Banda mineira lança CD com participação de detentos em recuperação

Banda mineira lança CD com participação de detentos em recuperação

Atualizado: Sexta-feira, 28 Janeiro de 2011 as 11:18

Na autobiografia, Cash, Johnny Cash (1932-2003) fez o seguinte comentário a respeito da gravação de Johnny Cash at Folsom Prison (1968): “Sempre me pareceu irônico que ele tenha sido num show numa prisão, com condenados e eu nos dando tão bem como se dão os companheiros de rebeldia, marginalidade e criminalidade”. Aquele registro, que se tornou o álbum mais popular do ícone da country music, ocorreu uma década depois de ele ter começado a se apresentar em penitenciárias dos Estados Unidos. A repercussão foi transformadora. O disco levou-o de volta ao topo das paradas de sucesso e garantiu-lhe um programa de televisão na Rede ABC.

Pouco mais de 40 anos depois, um show, realizado também atrás das grades, acabou mudando a vida de outra pessoa. Wilder Antônio Soares gostava de bateria, mas não sabia como tocar. Não tirou os olhos do que fazia o baterista Márcio Henrique Nassif. Ouviu dele algumas explicações, assistiu a shows na TV, passou a prestar mais atenção nas marcações de cada música. Hoje, o ouvido de seus companheiros agradece, já que o baterista autodidata sabe explorar o instrumento. “Foi com muita persistência, gana, insistência e briga. Me trancava no auditório e tocava o dia inteiro pensando que um dia chegaria lá.”

A exemplo de Johnny Cash, a banda mineira The Folsoms fez um show, em maio de 2009, no Centro de Reintegração Social Dr. Franz de Castro Holzwarth, em Santa Luzia. A unidade prisional é baseada no modelo da Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac), programa que trabalha a recuperação do condenado e sua inserção no convívio social. O nome do quarteto – Alexandre “Chanceler” Mancini no vocal, Cláudio “JabᔠCoscarelli na guitarra, Luís “Zé” Emílio Naves no baixo e Márcio Henrique Nassif “Madeira” na bateria – já explica muito.

O Folsoms nasceu em 2005 como uma banda cover de Johnny Cash. No decorrer deste período, com apresentações no circuito independente, as canções autorais nasceram. São elas a base de seu primeiro álbum, Outlaw country (53HC/V8 Sounds), recém-lançado. Ainda que tenha vindo a público somente agora (o show de lançamento está previsto para o final de fevereiro), foi gravado há quase dois anos. Além das 12 faixas, todas em inglês, registradas em estúdio, o álbum traz uma bônus, em português. São na verdade duas canções gravadas juntas, A carcaça de um outro alguém (da banda paulista Zumbis do Espaço) e Cavaleiros do céu (versão de Haroldo Barbosa para o clássico country Riders in the sky, de Stan Jones).

O registro foi feito em show na Apac de Santa Luzia. Primeira das unidades mineiras construídas para este fim, inaugurada em agosto de 2006, teve projeto do arquiteto Flávio Agostini. Amigo dos integrantes da Folsoms, foi ele quem sugeriu o show. Na época, o coral Renovação, integrado por recuperandos (como são chamados os condenados da Apac), havia sido formado. Depois de algumas visitas ao local para conceber o show e uma certa camaradagem no ar, foi feito o acerto. Na apresentação, o Folsoms tocaria algumas canções que contariam com a participação do coral (no refrão e nas palmas). Ao todo, foram quatro. Além das supracitadas, duas evangélicas, entre elas o sucesso Faz um milagre em mim, de Régis Danese.

