Leonardo Gonçalves: "Eu nunca achei que eu fosse vingar como cantor"

Leonardo Gonçalves: "Eu nunca achei que eu fosse vingar como cantor"

Atualizado: Terça-feira, 31 Maio de 2011 as 8:32

Dono de uma bela voz, e um dos principais divulgadores da cultura judaica cristã no Brasil, Leonardo Gonçalves é referência quando o assunto é música gospel de qualidade, o cantor tem três albuns lançados: "Poemas e Canções", "Viver e Cantar", e o trabalho mais recente, o CD "Avinu Malkenu", sendo este último, totalmente em hebraico.

No Brasil, temos várias congregações que usam o Shabat, as festas e o calendário bíblico. O Shabat também foi tema no primeiro CD do Pastor Antônio Cirilo lançado pela Som Livre, o albúm "Descanso", e é sobre música gospel, carreira e cultura judaica, que Leonardo Gonçalves, nosso entrevistado desta semana, irá falar.

Confira abaixo nossa entrevista exclusiva.

Supergospel - O que você acha da explosão de Congregações e Sinagogas Cristãs, que não são Igrejas Adventistas, mas que tem se despertado para o Shabat, festas bíblicas e também para o calendário bíblico, fazendo uso de todas essas citações?

Eu acho que todo e qualquer interesse em se compreender verdadeiramente a mentalidade judaica auxilia fundamentalmente a compreensão da Bíblia, inclusive do “Novo Testamento”. Da maneira em que a gente crê na inspiração divina, D-s não dita as palavras… é o próprio ser humano que escreve, sempre dentro de um contexto cultural, porque nós seres humanos somos seres culturais.

Logo, quanto melhor compreendermos a cultura judaica em que a Bíblia foi escrita (apenas Lucas, de todos os escritores da Bíblia, não era Judeu), melhor compreenderemos a Bíblia. E creio, evidentemente, que o Shabbat é uma grande bênção, um grande presente de D-s não apenas para os Judeus, mas para toda a humanidade.

Agora existe, infelizmente, um número cada vez maior de cristãos que se utilizam de jargões, símbolos e hábitos judaicos como uma estratégia de “alcançar” e “converter” os judeus. Este tipo de postura está na contramão daquilo que estou propondo com o cd “Avinu Malkenu”. Ainda quero escrever um texto no meu blog a respeito das diferenças entre “evangelismo” e “diálogo”, mas já posso adiantar que evangelismo da maneira que usualmente o praticamos, inevitavelmente nos coloca num nível superior daqueles que estamos tentando evangelizar. Nós temos algo que eles não têm. Algo superior, a que eles só poderão ter acesso através de nós. Algo que eles só poderão obter se abdicarem de tudo o que já possuem. Esta postura vem sendo muito questionada e, especialmente quando aplicada ao Judaísmo é extremamente ofensiva e inapropriada.

Supergospel - O que você achou da repercussão “Avinu Malkenu”. Ficou dentro das suas expectativas?

É engraçado, mas ao mesmo tempo em que minhas expectativas eram as menores possíveis, elas continuam sendo as maiores possíveis, rs… Deixem-me explicar melhor. Nunca tive a pretensão de vender centenas de milhares de cópias deste cd e o fato de estarmos já terminando a quarta tiragem em 8 meses aliado ao interesse que venho sentido por tantas pessoas pela cultura judaica e pelo hebraico, eu considero uma vitória!

Agora ainda sonho com uma distribuição internacional... Como este disco não contêm uma palavra em Português, apenas precisamos traduzir o encarte para lançarmos ele em qualquer país do mundo em que há Judeus ou cristãos interessados em suas origens. Mas, claro, pra isto é necessário criar um contexto em que um lançamento como este seja possível e viável.

Supergospel - Conte-nos um pouco sobre o seu próximo projeto pela Sony Music? Como será o álbum?

10 faixas, uma faixa bônus. 10 faixas em Português e uma em Inglês. Todos a respeito de um tema... Estou gravando bastante coisa fora do país, via skype... Só na gravação de cordas em praga que eu estive fisicamente presente... Algumas das faixas (nem todas) também serão mixadas pelo mesmo engenheiro de Nova Iorque que mixou o “Avinu Malkenu”... estou tentando com todas as minhas forças superar tudo o que já fiz até agora, mas não sei ainda se vou conseguir, rs...

Diferentemente dos meus últimos trabalhos estou tentando montar um time um pouco mais coeso pra fazer o cd todo… só tem 4-5 compositores contrastando com os 14 autores do “viver e cantar”... enfim... muita novidade vindo por aí, mas ainda não quero entrar MUITO em coisas específias… Mas estou realizando alguns sonhos de produção neste álbum... e, como sempre, estou trabalhando neste disco como se fosse a última coisa que eu fosse fazer na vida, rs.!!!

