O que você tem a fazer antes de partir?

O que você tem a fazer antes de partir?

Atualizado: Quinta-feira, 3 Setembro de 2009 as 12

Quando assisti ao filme "Antes de Partir", fiquei pessoalmente tocada com a fidelidade do personagem de Morgan Freeman, que apesar de saber que estava vivendo seus últimos dias, recusa-se a ir para a cama com uma bela e jovem mulher, mantendo-se fiel à aliança que tinha com a esposa e, acima de tudo, com Deus a quem servia.

O filme conta a história de dois sessentões com câncer, desenganados pela Medicina, que decidem sair do hospital e realizar a sua lista de desejos e sonhos antes de morrer. Mesmo sabendo - ou exatamente por saber - que estava à beira da morte, o crente Carter Chambers, personagem de Freeman, resiste à tentação e não peca.

Em tempos de guerra ou de pandemias, como os que estamos vivendo atualmente em consequência da gripe A, os homens deveriam ser acometidos de um surto de consciência repentino, que os torna convictos de que a morte está muito perto de todos nós, mesmo dos mais jovens e dos que estão livres de qualquer doença terminal.

O que você faria antes de partir? Ou melhor, o que você tem ainda a fazer antes de partir?

Quero lhe contar a história de um jovem cheio de vida. Moreno, alto, forte e de olhos verdes, Milton entrou na nossa história no terceiro dia do Projeto Minha Esperança, em novembro de 2008. Na data marcada para a exibição do filme "Compromisso Precioso", meu marido e eu decidimos convidar todas as "ovelhas perdidas da casa de Israel", os desviados, para assistir ao filme e comer pizza na nossa casa. Tudo como pretexto para que elas se reconciliassem com o Senhor.

Uma das convidadas foi Michelle, uma jovem que havia sido liderada por nós quando adolescente, e que estava muito distante dos caminhos de Deus. Ao receber o convite, ela não apenas aceitou como nos questionou se poderia vir acompanhada de seu namorado. Respondemos que sim, é óbvio.

No dia marcado, 8 de novembro, um sábado, eu não preguei, não aconselhei, não orei com ninguém. Não fiz nada daquilo que se convencionou como atividades de uma pastora. Apenas intercedi e fiz pizzas, muitas pizzas. Às vezes, fazer a obra e estar no centro da vontade de Deus significa apenas ir para cozinha, colocar um avental e preparar um belo jantar. Os quatro casais convidados vieram. Um deles foi embora antes do final. Mílton assistiu ao filme e comeu pizza conosco. Mais que isso, naquele dia ele entregou a sua vida para Jesus e firmou uma aliança com Ele. Michelle se reconciliou com o Senhor. Na semana seguinte, eles estavam de volta, para a reunião de células, e ele não perdeu a oportunidade de trazer para a nossa casa um casal de amigos.

Órfão de mãe crente, que faleceu de derrame dentro da igreja, Milton tornou-se discípulo de meu marido, Pr. Luciano. Não foram poucos os sábados em que compartilhamos o café da manhã, sempre seguido por sessões de discipulado, onde ele aprendia mais sobre Deus, contava suas história, recebia exortação e conselho.

Namorando de acordo com os padrões do mundo, Milton questionava porque não podia ser batizado e foi devidamente orientado a abandonar as práticas mundanas e, se esse fosse o desejo do seu coração, assumir um compromisso definitivo com Michelle pelo casamento.

Depois de uma tentativa frustrada de se casarem no início de abril, quando chegaram a desistir do namoro, Milton e Michelle reataram o relacionamento e engravidaram.

A notícia de que ia ser pai transformou a vida e as feições daquele menino crescido. Obediente aos mandamentos do Senhor e aos nossos conselhos, em julho passado, eles colocaram os papéis e se casaram, mesmo sem ter uma casa para morarem juntos. Na verdade, eles não tiveram condições nem para comprar um par de alianças de ouro. Compraram anéis folheados, a família de Michelle e os irmãos da célula se juntaram e o casamento foi celebrado com um fartíssimo churrasco.

Impecavelmente fardado, como soldado da Aeronáutica, Milton chamava atenção na sala de espera do cartório. Depois de assinados os papéis, ele abraçou forte o seu pastor, a quem considerava como um segundo pai, e disse: "É pastor, agora eu já posso me batizar".

A história seria perfeita se Milton não tivesse se recusado a tomar uma única providência: contar ao pai sobre a gravidez de Michelle e convidá-lo para a festa de casamento. Amando o pai com um amor que beirava a idolatria, ele tinha medo de decepcionar, sabia que havia agido errado e temia pela reação daquele que era o seu grande herói na vida.

Na segunda-feira, dia 10 de agosto, depois de comemorarem juntos o Dia dos Pais, Milton e Michelle se desentenderam e ela ameaçou mostrar a barriga, já bem crescida, ao sogro. Em busca de conselho e apoio, Milton veio parar em nossa sala de estar, onde foi duramente confrontado e incentivado a contar toda a verdade para o pai, ainda naquela noite. Ele "esperneou", resmungou, mas, como sempre, fez o que era certo. Para sua surpresa, o pai se emocionou a ponto de chorar ao saber da chegada do neto e aconselhou o filho a se casar. "Ah! Pastor, ele teve uma reação tão boa, que eu não tive coragem de contar que já havia me casado. Depois eu conto", disse ele, por telefone, logo depois da conversa com o pai.

Assumir um compromisso com Deus, acertar sua situação com a "namorida", casar mesmo sem poder morar junto, vibrar de alegria ao comprar a saída de maternidade para o filho e sonhar com o dia do batismo. Pode parecer estranho, mas essas foram as últimas providências que Milton tomou na vida.

No dia seguinte, terça-feira, ele foi internado com suspeita de pedra nos rins. Na quinta, foi transferido para o Emílio Ribas, onde foi colocado em coma induzido. Seus pulmões já estavam fatalmente acometidos pelo vírus da gripe A. Uma semana depois, apesar do nosso desejo, das nossas petições e da nossa esperança, Milton foi colhido pelo Senhor, aos 23 anos de idade.

Ele foi enterrado, com honras militares, no dia em que completaria 24 anos. No caixão, um semblante sereno, quase alegre, de quem repousa nos braços do Pai Celestial.

Milton teve uma chance, não desperdiçou e, apesar de ter todo tempo pela frente, decidiu colocar sua vida em ordem, mesmo sem saber que o fim estava mais próximo do que qualquer um de nós podia imaginar.

Viver como se não houvesse amanhã, amar como se não houvesse amanhã, ser fiel e obediente a Deus com a certeza de que amanhã, quer vivos ou mortos, iremos prestar contas a ele.

No nosso coração resta apenas uma doce saudade e a esperança de ver nos olhos do pequeno Milton Gabriel, que chegará ao mundo em novembro, o mesmo brilho e alegria que víamos nos olhos do seu pai que já partiu.

Milton foi para o Senhor sem ter a oportunidade de conhecer o filho. Mas, o que importa, é que ele não se recusou a conhecer Jesus e isso fará uma grande diferença para todos os seus descendentes, até a milésima geração, como nos diz a Bíblia.

Pastora Myrian Rosário

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