A última viagem: Caminhando ao lado de quem está partindo

A última viagem: Caminhando ao lado de quem está partindo

Atualizado: Segunda-feira, 18 Janeiro de 2010 as 12

Toda experiência desconhecida causa certo desconforto. Nossa reação, em geral, é de ansiedade e muitas vezes de medo. Isso se dá porque não temos em nosso repertório algo que nos lembre de como agimos anteriormente, para que possamos agir de forma parecida. Chegamos, então, à conclusão de que uma situação quando nova, nos força a duas reações básicas: fuga ou enfrentamento.

A primeira opção deixa um ranço de inutilidade e fracasso. Quando arregaçamos as mangas e enfrentamos, mesmo que desajeitados, crescemos como seres humanos. Podemos nos deparar com uma situação nova e positiva, por exemplo: uma entrevista para o primeiro emprego. Certamente essa oportunidade gerará ansiedade e desconcerto. Muitos chegam atrasados, tentando evitá-la. Há, porém, situações novas e desagradáveis, que nos surpreendem pela ameaça iminente.

A morte é um exemplo clássico de uma situação desconhecida. Mesmo que já tenhamos vivido a separação e a dor causadas por ela, a experiência se faz nova porque cada relação humana é única e carrega uma carga diferente de emoção. Dependendo da intensidade do vínculo com a pessoa, nosso sofrimento é maior ou menor. Ainda há a forma particular de cada um enfrentar a dor e a despedida.                       

Há quadros clínicos irreversíveis, diagnósticos sem perspectivas de recuperação. São situações de doenças com prognóstico desfavorável. Doenças progressivas, degenerativas, auto-agressivas e, portanto, sem chance de cura. São as chamadas doenças terminais, com um curso mais ou menos definido que caminha para a morte. Esse período final pode ser curto ou longo.

Este assunto é pouco abordado e aprendido, daí a necessidade de adquirirmos sabedoria para melhor lidar com nossas emoções quando uma enfermidade dessas chegar. A doença grave pode estender-se por quatro fases: o pré diagnóstico, aguda, crônica, e a de recuperação ou morte. Nesta última fase a pessoa e a família têm de aprender a enfrentar os limites físicos como locomoção e outros: psicológicos (dependência, medos, aceitação), sociais (interrupção do trabalho, estudos e lazer), espirituais (incertezas na fé, culpa etc...) e dificuldades financeiras.

O ser humano possui um conjunto de técnicas, em geral inconscientes, para defender-se da dor e evitar o sofrimento em qualquer situação. Elizabeth Kubler- Ross (Berkow, 2001), estudiosa do tema da morte, pesquisou as reações psíquicas da pessoa ao enfrentar sua própria morte. Ela aponta cinco estágios:

1) negação e o isolamento - mecanismos de defesa. O paciente em geral minimiza a gravidade do seu estado e se isola num segundo momento para absorver a ideia e enfrentar as mudanças.

2) raiva, ressentimento, inveja e certa agressividade ao ambiente, porque sabe que vai morrer. Os sentimentos hostis e de revolta se intensificam. (É importante que as pessoas que convivem com o paciente saibam que esta fase é esperada. A angústia é transformada em raiva pela frustração das suas atividades serem interrompidas pela doença).

3) barganhas - em geral, com Deus, e mantidas em segredo. É comum que se implore pela própria vida, de forma serena e reflexiva. De fato é mais coerente manter a calma e educação, pois são acordos com Deus que devem ser "merecidos".

4) depressão - A debilidade física não pode ser mais negada e a perspectiva da morte já se torna fato. Os sentimentos são de desânimo, apatia, tristeza, desinteresse etc... O choro agora provém de se pensar na despedida, no luto, do que se gosta, na percepção do "não mais".

5) diminuição do desespero - etapa de introspecção mais serena, da aceitação da finitude e da compreensão de que aquela é uma experiência tão solitária como o nascimento. Nesta etapa a pessoa pode querer compartilhar seus desejos quanto ao futuro das suas coisas, de seus órgãos, dos seus filhos e também, por que não, do seu funeral. É a vida cuidando da morte! Aqui existe a possibilidade de elaborar conflitos anteriores à doença, perdoar e pedir perdão, conversar sobre espiritualidade e o medo da morte.

