Glauber Plaça: "Devemos permanecer naquilo que fomos chamados"

Glauber Plaça: "Devemos permanecer naquilo que fomos chamados"

Atualizado: Sexta-feira, 18 Março de 2011 as 2:27

Parece que o músico Glauber Plaça nasceu para compor e dedilhar as cordas de um violão. E quando faz isto, pode ter certeza que logo ouvirá boa música, acompanhada quase sempre de uma letra inspirada e uma forte voz, que invade o espaço onde estiver, agrupando todos ao seu redor.

Ao contrário de muitos artistas que se dedicam à música desde edo, este paulistano de 35 anos de idade conta que, da infância, guardou especialmente os jogos de bola e os passeios de bicicleta - ao lado do pais Jonas e Diva, e da irmã Melissa - e apenas na adolescência teria os primeiros contatos que o fariam se interessar pela MPB.

Há muito sua música ganhou espaço também nas igrejas e nos espaços onde costuma tocar muitas das composições brasileiras de seus músicos preferidos, entrelaçadas em letras de canções que criou nos últimos tempos.

Sua presença no Fórum Nacional de Cristianismo Criativo - promovido pela W4, em novembro, na Livraria Cultura (SP) - esteve à altura de nomes como Carlinhos Veiga, Jorge Camargo e Nelson Bomílcar, os mesmos músicos-poetas a quem admira.

A sensibilidade de Gláuber também está presente em suas respostas, como você verá a seguir, na entrevista dada exclusivamente para o Portal Cristianismo Criativo:

Gostaria que você falasse um pouco sobre você e seu trabalho... qual seu primeiro contato com a música? Quando começou a tocar e a compor?

Desde que nascemos, entramos em contato direto com a música em quase todos os momentos... as canções de ninar para o bebê, os sons dos pássaros, da natureza... brinquedos que “cantam”, as trilhas sonoras de filmes e desenhos animados, os jingles das propagandas etc. No meu caso, além de tudo isto, cresci na igreja Metodista, que por tradição reunia pequenos grupos vocais masculinos e os corais para cantar os Hinos. Meus pais não eram músicos instrumentistas, mas participavam destes encontros de louvor, entre ensaios e cultos, e quase sempre eu estava junto com outras crianças brincando aos pés dos cantores.

Mesmo vivendo num lar cristão, graças a Deus, nunca fui privado de ouvir músicas populares que tocavam nas rádios e outras que os colegas de escola, da mesma idade, gostavam na época. Aprendi que devemos ouvir de tudo e reter o que é bom. O que não é bom devemos descartar.

Interessante você destacar isto, pois realmente há este tipo de má compreensão em algumas famílias...

Acredito que as músicas ouvidas por meus pais em casa, na minha infância e adolescência, tiveram grande influência no que gosto de ouvir hoje. Eram comuns os discos de “MPB” rodando na vitrola. Isto despertou em mim certo interesse por letras e melodias dos anos 60 e 70... músicas de protesto... aquelas dos festivais. Lembro de meus tios escutando Rock internacional nas festas de aniversário e foi nesta época que comecei a ouvir Blues e entender um pouco sobre o sentimento contido nesse estilo. É óbvio que curti muito, na década de 80, algumas das bandas “pops” nacionais (não muito boas) que tocam até hoje em nossas rádios. Só descobri que as bandas eram “fraquinhas”, por volta dos quinze anos de idade, quando comecei a me interessar pelo violão e a fazer os primeiros acordes. Chega um momento em que você toca mais de cinqüenta músicas diferentes e percebe que só sabe fazer três ou quatro acordes. Foi aí que redescobri Chico Buarque (uma única música dele continha vinte ou trinta acordes que eu nunca havia visto antes...), Tom Jobim, João Gilberto e outros sons que já faziam parte de minha primeira e segunda infância.

Qual foi sua primeira composição?

Comecei a compor sem muita seriedade e compromisso algumas músicas instrumentais e a primeira letra que fiz com início, meio e fim foi para uma menina por quem eu estava apaixonado... muito legal estes caminhos de Deus em nossa vida. A música, entre outras artes, é um ótimo meio para externar sentimentos.

E quando você começou a compor músicas para Deus?! e como a MPB entrou nesta história?

