Estamos preparados para a música "metafórica"?

Estamos preparados para a música "metafórica"?

Atualizado: Terça-feira, 10 Maio de 2011 as 10:25

A riqueza da comunicação está em disseminar uma mensagem sem precisar revelá-la diretamente. Um código no código. Esse recurso de linguagem é chamado de Metáfora. Segundo Paul Ricoeur no livro "A Metáfora Viva" pág. 134, metáfora é "falar de uma coisa nos termos de outra", ou seja, falar uma coisa querendo dizer outra. Fazer com que o ouvinte "monte" a mensagem e faça as sinapses necessárias ao entendimento por si próprio é um estilo interessante de se fazer música, e isso vem a cada dia se tornando mais comum em nosso meio. Claro, não é uma novidade nem muito menos uma inovação, pois grupos gospel norte-americanos como Avalon, Third Day, Casting Crowns, Hillsong United, MercyMe, etc, sempre o fizeram e ainda fazem com maestria. Aqui no Brasil, esse tipo de música ainda é muito prematuro. Nossa música ainda é muito focada na comunicação direta da mensagem, ou seja, aquela em que o ouvinte não precisa pensar muito pra entender. Mas estão surgindo alguns "investidores" nessa arte, como o Rosa de Saron (banda de rock católica) que possuem 99% de seu repertório de músicas metafóricas. Uma delas tem a seguinte letra:

O tempo voou, nem percebi.

Mas sou o mesmo homem que

um dia você conheceu.

A canção não esqueci.

O menino que há em mim

nasceu para cantar.

Chora como nunca, ao sentir:

ainda estamos juntos aqui.

(Refrão)

Abro o coração.

Coloco-me aos seus pés.

Noite escura agora é manhã.

E falo com rara calma:

Sou o que sou, sem ti sou fraco,

mas sempre tive Você aqui perto de mim

[Rara Calma (Rogério Feltrin) - Rosa de Saron]

A música continua e a história também. O "menino que há em mim" sugere os princípios aprendidos na infância e que ainda persistem na maturidade. Em nenhum momento é citado o nome de Deus, mas fica implícita na música com o Você com "V" maiúscula. Outro exemplo, e esse é de casa, é Felipe Valente que em 2009 lançou seu 2º CD solo mais ou menos nesse estilo. FV contém letras do próprio cantor e uma delas entitulada "Folhas de Outono" traz uma mensagem rica de forma extremamente inteligente:

Eu deixo a luz do quarto se apagar

Pra deitar no chão

Pedindo pra teu lápis desenhar

Meu papel de pão

É fácil descansar nessa condição.

Pra logo despertar vendo as folhas pelo chão

Me lembro que sou

tão frágil

Frágil como folhas de outono

Tão frágil, frágil como quem não tem dono

"Pedindo pra teu lápis desenhar" deixar Deus guiar o "meu papel de pão" minha vida. Infelizmente, esse tipo ainda enfrenta certa barreira entre nós, pois alguns alegam que músicas assim muito se parecem com as seculares de Renato Russo, Engenheiros do Hawaí, etc (e que não deixam de ser brilhantes em sua arte!) e para mim, em particular, pessoas pensam assim é porque não conseguiram fazer as sinapses necessárias para o bom entendimento (rs...). A questão é que esse tipo de música é extremamente rico e tem menos risco de ser apelativa e emocional. Outros exemplos que estão chegando são o Igl3sias (filhos do Fernando Iglesias) que têm letras riquíssimas e Alessandra Samadello que esse ano vai lançar um álbum completamente nesse estilo. A música está mudando, mas essa parece ser uma boa mudança, visto que aposta na inteligência, na poesia e no enriquecimento da comunicação. Oxalá todas as mudanças fossem ricas e inteligentes assim! Estamos num momento em que temos que fazer a diferença no meio de um universo Gospel tão apelativo e emocional. Sabemos que as decisões, inclusive as de salvação, devem ser feitas de forma racional e não somente emocional (que também é importante). Mas e você, o que acha disso? Dê sua opinião e fique DeOlhO!

Por Marcelo Silva

Marcelo Silva , 20 anos, é universitário, blogueiro, apaixonado por música em todas suas formas. Membro da Igreja Adventista do 7º Dia, sempre foi ligado à música, participando de grupos musicais e solos. Lider jovem, atualmente se prepara para o ministério solo. Dono do blog www.deolhoadventista.blogspot.com , que conquistou pessoas ligadas à musica gospel/adventista por suas críticas e reflexões entre música e cristianismo.

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