Antonio Carlos Costa - O lado melancólico das nossas canções

Antonio Carlos Costa - O lado melancólico das nossas canções

Atualizado: Sexta-feira, 3 Janeiro de 2014 as 7:49

choroPassei o feriado de Natal hospedado com a família, a convite do meu sogro, num hotel do interior do Rio de Janeiro. Todos os dias acordava cedo e tomava o meu café da manhã, naquele ambiente de fazenda, numa mesa sobre a qual havia, fixada na parede, uma caixa de som de onde se podia ouvir, num tom acima do recomendado para um restaurante, muita música popular brasileira. 
 
Nada demais, se não fosse o clima de melancolia que a maior parte da canções gerava, o que quase me levou a pedir ao garçom para botar outra coisa para a gente ouvir. Era uma tristeza danada. Parecia a famosa propaganda do Biafra. Era coisa de todo mundo tomar café, chorando.
 
Pude observar que quase todas as músicas, insuportavelmente tristes, eram do meu conhecimento, de tanto as ouvir durante minha vida, seja no caminho da escola, na aparelhagem de som do vizinho, na rua, no bar, no taxi, na loja. Jamais me ocorreu de comprar os discos dessas verdadeiras marchas fúnebres. Simplesmente, fizeram parte do meu cotidiano, da mesma forma que, chiado da panela de pressão, aroma do feijão preto cozinhando na casa do vizinho, radinho de pilha do porteiro transmitindo jogo de futebol, pagode na esquina, cheiro de maresia (nos dois sentidos!), abertura do Jornal Nacional etc.
 
Pensei, como pude suportar tudo isso? É muita tristeza de letra e melodia. Lembro-me de um amigo de praia ter contado a seguinte história. Durante parte da sua infância teve que morar num internato, no qual, por algum motivo, todos os dias a mesma canção era entoada, para desespero das crianças que eram levadas ao pranto. A canção se tornou conhecida como "Churrasquinho de Mãe": 
 
"O maior golpe do mundo
Que eu tive na minha vida
Foi quando com nove anos
Perdi minha mãe querida
Morreu queimada no fogo
Morte triste dolorida
Que fez a minha mãezinha
Dar o adeus da despedida".
 
A raiva dele foi tamanha, que alterou a letra, transformando-a em algo impronunciável, que ele fez questão de cantar para mim. Um porno-protesto! Terrível.
 
Recordo-me de haver ouvido, numa entrevista, Tom Jobim fazer uma crítica a este aspecto funesto da canção popular brasileira. Ele falou de um período que tudo era tão triste, que chegou ao ponto de haver um bolero que terminava com... um tiro.
 
A nossa música não é só isso, certamente. Vale ressaltar, que o lamento faz parte da vida, podendo ser traduzido em canção. A dor faz desabrochar a poesia. A expressão do sofrimento por parte do poeta pode levar-nos a conhecer nossa alma.
 
Confesso, contudo, que tenho horror a esse tipo de canção que nos põe para baixo, levando-nos a remoer traições, agasalhar a raiva, lamentar pela vida, viver do passado, encher o céu azul de grossas nuvens negras. 
 
Neste ponto a conversão faz-nos um enorme bem, ao nos colocar em contato com os gloriosos salmos de triunfo do amor e da esperança sobre a desgraça humana, exaltando Deus na beleza da sua santidade e levando o homem a começar cantando com as lágrimas da tristeza para terminar louvando com o choro da gratidão. 
 
 
- Antônio Carlos Costa
via Facebook
 

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