Minha conversão e decisão para Cristo aconteceu em 1993, num acampamento, onde conheci um grupo de louvor da Igreja Metodista em Campo Belo. Nos encontrávamos para estudos, ensaios e comunhão, aprendendo juntos mais da Palavra. Em 1997 compus a primeira música inteira com um tema cristão, chamada Príncipe da Paz. Fui incentivado por pastores e amigos a inscrever esta canção no FECASA (festival de música da casa da juventude metodista). No ano seguinte gravei minha segunda composição, Nova Manhã, num CD em conjunto com outros participantes do mesmo festival. Em 2004 gravei um CD com a maioria de músicas próprias, comecei a divulgá-lo no ano seguinte com a intenção de louvar a Deus com música brasileira de uma forma mais autêntica e pessoal, usando essas várias influências que citei acima, sem me preocupar em seguir a tendência musical do momento. Atualmente, continuo divulgando este primeiro trabalho e gravando um segundo “disco”, que pretendo lançar ainda em 2008.

O que significa música e arte para você?

A meu ver, a arte é a condutora das expressões de sentimento contidas em todo ser humano e a música é um dos ramos desta arte. Todas as pessoas expressam dores, anseios, vontades, alegrias, tristezas, sonhos, medos, desejos, de várias formas, com a intenção de se comunicarem.

Mesmo aquelas antigas artes rupestres nas paredes das cavernas são resultados desta necessidade de comunicação. Neste sentido, acredito que qualquer pessoa possa se expressar através da arte.

Resumindo, cito o poema Metade, de Oswaldo Montenegro: “que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar...” (nem eu!), “porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.”

Quais são os poetas-músicos da contemporaneidade, pertencentes à igreja ou não, que mais te inspiram?

Pensando assim de imediato é impossível não lembrar de músicos e poetas conhecidos do meio cristão e também dos compositores de clássicos da MPB. No caso dos poetas cristãos, quem me vem primeiro à memória é Sérgio Pimenta, que influencia gerações até hoje. Junto com ele, outros nomes ligados aos Vencedores por Cristo, como Nelson Bomilcar, Guilherme Kerr, Jorge Camargo, João Alexandre, entre outros.

Nos últimos anos, tive a feliz oportunidade de conhecer e conviver com poetas, cantores e intérpretes igualmente talentosos como Silvestre Kuhlmann, Stênio Marcius, Carlinhos Veiga, Roberto Diamanso, Cézar do Acordeon (Abianto), Gilson Resende, Priscila Barreto, Shirley Espíndola, Sérgio e Marivone (baixo e voz), Gerson Borges, Tiago Vianna, Diego Venâncio etc.

Já na MPB, gosto muito do estilo musical, interpretação e arranjo vocal do Boca Livre, Milton Nascimento, acompanhado de Lô Borges e Beto Guedes nas gravações do Clube da Esquina, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto e Ivan Lins. Existem artistas mais recentes que ouço bastante, como Renato Braz, Mário Gil, Celso Viáfora, Vicente Barreto, Ceumar, Virgínia Rosa, Mônica Salmaso e Renato Motta.

Poderia citar uma de suas músicas preferidas e contar por quê?

Citar uma é bem difícil. São várias, entre composições da MPB e cristãs, mas se tenho que citar uma só, vamos lá: Cruzeiro do Sul, de Jean e Paulo Garfunkel, com interpretação de Renato Braz, no disco Outro Quilombo, de 2001.

Cruz de estrelas

Apontando o Sul

Norteando a terra

Talismã de luz no céu do planeta

Punhal brilhante

Rasgando a noite

Da solidão brasileira

Quem me dera

Simplesmente estar

E olhar as estrelas

Sem pensar nas cruzes ou nas bandeiras

Quem dera as luzes da Via-Láctea

Iluminassem as cabeças

E acendesse um sol em cada pessoa

Que aquecesse o sonho e secasse a mágoa

Esta terra é boa

Esse povo agita

Não é à toa

Que a gente voa

Que a gente canta

E acredita

Olhar para o céu e imaginar desenhos nas estrelas e nas nuvens é algo que mexe com a nossa criatividade. É interessante como o Cruzeiro do Sul é capaz de inspirar a todos, cada um com sua fé, cada um com sua maneira de ver o mundo e a Deus, mas no fundo, me parece que a Cruz de Cristo é capaz de acender utopias, sonhos de um mundo sem bandeiras ou muros, canções de paz e de esperança, que nos fazem mais humanos e próximos do Criador.

