Meu filho é muito especial!

Meu filho é muito especial!

Atualizado: Terça-feira, 2 Fevereiro de 2010 as 12

Há alguns anos passei por um grupo de seis homens portadores de Síndrome de Down, que estavam atravessando a rua. Doze mãos seguravam um cordão para não se perderem. Quando passaram por mim pude notar suas línguas protuberantes e o desajeito no andar. Notei, acima de tudo, que aquele cordão lhes roubava a dignidade e tornava pública a dependência deles.

Fiquei com uma grande dor no coração! Será que Deus tinha cometido algum erro? Será que ele estava ocupado com alguma outra coisa quando ocorreram aquelas más formações àquelas pessoas?

Após um tempo de questionamento acabei tirando aqueles homens mongolóides de minha cabeça. Porém, o nascimento de nosso segundo filho, Jeff, levou-me à conviver com esse círculo de pessoas.

Minha gestação transcorreu tão normal quanto a de meu primeiro filho, Ty, mais velho que Jeff 21 meses. Como sua deficiência não foi identificada no momento do nascimento, meu marido Bob - que havia ficado ao meu lado durante todo o trabalho de parto - foi para casa para dar mais facilmente os telefonemas comunicando o nascimento do "pimpolho" a toda família.

Eu ainda estava na sala de recuperação quando o pediatra entrou. Ao invés de vir ao meu lado, ele parou aos pés da cama e disse:

- Seu filho tem todos os dedos e seu pulmão funciona bem.

Nesse momento senti um calafrio porque percebi nitidamente que a seguir viria um mas... E realmente veio.

- ... mas ele possui Síndrome de Down.

Meu silêncio deve ter feito com que o médico pensasse que eu não sabia o que significava Síndrome de Down, então ele, metodicamente, repetiu o que ele dissera como se eu também fosse retardada.

A notícia provocou um tremor incontrolável em todo meu corpo. A enfermeira de plantão, carinhosamente colocou seus braços ao redor de meus ombros. Jamais esquecerei daquele abraço de solidariedade e apoio.

E agora?

O médico terminou sua comunicação com o melhor conselho que poderia dar naquela hora:

- Leve-o para casa e lhe dê muito amor!

Dando-me as costas, saiu rapidamente da sala.

Mais tarde lembrei-me de suas palavras com gratidão. Pude compará-las com as de outros médicos insensíveis que referiam-se a portadores do mesmo problema como os "idiotas mongolóides", deficientes demais para serem levados para casa, ou mesmo como "iscas de tubarão".

Meu bebê, com apenas alguns minutos de vida havia sido catalogado como mentalmente retardado. Pedi a Deus que tivesse havido um engano no diagnóstico médico. Talvez tivessem confundido meu filho com algum outro... Talvez tivessem trocado e dado a notícia para a mãe errada...

No dia seguinte tive alta, mas Jeff continuou no hospital. Ele contraíra icterícia e precisou ficar em uma incubadora sob incidência de uma luz especial. Entre idas e vindas, entre amamentar Jeff e tomar conta de Ty tirei alguns livros sobre Síndrome de Down da Biblioteca da Faculdade de Medicina mais próxima. Ao invés de ajudar, os livros catalogavam os portadores de Down como uma outra espécie, à parte do ser humano.

Aqueles primeiros dias foram encharcados por lágrimas resultantes da conscientização de que a criança com a qual havíamos sonhado durante minha gravidez, não era o bebê que chegara.

Minha atitude, porém, mudou em um dos dias em que cheguei a casa, vindo do hospital. Ele havia sido o único bebê do berçário que não tinha sido cuidado. A máscara que protegia seus olhinhos da luz da incubadora estava torta. Ele estava sujo e sem fraldas. Naquele momento parei de ficar sentindo pena de mim. Percebi que Jeff precisava de uma mãe que não focalizasse em sua própria perda. Tenha ele sido negligenciado proposital ou acidentalmente, aquela noite foi sem dúvida, um marco em minha vida.

Chegando em casa, fui direto pegar as Páginas Amarelas e procurei a palavra "Deficientes". Comecei então a discar. Finalmente, encontrei uma organização que me colocou em contato com um grupo de apoio para pais de filhos com Síndrome de Down. O fato de saber que aquelas pessoas haviam percorrido a mesma estrada na qual eu estava agora caminhando encheu meu coração de conforto. Meus sentimentos de solidão então se foram.

A realidade

O que tornou mais sofrido o nascimento de Jeff foram todas as idéias preconcebidas que eu possuía a respeito de pessoas deficientes. Em resumo, meu próprio preconceito. Se eu tão somente soubesse o quanto os deficientes podem realizar na vida, teria tido admiração e não pena. Com toda minha falta de informação, pensava que os deficientes mentais eram inúteis, "vidas dependendo de um barbante". Eu estava errada.

Também achei que meu filho fosse ser diferente dos familiares. Mas também me enganei. Ele é mais parecido do que diferente de nós. É ruivo, sardento e quando sorri, duas lindas covinhas aparecem em seu rosto. Ele tem esperanças, sonhos e uma grande habilidade para iniciar conversas. Acho lindo olhar o mundo pela mesma lente dele – um mundo cercado de maravilhas e descobertas.

Jeff agradece os menores gestos de bondade e gentileza e vê beleza em coisas que muitas vezes me escapam, como a uniformidade de um bando de pássaros alçando vôo. Pelo fato das outras crianças serem mais rápidas do que ele, raramente chega entre os primeiros ao recreio ou ao bebedouro. No entanto, sua tolerância para com aqueles que passam correndo excede em muito à rapidez deles.

O diagnóstico médico de meu filho suscitou em mim os maiores temores, mas seu espírito superou minhas próprias expectativas. Ele adora olhar fundo nos olhos de cada bebê que encontra e, à noite quando vai orar, cita cada uma daquelas situações em agradecimento.

As pessoas que não conhecem Jeff sentem pena de mim. Ainda gostaria de, ao ser apresentada, dizer que tenho um filho com Síndrome de Down mas que, nem ele nem eu, somos dignos de pena. Muitos acham difícil acreditar que ele seja tão precioso e querido em nossa família. Gostamos dele da forma que é. Uma vez pedi a Deus que mudasse meu filho, mas, ao invés disso, ele mudou a mim.

Estigma

O maior obstáculo dos deficientes, anormais, defeituosos, ou seja qual for o rótulo que lhes for atribuído, não é a condição por eles apresentada, mas o estigma que a sociedade lhes impõem.

Estou convencida de que Deus não estava descansando quando Jeff foi concebido e desenvolvido dentro de mim. Ele ainda é o Deus dos milagres e nessa situação, quem recebeu a cura, fui eu. Nosso Pai continua no negócio de mudar vidas, mas nem sempre como imaginamos.

Minha esperança, ao escrever este artigo, é que você possa deixar de lado seu preconceito em relação a qualquer deficiente. Agindo assim, estará tornando este mundo mais fácil para todos os Jeffs que passarem por sua vida.

Carlene K. Mattson e sua família moram em Laguna Hills, Califórnia. Este artigo foi originalmente editado pela revista "Focus on the Familiy" (Abril de 1993) e traduzida com a devida permissão por Iara Vasconcellos.

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