Fervor evangélico na terra da ortodoxia eslava

Fervor evangélico na terra da ortodoxia eslava

Atualizado: Sexta-feira, 17 Junho de 2011 as 4:36

Todo domingo, milhares de fiéis lotam um ginásio daqui para um animado culto evangélico. Um coral e uma banda de rock berram músicas gospel em russo. Pessoas dançam nos corredores. É como se uma megaigreja americana tivesse sido transplantada para Kiev, berço da ortodoxia eslava. Poderia haver uma história de sucesso mais improvável na ex-União Soviética do que a do reverendo Sunday Adelaja, um nigeriano que arrebanhou um enorme contingente de seguidores por toda a Ucrânia?

Desde seu início num apartamento caindo aos pedaços, logo depois do colapso da URSS, há duas décadas, Adelaja construiu uma vasta organização religiosa, a Embaixada de Deus. Ele é uma das personalidades mais conhecidas da Ucrânia, aliando os princípios evangélicos à filosofia encontrada em livros religiosos de autoajuda.

Mas é também vilipendiado por quem não gosta de ver um africano tirando os eslavos das suas tradições religiosas. A Igreja Ortodoxa Ucraniana o considera um líder de seita, e as autoridades repetidamente o investigam. Não é difícil encontrar em Kiev caricaturas dele com teor racial. O governo da Rússia, onde ele também tem cada vez mais seguidores, o proibiu de entrar no país.

Adelaja, que tem uma risada estrondosa e uma personalidade implacavelmente solar, tenta deixar os insultos de lado. Ele disse que a popularidade de sua igreja mostra que os ucranianos estavam numa busca espiritual depois do ateísmo da era soviética. Segundo o pastor, mais de 100 mil pessoas assistem regularmente aos seus cultos na Ucrânia, um país de 46 milhões de habitantes.

"Eu vim para este país em desvantagem como negro", disse ele, acrescentando que foi muito insultado. "Mas ainda assim, com todas as minhas desvantagens, falando russo com sotaque, fui lá e disse: 'Ei, isso vai ajudá-los'; e as pessoas responderam."

Adelaja, 43, chegou à URSS em 1986 como estudante universitário e depois se mudou para Kiev. Ele e sua mulher nigeriana falam fluentemente o russo, língua nativa de muita gente neste país.

A Embaixada de Deus tem filiais no mundo todo. Na Ucrânia, a igreja realiza inúmeras atividades beneficentes, alimentando milhares de pessoas mensalmente em "sopões", e mantendo centros de tratamento para viciados. Mas Adelaja também atendeu à ânsia das pessoas de países ex-comunistas por aprenderem habilidades empresariais.

Em um sábado recente, Adelaja conduzia um seminário. Lendo um iPad, ele recitava passagens bíblicas e discutia como os princípios cristãos poderiam ajudar nos negócios. Ele e o fiel Ishtvan Birov, 35, faziam brincadeiras sobre a inovação. A conversa desviou de Jesus para Steve Jobs, o cabeça da Apple.

"A Apple pega um modelo e continua melhorando-o", disse Birov. "Esse é o princípio de Deus", respondeu Adelaja, "sempre continuar melhorando". E acrescentou: "Deus é pensamento estratégico".

Adelaja não é cidadão ucraniano, mas disse que as autoridades têm medo de deportá-lo por causa da potencial reação dos seus muitos seguidores.

O pastor afirmou não viver com luxos. Disse que seus seguidores são incentivados a doarem 10% dos seus salários à igreja -o que muitos não fazem-, e que o dízimo é para atividades da igreja, o que inclui uma futura sede de US$ 50 milhões. Ele declarou que se sustenta principalmente com a venda de seus livros. Seus adversários o acusam de promover falsos ideais cristãos. "Sua metodologia e suas visões bíblicas são distorcidas", disse Dmitri Rozet, que administra um site chamado Adelaja Watch (algo como "fiscais de Adelaja"). "Ele quer usar Deus para o benefício humano."

"Com todas as minhas desvantagens, falando russo com sotaque, fui lá e disse: 'Ei, isso vai ajudá-los'; e as pessoas responderam"

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