Eduardo Mano fala sobre o cenário musical Gospel Alternativo

Eduardo Mano fala sobre o cenário musical Gospel Alternativo

Atualizado: Segunda-feira, 22 Agosto de 2011 as 10:15

Desde 2008, quando lançou seu primeiro trabalho (o web EP “Canções para Grupos Pequenos”), Eduardo Mano parece ter criado para si um padrão de trabalho onde tudo – ou quase tudo – é feito de forma artesanal, seja a gravação do áudio à confecção do material gráfico.

Após dois trabalhos bem-sucedidos na web (além do “Canções para Grupos Pequenos”, o segundo trabalho do músico, chamado “Esperança” também foi disponibilizado de forma gratuita na internet), Eduardo Mano deu mais um passo em sua carreira e lançou, apoiado pela agora extinta banda, Os Tapetes Voadores, seu terceiro trabalho independente, intitulado “Velhas Verdades”

O EP pode ser baixado gratuitamente através deste link: Download do EP "Velhas Verdades".

“A Igreja de hoje não leva mais algumas coisas a sério, e infelizmente, essas coisas deixadas de lado são justamente a que dão a ela a identidade de Corpo de Cristo”, diz Eduardo, ao falar do título do trabalho. “Estamos sempre buscando a mais nova polêmica, a última novidade. E nos esquecemos de examinar tudo, como somos instruídos na Palavra”.

Confira abaixo a entrevista na íntegra?

Quem é Eduardo Mano? A coisa mais importante a ser dita, assim, logo de início, é que Mano não é nome artístico (rsr). Algumas pessoas em São Paulo, quando lancei o “Canções para Grupos Pequenos”, achavam que eu era cantor de RAP. Mas Mano é nome de família mesmo. Além disso, sou marido da Eline. Fiz teologia por alguns anos, toco desde os 14 e tenho bandas desde esta idade. E também sou um abençoado por ter os amigos que tenho.

O que mais te marcou durante a gravação dos seus três Eps – “Canções para Grupos Pequenos”, “Esperança” (ou músicas que não vão tocar nos cultos) e “Velhas verdades”? Os dois EPs foram gravados em contextos bem diferentes. O “Canções” foi gravado bem de improviso, num período meio que de transição para mim, e foi o que abriu muitas portas para a banda, apesar da qualidade ser baixa. O que marcou muito foi que, da idéia de gravar até a disponibilização do material no blog, tudo foi feito em menos de duas semanas. Já o “Esperança” marcou por ter sido em estúdio. Lembro até hoje do dia em que fui ao estúdio, era uma tarde de outono chuvosa. Propício ao clima que permeia o EP. A decisão de lançar esse material acústico surgiu na hora da gravação mesmo, pois soou adequado. Já o “Velhas Verdades”, nosso primeiro CD completo (mesmo com apenas 9 faixas) marcou pela decisão de gravarmos tudo em casa, utilizando nosso equipamento, sem os recursos de estúdio. Nós compramos microfones e montamos uma sala de gravação com edredons, colchões e colchonetes e gravávamos na hora que era mais oportuno. Foram duas semanas em que praticamente moramos juntos, partilhamos de refeições, filmes, risos... foi tão bom que faremos isso novamente pro próximo disco. Uma excelente experiência também é que neste disco pudemos contar com a ajuda do Jordan Macedo na mixagem final e na masterização, o que deu ao trabalho um clima todo especial.

Mas em ambos os trabalhos o que marcou mesmo foi o empenho dos amigos, e a recepção que os materiais tiveram. Não fosse isso, não estaríamos aqui hoje, seguindo no caminho, com três trabalho gravados.

Desde o lançamento, “Esperança” tem sido disponibilizado no seu site para download. Como foi a recepção dos internautas nestes quase 2 anos de divulgação? Na verdade, todos os trabalhos (o “Canções”, o “Esperança” e o “Velhas Verdades”) foram disponibilizados para download. Essa é uma filosofia ministerial minha. Tudo que viermos a produzir será disponibilizado de forma gratuita para download, e terá a opção de compra, para quem quiser. “Esperança” foi o trabalho com maior numero de downloads. No dia 31 de julho passado o download destes dois trabalhos (“Canções” e “Esperança”) foi suspenso, pois creio que estamos virando uma página como banda agora. é Possível que esses downloads retornem, mas teremos novidade em relação às musicas. De qualquer forma, “Esperança” teve mais de 3000 downloads em quase 2 anos e meio, e ainda temos feedbacks positivos a respeito das músicas. Hoje, o único trabalho ainda disponível para download é o último, “Velhas Verdades”, lançado em novembro do ano passado, que tem tido uma excelente receptividade também.

