pego por uma forte tempestade de vento. Ao passar por uma área cercada de fortes e altos carvalhos, foi algumas vezes atingido por galhos secos que eram arrancados pela força do vento. No chão já havia muitos, enquanto outros continuavam a cair. Olhando ribanceira abaixo notou o local onde estavam sendo depositados. Comentando sobre essa experiência, Lloyd disse: 'Foi como se Deus estivesse me dando uma lição através da natureza, mostrando-me o papel das tempestades em nossas vidas. Com o céu cada vez mais escuro, intensas lufadas de vento, chuva pesada e raios caindo ao nosso redor é difícil acreditar que aquela tenebrosa situação possui algum propósito positivo. Porém, Deus pode estar permitindo essas tempestades em nossas vidas para tirar os galhos mortos e ressecados, de forma a novos brotos florescerem em seu lugar. Não é interessante perceber e sentir a leveza do ar após uma tempestade? É o prenúncio do renovo'.

Enquanto conversávamos, não conseguia tirar da minha mente a imagem dos galhos secos de minha vida sendo arrancados pelo vento das adversidades. Uma das coisas mais importantes que minha esposa Barbara e eu aprendemos através das tempestades que têm nos atingido é que Deus está interessado em nosso crescimento. Ele quer que confiemos nEle em meio a todo 'sufoco' do vendaval. Ele deseja que cresçamos e permaneçamos juntos e não que nos separemos. Quando inevitáveis tempestades surgem em nossas vidas, é imperativo que nos voltemos um ao outro e não um contra o outro. Com isso em mente pensei nos inúmeros casamentos que têm morrido durante os períodos de tempestade:

Um filho que morre afogado na piscina. A mãe se culpa e de forma abrupta revolta-se contra o marido.

Um marido perde o emprego. Os freqüentes problemas financeiros fazem com que a esposa deixe de acreditar nele. O desapontamento de um para com o outro impede que consigam ajudar-se mutuamente.

Uma gravidez indesejada paralela a crescentes pressões no emprego leva um marido a questionar o compromisso assumido no casamento.

Um filho que cai da escada e fica paraplégico.

E a lista vai por aí afora…

O que a maioria dos casais não percebe é que os problemas oferecem uma oportunidade para aprofundarem suas raízes e dar mais estabilidade ao seu relacionamento. Além da força dada por Deus, o que mais ajudará a superar as dificuldades será a união do casal.

Certa vez, quando o cientista Lord Kelvin dava uma aula em que uma experiência realizada por seus alunos não deu certo, disse: 'Caros alunos, quando vocês se depararem com dificuldades no processo de execução, estejam certos de uma coisa: vocês estão muito próximos de algum invento!'

Fracasso nas tempestades

Quando as tempestades assolam as famílias, muitas fracassam ao enfrentá-las:

1. Por não procurar saber 'a previsão do tempo'. Isso é o que mais acontece! De alguma forma não imaginavam que 'aquela tempestade' pudesse acontecer com eles, mas aconteceu! Há um sábio dito popular que diz: 'Nada é certo na vida a não ser a morte e os impostos!'. E, a ambos, milhares de outros problemas vêm atrelados. Como li recentemente: 'A única pessoa que pode dizer que seus problemas estão atrás é, certamente, o motorista de ônibus escolar!'.

2. Por não conseguir reagir adequadamente. O trauma causado pelo surgimento dos problemas não é o principal. O mais importante é a reação do casal.

De acordo com as pesquisas conduzidas pelo Dr. Mavis Heatherington, 70% dos casamentos onde algum filho morre, ou fica de alguma forma incapacitado, termina em divórcio num prazo de até 5 anos. Por que isso acontece?

De forma geral, os casais não sabem viver além da esfera do romance. Não conseguem manter um relacionamento e, muito menos,fortalecê-lo durante os períodos de sofrimento. Pode-se dizer que a falta de maturidade foi o principal fator da separação.

Parte da estratégia de se enfrentar dificuldades é perceber que elas são permitidas por Deus e que visam atingir determinados alvos. Não estou afirmando que Ele provoque as dificuldades, mas creio firmemente que as permite. Gostaria de citar as palavras de Malcolm Muggeridge:

'Ao contrário do que se espera, olhando para trás, para experiências que na época considerei devastadoras e extremamente dolorosas, hoje as vejo com um estranho toque de satisfação. Sendo muito sincero posso dizer que as mais preciosas lições de vida recebidas nestes meus 75 anos foram apreendidas através de momentos de aflição e não de alegria'.

Ao final de uma conferência para a família que ministrei em Dallas, um rapaz com cabelo escovinha e físico musculoso veio me cumprimentar.