“Na época, trocamos ideia com alguns amigos. Entre eles, estava o (realizador) João Flores, que sugeriu fazer um DVD. Fizemos uma assembleia geral com a turma toda na Apac e falamos do show, clipe. O coral fez uma apresentação bonita e a coisa fluiu”, relembra o baixista Luís Emílio. A história cresceu no decorrer da produção. “No dia da gravação, foi o coroamento da parceria. Havia pelo menos umas 30 pessoas voluntárias, que trabalharam no cenário, no vídeo”, continua ele. O show foi num domingo, dia de visita. A estrutura do palco foi montada na parte da instalação destinada aos recuperandos do regime fechado, com a colaboração dos próprios. A bateria utilizada para o show foi a da própria Apac, a mesma utilizada para os ensaios de Wilder Antônio Soares.

Na tarde da última quarta-feira, a equipe do Estado de Minas esteve na Apac. Como o álbum acabou de sair, os recuperandos viram pela primeira vez o resultado daquela tarde. Ganharam, de Luís Emílio, cada um o CD. Aguardam agora o registro em vídeo, que, segundo o baixista, não tem prazo definido para ficar pronto. “Não sabemos ainda se será um documentário, musical ou clipe.”

Outra lógica Em Minas Gerais, existem 27 Apacs e cerca de 50 aguardam implantação. As diferenças das prisões convencionais começam já na entrada. A porta foi aberta por um recuperando, ele mesmo responsável pelas chaves. Durante o período em que o EM permaneceu no local, só havia um funcionário, Ailton Oliveira Silva, que também participou do show do Folsoms. Chamado plantonista (não há agente penitenciário na Apac), ele próprio é ex-recuperando – sua pena, por assalto a banco, terminou há um ano e oito meses. Trabalha dia sim, dia não, das 7h às 19h, e mora na região. “Quando saí daqui, fui trabalhar em outra coisa até que recebi a proposta de emprego. Gosto do que faço, ainda mais porque senti na pele o que é ficar recluso.” Todos os cerca de 140 recuperandos têm algum tipo de atividade.

Ele não tem problema algum em fazer o trânsito, com a reportagem, do espaço do regime semi-aberto para o fechado. Vai chamando cada um pelo nome (lá, diferentemente das prisões convencionais, não existe número de identificação). Do semiaberto, chega Rafael Henrique Lopes Santos, outro integrante do Renovação e atual presidente do Conselho de Sinceridade e Solidariedade, grupo que colabora para a disciplina da instituição, resolvendo, de acordo com ele, 80% dos problemas do local. Hoje domina o dia a dia da Apac, mas, quando chegou, admite ter levado um susto. “Aqui não tem polícia, opressão, aquela situação de ‘Alemanha cabulosa’ (como chama as prisões convencionais). No princípio, ver preso tomando conta de preso chama a atenção.” Nos chuveiros, a água quente, vinda do sistema de aquecimento solar de que o prédio foi dotado, foi outro motivo de surpresa.

Rafael quer chegar ao fim da pena de seis anos e um mês por assalto sem problemas. “A intenção de todo mundo que vem pra cá é fugir. Mas no primeiro contato familiar, com a mulher, com a mãe da gente, o coração amolece, pois a gente vê que o melhor é ficar aqui.” Há um ano e três meses no cargo, Antônio Carlos Moreira, diretor-executivo da Apac Santa Luzia, lembra-se de que neste período houve somente uma fuga. As diferenças não terminam aí. Boa-praça, Sebastião Ferreira Neves, que cumpre pena no regime fechado por tráfico, sentiu na pele o que é a Apac. “Eu gosto da Apac/ Se chegar magrinho/ De repente fica gordinho” é o refrão que o “compositor” do grupo do Renovação criou. Tem outras canções na manga, que Luís Emílio brinca serem uma mistura de Johnny Cash com Bezerra da Silva.

Quando o Renovação sai da instituição para alguma apresentação (já houve algumas tanto em BH quanto no interior do estado), todos vão de cabeça em pé, nunca com olhar subjugado voltado para o chão. Não há escolta policial nem algemas. “Estamos presos pela consciência e algemados pelo coração”, ensina Valdinei Ramos.

Por Mariana Peixoto

veja também