Forfun faz rock espiritualizado: Não precisamos de igreja

Forfun faz rock espiritualizado: Não precisamos de igreja

Atualizado: Segunda-feira, 25 Julho de 2011 as 3:55

Quando surgiu para a cena musical, lá no começo deste milênio, o Forfun não se declarava uma banda diferente das demais. Isso no velho discurso de banda nova com sucesso recente que sempre só está à busca de espaço. Porém, ao primeiro acorde, era escancarada que a proposta deles destoava da melancolia que pairava no rock na época – afinal, o hardcore californiano e humorado do grupo se distanciava da onda emotiva do NX Zero e da Fresno, frutos da mesma geração.

Hoje, após buscas espirituais, o Forfun acaba de lançar ”Alegria Compartilhada”, terceiro álbum do grupo. Com participação de Black Alien e produção de Daniel Ganjaman, ambos ex-integrantes do Planet Hemp, o disco sucede o trabalho “Polisenso”, de 2009, e mantém a contemplação do universo no centro letras, diferente dos temas superficiais do “Teoria Dinâmica Gastativa”, de 2004. “Éramos moleques com 17, 18 anos cantando aventuras adolescentes, mas sinceras”, justifica Vítor Isensee, guitarrista e tecladista da banda.Antes do Forfun seguir Brasil à fora com a nova turnê, o iG Jovem conversou com os caras. No bate-papo eles revelam como a temática da espiritualidade chegou até a banda, falam de happy rock à Maradona e afirmam “não é porque somos da paz que vivemos sem stress”. Confira:Como foi o processo de partir de uma temática jovem, com o álbum “Teoria Dinâmica Gastativa”, e agora cantar sobre espiritualidade, no novo trabalho?

Vitor: Retratamos a vida que a gente leva. Na época, éramos moleques com 17, 18 anos cantando aventuras adolescentes, mas sinceras. Hoje, levar outro tema para o nosso público é um processo natural. Amadurecemos. Estamos sempre em evolução.

Danilo Cutrim (guitarra e vocal): Não tínhamos grandes pretensões. O lance sempre foi tocar por prazer e falar o que a gente tinha vontade. No segundo disco, já começamos a explorar outros assuntos, como a física quântica, o universo. Somos gratos por ter essa liberdade.

Mas de onde surgiram essas buscas espirituais?

Nicolas Christ (bateria): Acho que isso faz parte do processo evolutivo. Chega um determinado que você, como ser, acaba ser perguntando a razão de fazer o que faz e de estar aqui, vivendo.

Vitor: Não houve um evento determinante. Nós crescemos bebendo de várias fontes. Filosofia oriental, livros, filmes, músicas, conversas que temos. Externar certas epifanias é uma necessidade e temos prazer em fazer isso.

Nicolas: A palavra religião vem do latim religare, que expressa a religação com o divino. Então, não precisamos de uma igreja para estar em contato com o criador. A oração pode ser iniciada a qualquer hora, cada um com a sua maneira.

E vocês têm a intenção de despertar a consciência do jovem para o assunto?

Nicolas: A ideia não é tolher ninguém. Passamos nosso recado, escuta quem quer. Só que eu vejo que hoje existe uma preocupação da construção de uma personalidade virtual.

Vitor: Não estamos aqui para catequizar e nem para falar em alienação. A geração de hoje vive o momento dela. Acho que a arte é um canal rápido e legal para criar o questionamento.

Dá para dizer que essa postura virou uma marca da banda?

Vitor: Como uma marca pensada, não. Quem nos norteia é o coração.

Rodrigo Costa (baixo e vocal): Mas, não é porque somos da paz que vivemos sem stress. Temos nossas individualidades e contratempos. A vida na estrada gera divergências, seja de opiniões ou métodos. O convívio é quase igual ao de um casal de namorados (risos).

Vocês estão lançando um trabalho novo em meio à cena do “rock colorido”. Como enxergam isso?

Danilo: Essa é uma questão antropológica. Não nos sentimos ofuscados por essa nova cena porque cada banda surge numa época diferente. Acho uma babaquice ver a galera mais velha da música analisando esse som de modo negativo.

Rodrigo: O meio musical é voltado para o comércio e, claro, um conteúdo simples é mais fácil de digerir. Mas, isso não significa que não exista uma gama de gente talentosa fazendo esse estilo de som de modo sincero.

Faltam mensagens nesse tipo de som?

Vitor: De forma alguma. Há 8 anos atrás, na onda ‘emo’, o pessoal cantava sobre uma vida triste e todos criticavam. E a tristeza também tem que ter o seu lugar na música. Isso vale pro happy rock também.

Na música ‘Quando a Alma Transborda’ vocês citam pessoas que inspiram vocês de alguma forma, entre elas o Maradona…

Rodrigo: Bom… (risos). O leque de influências vai muito além dos pré-socráticos. Curtimos o Maradona porque ele é um cara de opinião, que mesmo com atitudes contraditórias, fala o que pensa.

Nicolas: Ele foge do senso comum. E dentro de campo foi de uma genialidade incrível.

Pra finalizar, resumam em uma só palavra o que é o Forfun para vocês.

Vitor: Tudo.

Danilo: Nada.

Nicolas: Expressão.

Rodrigo: Vontade.

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