Isabêh: "Ainda estamos em via de criar uma identidade"

Isabêh: "Ainda estamos em via de criar uma identidade"

Atualizado: Sexta-feira, 22 Janeiro de 2010 as 12

Por Felipe Pinheiro - www.guiame.com.br

Detentor de um estilo próprio, caracterizado como "soul brasileiro", o paulistano Izabêh tem defendido a formulação de uma identidade para a black music nacional, a fim de que a vertente ganhe força e, assim como o louvor e adoração, rompa barreiras denominacionais.

"O Diante do Trono já pegou uma formação teológica afirmada. A Ana Paula Valadão fez curso lá fora. Nós não. Tivemos que nos virar entre nós", disse o compositor que, entre outras experiências, traz em sua bagagem profissional a participação na banda Placa Luminosa, sucesso na década de 80.

Em entrevista ao Guia-me, o cantor que chegou a gravar a música Bebete Vãbora com Jorge Ben Jor, fala sobre o período em que se afastou da igreja, da experiência de cantar na night e da black music nacional.

"Quando cantava na noite, eu cantava no estilo corpo e alma. Agora eu canto espiritualmente. É diferente", assegurou.

Guia-me: Qual foi o motivo que o levou a se afastar durante 20 anos da fé cristã, mesmo tendo uma formação evangélica?

Isabêh: Eu me afastei porque quando você fica muito religioso, quando o ambiente fica muito religioso, as vezes as pessoas não sabem o que está acontecendo com o seu coração. Eu fui seduzido a cantar na noite. Eu não queria sair da Igreja, mas naquela época a igreja aceitar isso era complicado. Eu então deixei pra lá e me afastei de vez.

Eu comecei a voltar por uma reunião que eu fiz na minha casa em 1998 de Black Music na qual eu convidei uma série de cantores do Black, como Sérgio Saas, Templo Soul, Vanessa Jackson, Paula Lima.  Eu fiz esse projeto para que pudesse ser veiculado pelo Ministério da Cultura. Ele foi aprovado e se tornou uma espécie de "soul Brasil".

Deus me tratou na presença dessas pessoas. Foi ali que eu comecei a ver o que estava acontecendo. Aí eu fui para a Igreja Pedra Viva.

Teve um episódio que aconteceu no Copan, que eu fui participar. (...) Daquele dia em diante eu senti que a presença de Deus estava na minha vida. Aí comecei a voltar para os caminhos do Senhor.

Guia-me: Você teve contato com grandes nomes da música nacional, como por exemplo com o Jorge  Benjor. Como foi esse contato com ele?

Isabêh: Nós gravamos uma música juntos que até não foi veiculada. Nós participamos na época do Placa Luminosa, na década de 90. Eu fiz uma amizade muito grande com ele.

O Jorge Ben Jor me conhece e uma coisa muito interessante que ele falou pra mim. Depois que eu fiz uma versão da música Babete Vãbora, ele começou a cantar do jeito que eu cantei.

Guia-me: Provavelmente ele sabe que você se converteu...

Isabêh: Muita gente sabe que eu sou crente, que estou nos caminhos do Senhor. Então por isso muita gente do secular ficou – Ah, evangélico!  As vezes tem aquele medo do cara tentar converter ele (risos).

Guia-me: Você define o seu estilo como soul brasileiro. Como é isso?

Isabêh: Tem um release na internet de um perfil da gravadora Lua Discos. Na época o perfil foi feito assim, porque quando eu estava no secular eu tentei fazer uma mistura [de elementos como funk, r&b e música pop com influências nordestinas com louvores evangélicos]. Teve um movimento de soul music brasileiro, do Carlos Dafé, Ton Beto, banda Black Rio. Essa linguagem brasileira. Eu sempre fui ligado nessa linguagem.

A minha voz tem muita influência do nordeste, por incrível que pareça, por eu ter morado em Fortaleza, tocado acordeom com oito anos de idade. Eu tenho aquela coisa da escala nordestina [interpreta]. Eu fundi muito com essa onda.

Na época, quando tentei me afirmar no secular como cantor, eu tentei me afirmar com esse estilo "Izabeh nordeste". Só que hoje eu sou no gospel.

Agora eu estou terminando o meu trabalho e pretendo lançar neste ano, mas pretendo lançar um segundo com uma batida de samba rock. Acho que é interessante incluir isso na igreja.

Guia-me: O estilo soul vem dos EUA e mesmo modificando o original você manteve o rótulo de soul. Por que?