Como você acredita que a fé influencia sua arte?

A influência da fé na minha arte está ligada à capacidade de conseguir perceber a grande diversidade da Criação, que se mostra desde uma pequena flor no alto de uma montanha até a descoberta de estrelas que estão nascendo e morrendo constantemente em algum canto do Universo, a anos-luz de nosso planeta. Quando começamos a observar tudo isto através de nossos sentidos, imaginamos um Deus criativo.

Esta criatividade aparece nos primeiros versos bíblicos: “No princípio, criou Deus...” (Gen. 1:1). Esse mesmo Deus se revela não só como uma personalidade criadora, mas também como alguém com padrões estéticos, um artista que observa sua própria criação e a julga boa, ou melhor, bonita, bela. “E viu Deus que isso (o que criou) era bom” (Gen. 1 versos: 4, 10, 12, 18, 21, 25 e 31). Neste último verso (v. 31), há uma intensidade: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”. Em seguida, Deus cria o homem e a mulher à sua própria imagem e semelhança (v. 26 e 27), colocando-os responsáveis sobre a criação de tudo o que veio a existir. Se somos imagem e semelhança de um Deus criativo, acredito que trazemos em nós uma certa capacidade criativa. O homem é colocado em um lugar especial, num jardim, dotado de criatividade para cuidar, plantar, colher (Gen. 2:15) e inventar nomes para cada “objeto” da criação (Gen. 2:19 e 20).

Na sua opinião, qual o papel da arte na igreja?

Em 1997, assisti a um filme, dirigido por Spielberg e escrito por David Franzoni, chamado Amistad, baseado na história de um navio em que negros escravos lutam por sua liberdade, em 1839. Em determinado momento do filme, um dos escravos encontra uma Bíblia ilustrada. Ele começa a folhear o Evangelho sem entender uma palavra do que está escrito, mas uma coisa ele podia entender: as ilustrações. Neste momento, o escravo se vê na mesma situação daquela história do livro em suas mãos e se identifica com a figura de um homem bom, que é condenado injustamente. As figuras que aquele homem estava “lendo” contavam a história de Jesus. O Evangelho chegou ao coração dele através de imagens, de uma linguagem visual.

Acredito que todas as formas de arte sejam importantes na vida da igreja porque são instrumentos de comunicação humana doados por Deus. Parece-me que quanto mais avançamos a caminho da modernidade da história e da igreja, nos afastamos na mesma proporção de uma “diversidade criativa inicial”.

A começar pela arquitetura dos templos modernos, que parecem caixas de paredes brancas, onde não se pode expressar nenhuma arte em pinturas, exceto uma parede azul com nuvens brancas. Num contraponto a isto, temos igrejas que constróem verdadeiros palácios com grandes colunas, lembrando os antigos templos greco-romanos. Nada contra denominações específicas. Elas estão levando o Evangelho e creio que a Palavra deve ser divulgada e ministrada acima de tudo, mas estou expressando a minha opinião sobre arte, música e cultura dentro das igrejas onde ministro, participo e congrego há muitos anos.

Sei que isto tem a sua explicação histórica e não gostaria de ater-me aos motivos destes acontecimentos, mas me chama bastante a atenção o fato de limitarmos a nossa “arte evangélica” aos grupos musicais e aos raros grupos de dança com meninas, que repetem um movimento de lencinhos coloridos, principalmente no meio de comunicação televisivo. Mesmo dentro da extensa área musical evangélica, da qual também faço parte, nos deparamos com um número infinito de grupos e cantores que são levados a reproduzir músicas estrangeiras, não levando em conta a sua própria cultura local ou a riqueza de ritmos de nossa música brasileira. Somos detidos pelo preconceito contra a nossa própria cultura, em especial a cultura dos negros e dos índios, e os instrumentos ditos como “profanos” (principalmente os de percussão como tambores, pandeiros etc.).

De uma forma geral, a música é uma manifestação artística bem mais valorizada, que acaba monopolizando os espaços de culto. Seria interessante (não sei se possível dentro do nosso contexto) que outras expressões de sentimento, emoção e comunicação pudessem ser usadas para o louvor da Glória de Deus, incluindo a dança, as artes cênicas, a pintura, o desenho, a arquitetura, as artes circenses, as poesias escritas (não musicadas).

