Carlinhos da banda Gerd: "O Brasil é um país brega, o forró e o samba são nossos estilos"

Carlinhos da banda Gerd: "O Brasil é um país brega, o forró e o samba são nossos estilos"

Atualizado: Quinta-feira, 31 Dezembro de 2009 as 12

Por Nany de Castro - http://www.guiame.com.br/

Há 26 anos no marcado fonográfico gospel, a Banda Gerd pode ser considerada uma das precursoras da música evangélica brasileira. Com um estilo bem nacional, como samba e forró, ela desafiou o preconceito de muitas igrejas evangélicas por conta de suas músicas, pensamentos e roupas.

O vocalista e líder da banda Gerd, Carlinhos, concedeu uma entrevista exclusiva ao Guia-me. Nela, o músico fala sobre o início de seu ministério, a parceria com o missionário R.R. Soares e faz sua avaliação da música evangélica.

Guia-me: Como foi o início da Banda Gerd?

Carlinhos: Há 26 anos tudo era diferente. Você entrar com uma guitarra na igreja era complicado, cantar um samba nem todo mundo aceitava. Eu tenho consciência do que vou falar, nós temos uma participação muito grande na mudança da música gospel do Brasil. Porque a Banda Gerd é eclética, canta todos os estilos, e isso há 20 anos. Hoje na igreja você ouve rock´n roll, na minha época não tinha essas coisas. O Evangelho cresceu muito no Brasil, não tinha como a música acompanhar esse crescimento. Hoje a gente está na televisão e tem algumas coisas para fazer ainda. Eu quero cantar no Faustão, no Gugu. Se alguém se escandalizar com o que estou falando, vou lamentar. Porque é uma forma de evangelizar.

Guia-me: Como você avalia o mercado fonográfico evangélico brasileiro?

Carlinhos: Meu tempo de estrada diz o seguinte: eu sou produtor musical, tem muita coisa boa, a gente precisa se preocupar e não perder o foco. A motivação não é ganhar dinheiro, não fazer como no secular. Recebi um amigo que se chama Dentinho, ele canta funk No Rio, ele se converteu, e agora? Como fazer para que ele volte ao cenário musical brasileiro? Ele não quer mais cantar o funk secular, quer cantar gospel. Agora vou falar para ele não cantar funk evangélico? Eu tenho que falar "Canta, irmão, põe para fora". A motivação tem que ser evangelização, tenho que fazer a música para resgatar vidas. O dinheiro e as outras coisas são consequências. Na minha ótica, tem muita gente com a motivação errada.

Guia-me: O senhor sofreu algum tipo de preconceito quando iniciou o ministério musical?

Carlinhos: O pessoal reclamava da minha roupa, usava camisa florida, correntinha, sapato colorido. Era assim: "quem é esse cara aí?", "não deve ser crente". Penteava meu cabelo para trás, às vezes pintava, porque eu gosto. Eu sofria já dentro da banda, porque meu irmão é pastor, tinha dois pastores na banda. O meu pastor Alceu, uma pessoa que eu gosto muito, já chegou ao ponto de falar: "Meu, porque você anda desse jeito? Isso não é coisa de crente". E um dia, quando a banda com seis anos de existência , fizemos uma reunião com um cara chamado Roberto Amerior. Era o diretor de marketing da Warner, e fomos lá para negociar nosso repertório. Naquela época queria gravar um pagode, até então não me lembro quem no gospel gravou um pagode, e o Roberto Amerior falou: "Cara, você vai gravar isso? Mas por que você não grava as coisas do seu seguimento, isso não é música de crente", e aquilo ficou marcado na minha cabeça. Não é possível que a gente esteja errado. Hoje a gente ouve samba, funk, reggae, rock?n roll e as músicas são músicas, não tem estilo. E o detalhe: a música é do Senhor e o diabo não tem nada. Eu estava certo. As coisas mudaram, o evangelho está na moda hoje, você ouve falar do evangelho na Globo, que é a emissora do Brasil. Eu só acho que na vida precisamos ter equilíbrio, nada muito radical e nada muito liberal, você tendo o equilíbrio com certeza as coisas vão acontecer.

Guia-me: O senhor acredita que existe um estilo denominado "Adoração"?

Carlinhos: O senador Magno Malta fala disso com muita propriedade porque ele gosta de samba, de partido-alto, eu acho que a gente adora fazendo isso. Se você for no gueto, na favela, se cantar "glória,glória,aleluia", o cara te dá um tiro. Porque eles não gostam dessas coisas, tem que ter estratégia. Eu já cantei em boate com a banda Gerd, a gente foi convidado para receber um prêmio. Eu vi gente cheirando cocaína na minha frente, tomando todas, e a gente sentado tomando refrigerante. Só que quando o cara chamou a gente para cantar, porque era um palco maravilhoso, som maravilhoso, todo mundo falando "glória a Deus, aleluia". Quando a gente começou a cantar fez um silêncio absurdo e meu irmão falou duas palavras. Voltamos para a mesa, a galera veio falar com a gente. Um estava há oito anos fora do Evangelho, outro era filho de pastor, e nós tivemos a oportunidade de falar do amor de Deus para aquelas pessoas. Se não tivermos pessoas dispostas a fazer isso, fica difícil. Adoração é todo estilo, é samba, é funk, é tudo.

Guia-me: Qual o requesito básico de um Ministro de Louvor?