Supergospel - Existe algum projeto dentro do seu coração a curto ou longo prazo para a gravação de um DVD? Como você deseja neste momento que este DVD seja?

Estamos ainda fechando a negociação com a Sony pra fazermos um dvd agora, deste cd novo em Português ainda pra este ano, mesmo... acho que esta semana a gente fecha isso e já começamos a divulgar...

Espero que dê tudo certo! Particularmente morro de medo de fazer 1 dvd, mas sei que D-s vai me dar a força necessária, rs...!

Supergospel - Quando nós gostamos de uma coisa, inevitavelmente, sentimos o desejo de dividir este algo com as pessoas. Você acha que através de uma grande gravadora, mesmo sem pretensões comerciais, você estará influenciando a sociedade brasileira a estudar mais sobre a cultura judaica cristã?

Olha... se eu ajudar a diminuir o preconceito que ainda existe entre nossas próprias fileiras cristãs em relação a este povo tão memorável e abençoado eu já vou ter conseguido fazer muito mais do que jamais me propus a fazer! A verdade é a seguinte... fiz tudo da melhor maneira possível! Cabe a D-s usar este trabalho da maneira que Ele bem entender. Seja para um “pequena” ou para um “grande” obra... Seja apenas no Brasil ou no mundo inteiro. Seja dentro do próprio Cristianismo ou num possível diálogo entre Judeus e Cristãos.

Está nas mãos de D-s. E Ele conhece o meu coração e minhas intenções, como também minhas limitações.

Supergospel - Como você define o atual quadro da música gospel brasileira, você acha que estamos evoluindo musicalmente ou comercialmente?

Mesmo sabendo que este dia nunca vai chegar, sonho com o dia em que uma expressão artística profunda do relacionamento entre D-s e uma pessoa ou um grupo de pessoas seja um “sucesso de vendas” e se torne comercialmente mais do que apenas viável. A verdade é que em grande parte o que o público quer é apenas se sentir bem e não ser incomodado. Arte sempre incomoda um pouco, porque nos faz refletir a respeito de nós mesmos e da nossa condição. E nossa condição não é muito legal... estamos separados de D-s e muitas vezes queremos apenas suas bênçãos. A gente quer que a música gospel melhore, mas quem tem que melhorar somos nós, como cristãos, como comunidade, mesmo...

Supergospel - Falando de personalidades cristãs seja em música ou pregação, você pode nos citar aquilo que você gosta e indica aos nossos leitores?

Minhas referências são muito mais internacionais do que nacionais. A internet é uma coisa maravilhosa, neste sentido. A gente tem acesso a um universo infinito de coisas boas! Admiro demais o Pr. Alexandro Bullón e, claro, o meu pastor Edson Nunes Jr.... Gosto muito dos livros e das idéias de Rob Bell. C.S. Lewis também tem livros teológicos muito interessantes. N.T. Wright... é muita coisa!

Na música... Atualmente eu gosto muito de uma banda chamada Future of Forestry... é quem eu mais estou escutando, atualmente.

Supergospel - A canção "Getsêmani" teve uma repercussão enorme, e com certeza, foi de partida para uma nova fase em seu Ministério. Você imaginava que a canção tivesse tanta repercussão?

Eu sou meio estranho, rs... Por natureza sou pessimista, algo meio que incomum no meio evangélico, eu sei... Eu nunca achei que eu fosse “vingar” como cantor/músico... Nunca imaginei que eu poderia chegar ao quarto cd! Eu sabia que a música “getsêmani” era a música mais forte de “Poemas e Canções”... mas nunca imaginei que ela fosse abençoar tantas pessoas diferentes de realidades e denominações tão diferentes!

Supergospel - Você acha que apesar das diferenças de costumes de Congregação para Congregação, é possível o povo de Deus viver em unidade?

Li uma frase muito legal estes dias de um teólogo australiano: “No essencial: unidade. No não-essencial: liberdade. Em tudo: caridade.” Eu sou contra apagar as diferenças pra viver em harmonia. Aí fica muito fácil! Eu creio que a gente deve buscar aprender a tolerar, respeitar, valorizar e até admirar as diferenças… aí, sim, seria bonito viver em harmonia e unidade.

Supergospel - O que você expor para a sociedade, aquilo que você quer que as pessoas tomem consciência através do seu trabalho, através da maior gravadora do mundo, que é a Sony Music?

Que D-s existe. Que Ele é real. Que Ele é profundo e, embora eterno, sempre novo. Que ele quer se comunicar de maneira significativa conosco. Que Ele é belo e ama tudo o que tem vida. Que Ele é UM eúnico.

Supergospel - Defina em uma palavra o momento atual que você vive em sua vida:

Mudança.

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