Só para experimentarmos um pouco desta liberdade de expressão, imagine, por exemplo, um momento de adoração em que tivéssemos a oportunidade de estarmos em silêncio, em oração, e nos fosse dado um lápis junto com um papel em branco, onde desenharíamos nele um símbolo de nosso amor e reconhecimento da soberania de Deus sobre nossas vidas e que este papel fosse levado até o altar da igreja.

Deus aceitaria esta expressão de louvor e adoração feita sem nenhuma música? Acredito que sim.

Como você acha que as pessoas podem influenciar a igreja ao seu redor?

Primeiramente, nós devemos procurar dentro de nós onde estão depositados os nossos talentos, ou seja, aquilo que fazemos melhor.

Devemos permanecer naquilo que fomos chamados. É muito comum nas igrejas a escolha de trabalhos que chamam mais a atenção. Isso acontece muito no ministério de louvor. Pessoas que não têm nenhuma facilidade para cantar ou tocar querem participar de qualquer forma daquele grupo que está ministrando todos os dias junto com o pastor e posicionado à frente da igreja. E às vezes isso nem é intencional, acredito ser em sua maioria, uma atitude inconsciente.

Isso acontece em outras áreas também. Já presenciei situações em que o responsável por receber um visitante na porta da igreja e dirigi-lo até o seu lugar ser uma pessoa extremamente seca nos relacionamentos, pouco delicada e até antipática demais para essa função. Na ocasião, comentei com o pastor sobre o problema e ele me disse que a pessoa era antiga na igreja e que se tirássemos o “cargo” das mãos dela, poderia resultar no afastamento dessa pessoa e de toda a sua família do convívio com a igreja.

Esta crítica funciona para mim também e para os músicos em geral. Muitas vezes poderíamos ajudar em outras funções, descobrir talentos guardados, mas nos acomodamos em chegar em nossa comunidade e tocarmos, ou seja, fazermos apenas o que é nossa “obrigação” e não olhamos para o que é preciso melhorar ao redor. Não usamos a criatividade e consequentemente não influenciamos a sociedade e a cultura ao nosso redor.

A igreja deveria funcionar como a engrenagem de um relógio, com cada peça colocada no seu lugar certo, com seu tamanho certo, girando na velocidade certa, sem que uma fosse mais importante do que a outra. Essa engrenagem teria um único objetivo, girar os ponteiros de um relógio sintonizado com a vontade de Deus, que fosse referência para uma cultura distorcida, desconectada e distante da imagem e semelhança do seu Criador.

Qual música sua você gostaria de dedicar aos nossos leitores?

Que todos nós possamos aprender a ouvir a voz de Deus, obedecer e jogar nossas redes sob a Palavra do Senhor, para não passarmos o tempo lançando nossas vidas na hora e lugar que julgamos ser corretos.

HOMENS NO MAR, (texto de João 21), título do CD e que você pode ouvir no podcast da W4 Editora (www.w4editora.com.br), promotora do Fórum de Cristianismo Criativo...

Sobe o clarão da lua por trás do horizonte coberto de estrelas

Descem os homens descalços que vão para os barcos na beira do mar

Águas do cotidiano encobrem a esperança, os sonhos e os medos

Mãos calejadas, marcadas por redes da vida no eterno pescar

Vem madrugada, sopra o vento, redes vazias, peixes não há

Faz alguns dias, esquecimento de uma promessa que o Mestre iria voltar

Um novo dia já vem clareando

O Mestre na praia está a chamar

Pede pra continuarem pescando

E novamente a rede lançar

Um novo dia já vem clareando

O Mestre na praia está a chamar

Pede pra continuarem pescando

E peixes irão encontrar

Puxam a rede cheia

Puxam a rede cheia e voltam pra areia

Puxam a rede cheia e voltam pra areia pra comemorar

Puxam a rede cheia e voltam pra areia, com o Mestre cear

Estou muito agradecido pelo convite para participar da entrevista e feliz por encontrar pessoas como vocês que têm se preocupado com questões tão profundas de relacionamentos que envolvem nossas vidas, nossa cultura e nossa fé num Deus criador e criativo.

veja também