 “Esperança” é também uma homenagem ao compositor Jorge Rehder que é o compositor com maior número de canções gravadas pelo ministério Vencedores por Cristo. Como foi o processo de escolha das canções? Tive a oportunidade de conviver um pouco com o Rehder por questões familiares. Mas já o conhecia há alguns anos, por conta dos eventos da extinta Associação de Músicos Cristãos. Como sou muito influenciado pelos Vencedores por Cristo, conhecias suas composições gravadas por ele, e creio que o legado que ele deixou é importantíssimo para a musica cristã brasileira. Na verdade, as músicas que compõem o disco já haviam sido escolhidas e gravadas antes da sua morte, mas como o nome do seu disco em comemoração aos seus 35 anos de ministério se chamava “Porto Esperança”, e o tema central das duas músicas do “Esperança" é a esperança que temos em Cristo, achei que a homenagem era válida.

Pode nos contar um pouco sobre a pré-produção do seu mais recente projeto, Velhas verdades? Toda a pré-produção do disco foi feita na mesma casa em que gravamos. Todas as segundas-feiras tinham ensaios, onde definíamos como algumas coisas seriam. Mas muita, muita coisa mesmo, mudou na hora da gravação e na edição do material. Gravamos o disco com nosso próprio equipamento, e como não tínhamos experiência alguma de estúdio, foi tudo muito novo, uma área completamente nova a ser explorada. Uma experiência que incentivo às bandas a terem, se possível.

Como foi a escolha do repertório? O repertório foi escolhido por afinidade de tema. Na verdade, boa parte das músicas já existiam, e quando compus a faixa título, que também foi a última a entrar no disco, tudo se encaixou, de alguma forma. O disco é basicamente cristocêntrico, e afirma aquilo que aprendemos há muito tempo nas Igrejas, mas que de alguma forma parece que tem perdido força em meio ao cristianismo pós-moderno.

Afirmamos coisas como o nascimento virginal, a ressurreição de Cristo, a morte pelos nossos pecados. A graça de Deus, sim, mas como cantamos na faixa “Bem Se”i, também o juízo de Deus. Tudo se encaixou debaixo do tema, que são as “Velhas Verdades”.

Como tem sido a repercussão do público e mídia? O disco tem tido uma resposta muito boa. Os downloads, bem como os pedidos, naturalmente diminuíram, mas as mensagens de agradecimento pela composição do álbum têm sido constantes. Engraçado que cada pessoa tem uma predileta, quase todas as faixas, de alguma forma, falaram ao coração das pessoas, de um jeito ou de outro. Isso tem sido muito legal. Na mídia... bem, na mídia não saiu nada. Na verdade, como a banda Tapetes Voadores (esse era o nome da banda na época da gravação) acabou logo antes do lançamento do disco, achei por bem não divulgar muito o trabalho, apenas nas mídias sociais e nos blogs.

Vocês pretendem investir na produção de vídeo clipes? Como você enxerga essa ferramenta dentro do seu ministério? Não creio que vídeo clipes, no formato tradicional da mídia, sejam interessantes para nós. Creio que a divulgação e boa edição de vídeos de ministrações, às vezes, faz mais efeito no que tange a divulgação do trabalho. O vídeo é uma mídia importantíssima nos dias de hoje, basta ser bem utilizada.

Qual a sua formação musical? Tive aulas de violão quando pequeno, antes dos 12 anos... depois disso, aprendi a tocar com aquelas antigas revistinhas de cifras. Além disso, cantei durante muito (muito mesmo) anos em corais nas igrejas em que fui membro.

