Entendendo as premiações do Mercado Fonográfico

Entendendo as premiações do Mercado Fonográfico

Atualizado: Segunda-feira, 14 Março de 2011 as 12:20

No auge do mercado fonográfico em nosso país, artistas populares vendiam sem muito estardalhaço algo como 200, 300, 500 mil cópias. Isso aconteceu por volta dos anos 1995 a 2004, antes do advento da pirataria física de CDs e da chegada da internet mudando os hábitos de consumo de música. Naquela época, a premiação de Disco de Ouro era concedida a artistas cuja vendagem ultrapassava 100 mil cópias e, pasmem, muitos artistas negavam-se a ir em programas de TV para receberem suas premiações de Disco de Ouro. Só valia a pena o “esforço” para receber prêmios de Disco de Platina em diante, o que equivalia à epoca em vendas superiores a 250 mil cópias.

É desta época que artistas como Só Pra Contrariar, Daniela Mercury, Skank, Zezé di Camargo e Luciano vendiam normalmente 2 a 3 milhões de CDs a cada lançamento. Com a chegada da pirataria física de CDs, a queda de vendas foi colossal. Uma verdadeira tsunami que arrastou o mercado fonográfico regular para uma queda de mais de 50% no Brasil, tanto que a certificação de Disco de Ouro foi drasticamente reduzida de 100 para 50 mil cópias e respectivamente todas as outras premiações.

Mais recentemente, a ABPD, Associação Brasileira dos Produtores de Discos, que reúne as principais gravadoras do mercado nacional, mudou mais uma vez a regra de certificação e premiação sobre vendas e agora o Disco de Ouro equivale a 40 mil cópias vendidas, Platina a 80 mil cópias e Platina Dupla a 160 mil cópias.

O que me motivou escrever mais esse post para os nossos 18 leitores assíduos do Observatório Cristão foi perceber que hoje há uma “farra da premiação”. É um tal de Disco de Ouro pra cá, Disco de Platina pra lá… que resolvi esclarecer um pouco como funciona essa premiação.

Primeiramente, apenas a ABPD tem condições de premiar artistas e produtos sobre suas respectivas vendas. E tão somente os associados da ABPD é que podem solicitar a certificação oficial da entidade. Essa certificação se dá através de auditoria solicitada pelo associado à entidade. Depois de conferir as informações e atestar as vendas do produto, a ABPD fornece um certificado oficial de premiação.

A ABPD conta com 10 associados, sendo 4 gravadoras que atuam no mercado gospel, a saber: MK Music, Line Records, Sony Music e Som Livre. Portanto, oficialmente apenas estas 4 empresas podem solicitar oficialmente sua certificação sobre vendas. Outra informação importante é que, para efeito de certificação, as vendas consideradas válidas são apenas aquelas realizadas para o mercado formal, ou seja, no caso de vendas especiais para igrejas, algo super comum no meio gospel, estas não são válidas.

Recentemente tenho visto algumas gravadoras evangélicas “soltando fogos” por premiações de “Disco de Ouro” sendo que sabidamente mais de 70% da tiragem do produto teve sua venda direcionada para a igreja, da qual a empresa está umbilicalmente ligada. Nada contra esse importante canal de vendas, muito pelo contrário, porque é notório que mais de 70% do público evangélico não tem como hábito visitar regularmente uma livraria evangélica e na igreja ele pode adquirir esses produtos, mas é importante que esta ressalva seja destacada.

Neste aspecto também é importante salientar que o próprio artista não pode se iludir. Se antes este mesmo artista alcançava marcas expressivas de vendas com 200, 300 mil cópias, não é saudável se contentar hoje com vendas de 100 mil cópias sendo que destas, cerca de 70 mil exemplares foram vendidos para um cliente único. Infelizmente tenho visto na mídia gospel alguns artistas TOPs comemorando essas premiações como se fosse realmente uma marca importante, quando na verdade o que se percebe é uma dependência absoluta do cliente “igreja”.

Quero deixar bem claro que não nenhum demérito no trabalho das gravadoras que mantêm esse canal de vendas, apenas este post tem como objetivo alertar para a excessiva necessidade de independência de gravadoras ligadas a denominações. E este alerta também serve para os artistas! Por fim, vale a pena relembrar que oficialmente a premiação sobre vendas se dá tão somente aos associados oficiais do mercado fonográfico, neste caso a ABPD. Até porque, infelizmente, parece ser muito difícil que o mercado fonográfico gospel consiga um dia contar com sua própria associação.

Por Mauricio Soares - Publicitário, jornalista, consultor de marketing e diretor executivo da Sony Music Gospel no Brasil

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