Isabêh: Soul na verdade é um gênero de música dos EUA que imitava a igreja negra. Eu falo soul, mas estou me referindo a música negra, de um modo geral. Se eu for ao pé da letra não cabe, porque soul imita uma música da igreja.

Nós estamos criando a identidade da música black gospel. Ainda não criamos essa identidade. Você pega uma música pentecostal do fogo. Isso é muito brasileiro. Esse é o gospel brasileiro de verdade. Ainda estamos em via de criar uma identidade.

Guia-me: Pensando no crescimento do estilo louvor e adoração e mesmo no pentecostal, você acredita que a música black gospel ainda se encontra marginalizada?

Isabêh: Na verdade, nós ainda estamos aprendendo. Quando foi inaugurada a música black gospel, ela foi difusa, não houve uma orientação espiritual. Foi feita de forma interdenominacional. Não houve uma teologia. Nós éramos meninos e queríamos fazer uma música. O louvor e adoração já teve uma formação lá de fora. Hillsong, por exemplo, tem uma intenção teológica muito forte.Você pegou lá de fora e reproduziu aqui. O Diante do Trono já pegou uma formação teológica afirmada. A Ana Paula Valadão fez curso lá fora.

Nós não. Tivemos que nos virar entre nós. Não tínhamos intercâmbio. Agora que está acontecendo uma intenção de permuta, mas ainda está muito engatinhando.

Toda música gospel tem que ter uma identidade teológica. Louvor do fogo eu sei que é Assembleia de Deus.

Guia-me: E no caso da Igreja Pedra Viva. Ela não seria a igreja da música black assim como a AD é a igreja da música pentecostal?

Isabêh: O Pedra Viva foi um espaço aberto para todos que quisessem manifestar essa vontade de cantar black gospel e não tinha permissão em outras igrejas. Tanto que o Álvaro Tito disse: Você não teve ideia do quanto eu sofri, porque na época eu era da AD e quando tentava fazer esses melismos. Sofria muito porque era muito complicado.

O Pedra Viva foi um espaço e a Igreja é um paradoxo porque ela não foi uma igreja de black, embora tenha aberto espaço. A visão da igreja era outra. Foi muito interessante. Você vai no Pedra Viva e um adventista black vai cantar lá, um cara da AD que tem uma banda de black gospel vai tocar na Pedra Viva. Era um espaço, mas não teve essa fundamentação teológica. Não houve uma espiritualidade de: do que é o nosso som?

É interessante falar sobre isso porque vai ser preciso nos juntarmos para criar uma identidade. Nós somos cantores de black gospel e seguimos uma linha.

Guia-me: O louvor e adoração consegue romper as barreiras denominacionais, diferente do black que acaba ficando muito restritio.

Isabêh: É por causa da negritude, que é algo que estranha.  A Bíblia fala: Louvai com hinos, salmos e cânticos espirituais. Os cânticos espirituais não tinham letra. Há alguns amados que fazem melisma mas sem estar sentindo nada, fica meio "afetação". Mas aqueles que estão sentindo não podem pagar o preço daqueles que não estão. O importante é entender essa linguagem do Espírito Santo.

Eu acredito que nos próximos anos vamos amadurecer. Já cresceu muito, mas principalmente no eixo Rio-SP. Tem gente de Manaus, Pernambuco, interessado em aprender, fazer curso. Que Deus possa nos dar sabedoria para que possamos criar uma sintonia e uma sociedade dos cantores de black gospel. Para que possamos discipular outros que estão lá fora com esse som.

Guia-me: Você se sente mais a vontade de cantar na igreja ou numa casa secular?

Isabêh: Hoje eu me sinto um cantor pleno. O apóstolo Paulo fala de tricotomia - corpo, alma e espírito. Eu creio nisso, porque quando cantava na noite, eu cantava no estilo corpo e alma, agora eu canto espiritualmente. É diferente. É um outro ímpeto.  Eu me sentia a vontade de cantar na noite, mas agora eu tenho liberdade. A diferença é estar cantando no espírito.

O interessante é que eu cantava numa casa noturna que só ia crente. Eu chamava os crentes para dar canja nas músicas seculares. Eu então descobria que eles também eram da igreja. É a invasão dos crentes, o que está acontecendo? Era o maior barato. O Paulo César Baruk, que é muito meu amigo e me abençoou muito, ia lá. Quando eles abriam a boca o pessoal via a diferença. Eles choravam. Esse choro é o negócio. Quando a pessoa começa a chorar é espiritual. A Witney Houston quando cantava criava um choro nas pessoas. Era uma voz espiritual.

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