Descobri que sou poeta

Descobri que sou poeta

Atualizado: Sexta-feira, 11 Março de 2011 as 12:43

Dias atrás assisti pela TV a uma entrevista do poeta Ferreira Gullar. Lá pelas tantas, ele descreveu seu processo criativo. Às vezes, andando na rua, chega a ideia, a frase, a inspiração do poema. Dependendo da distância, ele retorna para casa a fim de registrar a "revelação" do texto. Se não é possível, escreve onde dá ou simplesmente repete e memoriza até guardar na mente o que brotou no coração. Imagino que escreva na folha do pão, no guardanapo da lanchonete, no folheto de propaganda...

Lembrei-me dos anos em que trabalhei no banco, das muitas frases e inspirações que me chegaram dentro do metrô, no ponto de ônibus, à mesa no restaurante, no trajeto entre a rua São Bento e a Direita...

E concluí que os poetas são isso mesmo: corpos celestes. Corpos, porque humanos, enfronhados no cotidiano, mergulhados em glórias e agruras, marcados por êxtases e tragédias. E são celestes porque, quando expressam o produto dessas experiências, o fazem numa linguagem que transcende tudo isso e que se assemelha ao que quer que possamos, deste lado da vida, identificar com o céu -- que está do outro lado.

Gullar corroborou o que eu já sabia: que sou poeta. E, é claro, que há diferentes níveis de poetas. Assim como há diferentes categorias de corpos celestes.

O nosso sol, por exemplo, é um astro de quinta grandeza.

Para mim, no entanto, sua classificação não faz a menor diferença. O seu brilho é vida para mim e para o mundo.

Daí, concluo que o mais importante no poeta é ser. O que importa não é a intensidade do brilho. O que vale é simplesmente brilhar.

Por Jorge Camargo - Mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor.

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