Ele cursava a Academia Militar. Aparentemente, o seminário havia tocado sua vida. Ele falou: 'Dennis, na academia nós treinamos direto, sem parar, inúmeras e repetidas vezes. Fazemos tanto os exercícios, que chegamos a enjoar deles. Porém, nossos instrutores sabem o que estão fazendo. Eles querem que fiquemos tão preparados e adequadamente treinados para que, quando tivermos que enfrentar as lutas em um campo de batalha, possamos confiar naquela que se tornou uma segunda natureza para nós. Literalmente aprendemos a reagir por reflexo'.

Percebi, naquele instante, que acabara de ouvir uma grande ilustração de como os cristãos deveriam enfrentar as batalhas que surgirem no casamento. O casal deve perceber que está lutando do mesmo lado e não um contra o outro. As famílias precisam ser treinadas nos planos e princípios de Deus a tal ponto, que nossas reações às crises e dificuldades tornem-se um reflexo automático, e não uma atitude aleatória de pânico desenfreado. Se esperarmos até que uma crise nos surpreenda para então buscarmos as Escrituras, não estaremos preparados - e além disso, ficaremos mais vulneráveis ao inimigo. Um dos nossos sonhos é envelhecer ao lado da pessoa amada. Você conhece algum casal assim? Pergunte se foi fácil chegar lá e depois, pergunte se valeu a pena!

Enfrentando as tempestades

Creio que, se existisse somente um princípio para se lidar com os problemas, ele seria: 'Em tudo dai graças' ( 1 Ts 5.18).

Não! Essa não é uma simples desculpa que nos leva a enfiar a cabeça na areia e a ignorar a realidade. Muito pelo contrário! Essas palavras são a chave para se lidar com as tempestades que surgirem em nossas vidas - o que inclui tanto as pequenas coisas, quanto as grandes tragédias e desgostos que possam ocorrer.

Se decidirmos começar a agradecer a Deus por todas as coisas devemos perguntar a nós mesmos: 'Será que Deus está realmente por trás até dos detalhes da minha vida? Será que Ele está querendo me ensinar alguma coisa através deste pneu furado, do nariz escorrendo do meu filho, ou dos brinquedos espalhados pelo chão? Ele realmente deseja fazer parte de todos os momentos da minha vida, ou nosso encontro se limita aos horários de culto dos domingos de manhã?'

Dar graças pelas situações que nos sobrevêm é uma expressão de fé. 'Em tudo dai graças' é uma manifestação de nossa crença no fato de que Deus sabe o que está fazendo. É nossa forma de dizer que confiamos nEle. Um precioso servo do Senhor, Martin Lloyd-Jones fez a seguinte colocação: 'Fé é recusar entrar em pânico!'.

Enxergando a mão de Deus

Numa época de verão, anos atrás, nós praticamente moramos na estrada por sete meses. Definitivamente não era fácil dar graças por tudo. Numa das viagens para fazermos uma conferência, perdemos nossas carteiras, talões de cheque e cartões de crédito. Sem termos como pagar um hotel, passamos a noite numa tenda improvisada, em meio a uma pesada chuva.

Quando finalmente conseguimos chegar no local da conferência, questionamos a Deus se Ele realmente queria que continuássemos o ministério com famílias.

Então, dois dias mais tarde, uma inundação ocorreu num Canyon chamado Big Thompson, que ficava somente há algumas milhas de onde nos encontrávamos. E aquela foi a pior inundação da história do Colorado. Mais de 100 pessoas perderam suas vidas, incluindo 7 colegas da equipe feminina da Cruzada Estudantil. Outras 28 colegas escaparam por pouco, enquanto a água subia a uma altura de 7 metros. Elas escalaram, de qualquer jeito, a encosta do Canyon, em escuridão total.

Quando as notícias daquela catástrofe se espalharam, minha esposa Barbara e eu percebemos que, o que havia acontecido conosco, não tinha sido nada perto daquilo. Nossas vidas foram poupadas e continuamos com o privilégio de poder servir ao Senhor.

Precisamos ter olhos para ver a mão de Deus nas circunstâncias da vida. Dessa forma, sempre haverá algo pelo qual agradecer.

DENNIS REINEY - É diretor nacional do Ministério da Família, subdivisão da Cruzada Estudantil e Internacional para Cristo. Ele e sua família - a esposa Barbara, 4 filhas e 2 filhos - moram na cidade Little Rock, Arkansas, EUA. Este artigo foi baseado em um dos capítulos de seu livro 'Lonely Husbands, Lonely Wives' e traduzido com a devida permissão, por Iara Vasconcellos.

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