Como é o seu relacionamento com as outras bandas do cenário independente e alternativo? Bom... tenho bons amigos que tocam em boas bandas. Creio que o relacionamento com todos é muito bom, mas destaco minha amizade com o Rafael Porto da “Alforria”, Diego Marins da “Interlúdio”, Hélder Assis da “Sacrifício Vivo”, e o Lucas Souza (um cara que me dá tanta moral que até me constrange). Sem dúvidas, foi com eles que eu troquei mais idéias sobre música e projetos, além dos caras que tocam comigo. E tenho muito carinho pelo Hélvio Sodré, o Fábio Sampaio da “Tanlan” e os meninos do “Palavrantiga”, além de inúmeros outros músicos por esse país afora.

Musicalmente falando, o que te influenciou e o que você têm ouvido hoje em dia? Rapaz, minha vida (musicalmente falando) mudou muito em 2008, quando conheci o trabalho do músico, e hoje amigo, Stênio Marcius. Ele é uma grande influência e referencia, tanto nas letras quanto na visão de ministério. Ultimamente tenho sido muito influenciado por bandas como Fleet Foxes, Dawes, Mumford & Sons, Bon Iver... e tem alguns que não deixam de ser favoritos, como Sigur Rós, Vencedores por Cristo, Derek Webb, Grupo Logos, Grupo Semente... tem muita música boa nesse mundo!

Em relação a música gospel que existe no mercado hoje, você curtem algum ministério? Olha, como muita gente hoje toca música de igreja, mas não quer se chamar de ministério, tenho até medo de citar alguém e depois falar que não é isso. Mas como já disse, tem o Stênio Marcius. O Lucas Souza é outro cara que ainda ouço os CDs com muito prazer. Tem o pessoal da “Sacrifício Vivo”, de Santos / São Vicente, que faz um trabalho muito bom. Eu gostaria de poder citar mais gente, mas como disse, tenho medo de ofender alguém dizendo que, por prestarem um sérvio à Igreja, são um ministério.

Aproveitando, como foi a participação de vocês no LOVE 2011? Foi uma experiência bem interessante, principalmente pela oportunidade de conhecer tanta gente que a internet nos proporcionou ter contato. O aprofundamento da amizade com as bandas, encontrar com gente que já tinha mandado email, tweet ou coisas assim um dia, foi fantástico. O som do evento estava bem legal, ao menos eu achei, e a estrutura foi bem legal também. Nota 10.

Qual a sua opinião em relação ao mercado de pirataria de CDs e download ilegal de músicas? Rapaz, acho que ilegal é cobrar quase 30 reais por um CD. Eu baixo CDs. E na medida que posso, os compro. Tem coisas que nem ouço por não querer perder meu tempo, mas acho muita hipocrisia dizer que não baixo CDs. Disponibilizei meus CDs de forma gratuita em meu site como forma de passar adiante uma mensagem, uma idéia, e não vou mudar isso. Agora, se alguém vende material pirata, aí sim, é crime e tem que ser punido. Mas não sei se baixar um CD na internet, especialmente nos dias de hoje, é algo tão nocivo assim. é claro que as gravadoras vão dizer que sim, e que muitos artistas, por direcionamento da gravadora, dirão o mesmo. Mas fico pensando que, não fossem os downloads, quantas bandas eu deixaria de conhecer... muitas das minhas influências hoje eu conheci baixando, e depois comprando os CDs. Mas já sei que vão me chamar de herege, bandido e outras coisas por dizer isso. Normal. Se as bandas pensassem que quando alguém no Acre baixa o CD delas da internet, pois o material ainda não chegou às lojas de lá, isso é muito mais uma oportunidade de divulgação do que uma transgressão, talvez as coisas mudassem um pouco.

A cada dia vemos crescer o uso de meios eletrônicos, como o Twitter, o MySpace, Orkut, Youtube, entre outros, para divulgação do trabalho. O que você acha dessas novas opções de mídia? Eu as acho excelentes, especialmente para as bandas novas. As mídias sociais são uma excelente forma de divulgação, e ainda por cima são gratuitas. Uma boa utilização do twitter, youtube, facebook e alguns outros serviços, podem fazer maravilhas no que tange a divulgação do trabalho.

Para encerrar, quais são os seus projetos para 2011? Para este ano iniciaremos a gravação do nosso quarto trabalho e também devemos lançar o site da banda, pois até agora tudo tem sido feito através do meu blog pessoal. E depois, veremos o que Deus vai fazer com a gente.    

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