Arte: correr riscos de aceitação e relacionamento

Arte: correr riscos de aceitação e relacionamento

Atualizado: Segunda-feira, 14 Março de 2011 as 11:31

"Se arte é expressão contínua de tornar conhecido o coração, a reação e a percepção do artista sobre a vida e a criação, temos um caminho infindável e inesgotável de uma proposta relacional. Portanto, é risco certo de ser ou não ser aceito."

Todo artista corre sérios riscos quando se propõe a dar forma estética e sonora de suas percepções acerca da vida e da criação. No tom, na cor, no som, na forma, no conteúdo, procura deixar expresso, claramente ou não, suas reações e mensagens diante dos estímulos que recebeu e acumulou em sua caminhada e história.

Isto me fascina na arte: o quanto podemos conhecer do coração e experiência cada artista e perceber como temos um elo em nossa humanidade. Vamos nos identificando com as emoções, as dúvidas, as inquietações, e as formas de apreciar, registrar e expressar a visão de mundo de cada um deles. Vamos descobrindo algo de sua história, de seus relacionamentos, de suas influências, de suas heranças familiares, de sua formação, de dramas vividos, de como se relaciona e interage com a criação, a cultura, as realidades sociais, e principalmente com as pessoas.

A arte demonstra também, o estado de espírito do artista. Claramente ou não, vamos percebendo as inquietações e as adequações do artista com o divino, e os inumeráveis mistérios da relação do finito com o infinito. Vamos nos integrando com a vida e existência dela, e também, de forma ambígua, em alguns casos, abstraindo-nos dela.

Arte é a expressão legítima de uma proposta de aceitação e de relacionamento entre seres humanos. Todo ser humano reflete e tem aptidões artísticas, melhores desenvolvidas ou não. Arte é o caminho de compartilhamento e da necessidade que temos de nos relacionar. Arte é caminho de construção e expressão de nossa espiritualidade. O Divino que desejou se revelar e também ser aceito por suas criaturas correu o risco.

Somos também criaturas tentando ser aceitas por outras criaturas, inclusive em nossas manifestações artísticas. Agostinho enfatizava que o ser humano sempre buscou a aceitação inconsciente ou não do Ser divino, e como conseqüência, do outro.

Percebo do Criador, na expressão de sua arte, um convite para um relacionamento numa apreciação adequada e amigável de que é Ele e fez, no Salmo 19:1-4: "Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos. Um dia discursa ao outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até os confins do mundo".

Dia e noite buscam continuamente relacionamento com o outro dia e noite. Há o que dizer, o que se escutar, o que transmitir ao outro. O salmista deixa isto artisticamente claro em sua escrita. O tempo e a vida trazem os seus riscos em suas inteirações. É bom ainda, em dias tão difíceis e desafiadores, o viver correndo riscos, acolhendo o Criador, sua arte e projeto existencial para nós, seres humanos que somos em simplicidade, beleza e complexidade, ricas expressões criativas de sua Imago Dei, e que vem sendo restaurada pacientemente pelo Oleiro naqueles que estão em Cristo. Devemos correr o risco de fazer e expressar a arte!

Por Nelson Bomilcar - músico e compositor, e exerce seu ministério pastoreando igrejas pelo Brasil afora. Apresenta o programa Sons do Coração na rádio Transmundial

veja também