Carlinhos: Ministro de louvor não precisa necessariamente cantar. Estou em um outro estágio, posso dizer que sou o dinossauro da música gospel. Talento não é só cantar, a coisa tem que ser feita do coração, não basta cantar bonito e ter performance no palco. Tem que adorar, porque assim seu louvor chega e alcança vidas. Já ouvi músicas com pessoas que não tinham o mínimo talento e Deus falou forte ao meu coração. Então, transporto isso para o mundo. As pessoas que querem e que gostam de cantar tem que fazer o básico, que é estudar. Na minha ótica ninguém aprende a cantar, o canto vem de berço, mas você melhora isso. Mas tem que ser feito para o Senhor. Aí com certeza Deus vai receber o louvor.

Guia-me: Quais são as suas influências musicais?

Carlinhos: Eu sofri uma influência bem grande do Andraé Crouch, de quem ninguém mais fala dele hoje, mas é um piano e voz americano. Naquela época não tinha influência, tinha Oséias de Paula, Shirley, Rebanhão, Cristo Salva, era bem pouquinho. A referência tinha que ser de fora, americana. Jimmy Sweger eu ouvia muito e achava muito lindo. Mas não foi uma influência. Eu ouvi  porque vim do gueto, trabalhei na noite, meu pai era dono de cabaré, música para mim era tudo. Sempre ouvi tudo. O Gerd é uma salada. Vou gravar um Zuqui agora e querendo gravar uma Kumbia, se você falar isso ninguém sabe o que é, mas isso faz sucesso no planeta. Não quero ficar restrito ao mercado brasileiro, mesmo porque não estou gravando CD para vender. O meu projeto é evangelismo, quero que a minha música alcance as pessoas num lugar que as outras não conseguem chegar.

Guia-me: Hoje, quem são os músicos que costuma ouvir?

Carlinhos: Hoje eu ouço pouco, porque sou parceiro do missionário R.R. Soares e não posso sofrer influência de nenhum artista. Porque se eu começar a fazer música e a ouvir, vou começar a plagiar. Eu não costumo ouvir ninguém, mas tem muita coisa boa. A coisa evoluiu  muito, estou muito feliz com isso. Eu espero que as pessoas não percam o foco e a motivação seja espiritual, aí eu tenho certeza que a gente vai conquistar e ganhar esse país para Jesus. As estatísticas dizem que em 2017 o Brasil vai ter 51% de evangélicos, eu realmente não acredito nisso se a gente não se unir, e até através da música.

No Brasil, a gente canta muita coisa de fora e não canta as nossas coisas, como por exemplo, o samba, que se for cantado na igreja, tem pastor que não gosta e generaliza: &irmão, isso não é música de crente&. Como não é música de crente? O rock´n roll é música de influência inglesa e americana e hoje a galera está nessa praia de pop rock. Eu acho lindo, inclusive estou gravando isso, só que a gente não pode esquecer das raízes. O Brasil é um país brega, o forró e o samba são nossos estilos, e a maioria não gosta. Eu lamento, porque a hora que descobrir isso, pode ser tarde.

Guia-me: O senhor acredita que o mercado fonográfico brasileiro vai se tornar como o americano, onde não há uma grande distinção entre música gospel e secular?

Carlinhos: O mercado secular brasileiro vai ter que abrir a porta para as músicas evangélicas, ou melhor, já estão abrindo. Eu fiquei super feliz quando vi no reality show "A Fazenda" o pessoal cantando a música &Entra na minha casa&, isso é um sonho. Eu tenho 26 anos de música gospel e é um sonho ver em um programa de televisão, que fez sucesso, um cara cantando música gospel. Para mim é o começo, um pontapé inicial para que a coisa mude no Brasil. Os caras vão ter que abrir espaços para os evangélicos cantarem na mídia secular.

Guia-me: O senhor é membro da Acrinda (Associação Cristã Nacional dos Direitos Autorais), qual a importância dos direitos autorais para os músicos cristãos?

Carlinhos: Esse assunto é muito complexo. Grande parte dos evangélicos está preocupada porque acha que a ordem dos músicos está vindo para acabar, e não é nada disso, o que falta aí é informação, mas isso é um processo, e daqui a pouco todo mundo vai entender o que é isso. A gente precisa regularizar a nossa classe, porque músico no Brasil passa necessidade, músico evangélico passa fome. Eu posso provar o que estou falando. A Acrinda vem para somar, fazer a diferença.

Guia-me: Há algum momento ideal para compor suas músicas?

Carlinhos: Eu não consigo ficar num lugar sozinho e fazer música, tenho que ficar no stress, porque é quando as coisas acontecem. Mas não tem lugar, na hora que aparece a inspiração, eu vou para cima e Deus tem dado graça. Tem gente que fala assim: &ah, eu não nasci para ser compositor&, mas não tem essa não, se você gosta de música, escreve, coloca a inspiração para fora, com certeza vai sair coisa boa.

Guia-me: Como é a sua parceria com o Missionário R.R. Soares?

Carlinhos: Começou há quatro anos,ele é um escritor. Um dia eu cheguei nele e falei: &E aí, por que o senhor não faz uma letra de uma música?&. Ele falou: &Não, não, não tem nada a ver comigo isso&. Respondi: &Como não? O senhor não escreve livro?&.

Passaram-se duas semanas e ele mandou uma letra para mim: "Ele é demais". E foi uma música que fez muito sucesso na Igreja da Graça! E aí ele ficou feliz. Hoje a gente tem mais de 200 músicas juntos e mais de 200 para fazer. Ele escreve música quando está lá no Japão, África. Está no primeiro amor em relação a isso, é muito legal.

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