"Fui levado pelo meu coração ao lugar do deslumbramento"

"Fui levado pelo meu coração ao lugar do deslumbramento"

Atualizado: Sexta-feira, 22 Janeiro de 2010 as 12

No title Desde criança aprendi, na Escola Dominical, sobre a história de Israel, sobre Jesus Cristo e seu final "infeliz".

Com o passar dos anos achei que poderia tomar conta da minha própria vida e aqueles ensinamentos foram deixados em algum lugar da minha memória, que lutava em não resgatá-los. Na adolescência tive uma experiência muito intensa com as drogas e com o tráfico, fazendo do negócio e do uso a meta e objeto maior de minha atenção e energia. Perto dos 20 anos após prestar vestibular para Arquitetura, tive um encontro inesquecível com Jesus Cristo que transformou totalmente a minha vida. Eu o recebi como Salvador e fui  liberto das drogas, encontrando nele consciência limpa, liberdade e novas opções. De 1975 a 1980, me dediquei com toda força do meu coração ao trabalho de Deus na Igreja Cristo Salva (Tio Cássio) e lá também conheci uma linda mulher com quem  me casei e tivemos duas filhas (igualmente lindas!).

No âmbito profissional, meu trabalho após o ano de 1985, começou a consolidar-se com o envolvimento em muitos projetos e obras importantes, resultando na possibilidade de mudarmos para a Espanha onde eu assumiria o cargo de Diretor Executivo de uma Gerenciadora de Obras para uma rede francesa de Hipermercados.

Crendo que Deus estava no controle da situação e movendo cada peça na direção da mudança, em julho de 1991 aceitamos o desafio e fui com toda a família para Madrid. Realizava-se ali o sonho de um dia morar fora do Brasil. Sediados na Espanha, viajávamos por toda Europa, e eu tinha um pensamento e o externava sempre: "se depender de mim, nunca mais voltarei a morar no Brasil".

O trabalho era intenso, as novidades enormes e maravilhosas, a qualidade de vida inigualável, a segurança quase perfeita, a inflação de 5% ao ano, a comida deliciosa. As meninas estudavam em um colégio britânico e já falavam fluentemente, além do português, espanhol e inglês. Alguns dos nossos amigos também eram diretores e presidentes de empresas brasileiras instaladas na Europa, minha remuneração era excelente - além da participação na empresa. Enfim tínhamos conseguido algo que sequer havíamos sonhado. E tudo era "graças a Deus".

E era aí que morava o problema! Eu sabia que Deus estava fazendo tudo ou "quase tudo", pois em meu coração havia um sentimento de que eu tinha participação nesse sucesso, pelo menos o de estar no lugar certo na hora certa. Eu tinha a sensação que, de alguma forma, administrar a empresa, poder viajar para qualquer cidade da Europa sem pensar muito, gastar longas horas de trabalho estava me levando a algum lugar.

E estava mesmo! Fui levado pelo meu coração para onde não deveria ir, ao lugar do deslumbramento, da perda do foco nas coisas relevantes, da dureza do coração às necessidades dos outros, do sentimento de insatisfação com o que foi feito, da vontade de largar tudo e ao mesmo tempo ao paradoxo de querer sempre mais. A família também foi afetada pois, quando eu conseguia um tempo para ficar com minha esposa e filhas, minha presença era somente física, minha mente e coração estavam distanciados pela desculpa dos afazeres.

É engraçado como "....enganoso é o coração do homem...." (Jeremias 17.9) pois apesar de saber que algo precisava acontecer para corrigir o rumo das coisas, não conseguia enxergar a extensão da diferença de rota. As aparências me enganavam. Íamos todos os domingos aos cultos de uma pequena igreja perto de Madrid. As palavras me tocavam e eu fazia promessas de mudança, que eram esquecidas no dia seguinte. Havia uma dualidade muito grande dentro de mim. Ao mesmo tempo em que eu queria deixar Deus agir, minhas atitudes eram evidencias de que eu estava, por mim mesmo, tentando controlar a situação. Pedia insistentemente, sozinho nas viagens de carro que fazia visitando as obras, para que Deus mesmo atuasse porque eu não tinha forças. Eu queria focar novamente nas "coisas espirituais". Angustiado, pedi ao Senhor que olhasse no mais profundo do meu coração e tivesse misericórdia.

Foram meses e meses neste paradoxo até que o Pai, em sua infinita misericórdia, interviu. Não foi da forma que eu esperava ou havia pedido - tranqüilamente, sem traumas, sem grandes conseqüências e dores. Não foi assim... Ele permitiu que eu perdesse o emprego e, com isso, todo o status adquirido. Passamos ainda 2 anos na Espanha buscando entender o que fazer. Após esse tempo, sem nenhum trabalho e passando muitas dificuldades, voltamos para o Brasil com a ajuda do meu sogro e com uma oferta da humilde igreja espanhola que freqüentávamos e que tão calorosamente havia nos acolhido. Poderia parecer estranho, depois de tudo, voltar com uma oferta, mas isso significou e ainda significa o cuidado do Pai, a aceitação e o perdão incondicional pelos erros cometidos, o amor demonstrado a cada passo e movimento dado.

Inúmeras vezes, na pequena e humilde igreja de Alcobendas (Madrid), tive a oportunidade de testemunhar que não trocaria nem um segundo dos momentos que estávamos vivendo, apesar das dificuldades, pelos momentos anteriores. O sentimento de ser acolhido calorosamente por Deus, de reconhecer que seus olhos estavam novamente fitos em nossa vida e família, que nossa segurança não dependia de guardas bem armados, da quantidade de empregos, de cultura, dinheiro e desenvolvimento, é o de verdadeiramente ter voltado para casa. E foi assim, que voltei para os braços do Pai.

Celso Bussamra é arquiteto e atua na área de Casais Jovens da Igreja Batista do Morumbi em São Paulo. É casado com Maria Eugenia (Nem), e pai de Marina e Marcela.

Sugestão de leitura: Jesus Cristo é o Senhor, Jorge Himitian, Editora Sepal

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