Diante da doença há amigos e familiares que reagem diferentemente. Os mais conscientes e maduros enfrentam a situação procurando saber tudo sobre doença e paciente, buscando o melhor enfrentamento e tratamento. Muitos se deprimem e se afastam. Há outros que reagem com revolta e quase sempre remetem sua raiva a Deus, cobrando dele uma mudança drástica no quadro. Outros reagem evitando a realidade dos fatos, minimizando a gravidade da situação, esperando ilusoriamente que tudo se transforme.

Cedo ou tarde, nos depararemos com queridos em fase terminal, tendo de enfrentar a dor que é, ao mesmo tempo, coletiva e única. As opções são as mesmas: se achegar ou se afastar. Nessas horas ocorre uma aproximação com a própria humanidade, e o reconhecimento de nossa finitude.

Na hora de tamanha dor, uns enfrentam melhor do que outros, que mais sensíveis sentem o que outro sente e isso se torna insuportável. Alguns se tornam frios, por não suportarem tamanho sofrimento, mantendo-se à distância. Contudo, precisamos uns dos outros. Na medida em que me aproximo desta humanidade, tomo consciência também dos meus limites e da humilhação que muitas vezes representa depender de alguém até para a higiene pessoal.

Recentemente nosso pequeno grupo viveu intensamente esta experiência de participar da doença terminal de uma querida e divertida irmã e amiga. Era uma experiência desconhecida para nós. Queríamos ajudar a família e, com muito tato, fomos descobrindo o que o marido e os filhos precisavam. Tínhamos medo de invadir a privacidade do lar e, por outro lado, medo de sermos omissos.

Como mulheres e donas de casa, sabíamos das preocupações que essa mulher doente, presa à cama, tinha com alimentação, roupas, material escolar, sua própria vaidade, enfim, com todo o funcionamento da vida. Como mães percebíamos a confusão de sentimentos que os quatro filhos estavam vivendo. Os maiores, mais conscientes e os menores menos, com o que poderia e iria acontecer. E todos, nós, amigos, sofremos junto com o marido atônito e perplexo com as surpresas que cada dia se revelavam.

Poderíamos abandoná-los, e com isso a nós mesmos, pois eles eram parte de nós. Preferimos a dor menor que era de abraçá-los por inteiro, solidarizando-nos com toda a emoção do momento e que durou muitos e muitos meses, até a hora final. Certa hora os objetivos se alteram e busca-se mais o conforto e alívio do sofrimento, do que a cura.

Como grupo aprendemos que não há como saber viver essa situação, a menos que a experimentemos. Assim, nos fortalecemos mutuamente ao ver a reação, a criatividade, iniciativa, emotividade de cada um, nos consolamos e suportamos um ao outro.

Vivemos naquela época, e estamos vivendo ainda, a verdade bíblica: "Suportai-vos mutuamente..." (Efésios 4.2). Nos revezávamos, providenciando alimentação para os domingos. Durante a semana, uns levavam frutas, outros faziam o supermercado. Muitas vezes passávamos na padaria e comprávamos o lanche. Numa fase anterior onde ela ainda sentava-se à mesa, íamos fazer-lhe companhia em almoços. Orientamos a empregada, as mais íntimas arrumaram armários e consertaram roupas. Quem podia ajudava como motorista e acompanhante para idas ao médico. Outros procuravam se aproximar das crianças, permitindo que elas pudessem expressar suas angústias, fantasias sobre a morte e expectativas com toda a situação. Até atendimento odontológico no leito pudemos lhe oferecer, experimentando a qualidade de dar amor. Tivemos a oportunidade de comemorar seu último aniversário com um culto de ação de graças e uma festa. Celebramos várias reuniões em louvor a Deus e unção com óleo, como manda a Bíblia. Como grupo, oramos sem cessar para que Deus nos fortalecesse e lhe afofasse a cama. Com ousadia, pedimos para que Deus se apressasse, pois não suportávamos mais assistir a dor da família, a nossa dor, nos momentos finais.

Essa experiência agora faz parte do nosso repertório! Nós a incorporamos, tornamo-nos mais unidos, mais humanos, mais sensíveis às dores do nosso próximo, tão amado. Foi uma despedida emocionalmente intensa!

Temos muito ainda que aprender! Especialmente agora, para continuar a dar suporte para essa família que vive o pesar da ausência. Ainda estamos tateando, acompanhando essa nova adaptação, ainda tementes de invadir, mas procurando estar próximos e disponíveis.

Por: Renata Stapani

Sugestão de leitura

1 A Última Grande Lição (há um filme com o mesmo nome), Mitch Albom - Editora Sextante

2. Ressurreição interior, Ester Carrenho - Editora Vida

veja também