Maurício Soares analisa as repetitivas produções de clipes gospel

Maurício Soares analisa as produções de clipes gospel

Atualizado: Quarta-feira, 11 Abril de 2012 as 12:46

Dentro da evolução e popularização no mercado fonográfico os recursos áudio visuais têm um papel de enorme relevância. A partir década de 80, em especial, o vídeo clipe passou a ser uma das ferramentas mais importantes no processo de divulgação dos artistas e seus respectivos trabalhos. Foi exatamente em cima deste fenômeno que surgiu nos EUA uma emissora de TV exclusiva para divulgação destes vídeos, o canal Music Television, mais comumente conhecida como MTV. Esse canal chegou para revolucionar a indústria fonográfica mudando hábitos, culturas, linguagem e criando para e em torno de si, um conceito de que para um artista ser reconhecido no mercado obrigatoriamente este deveria ter seu vídeo sendo veiculado naquela emissora.

Os vídeo clipes assumiram uma força tão grande no mix de divulgação dos artistas que inclusive chegaram a constar de cláusulas de contratos junto às gravadoras estabelecendo quantidades de filmes e orçamentos de produção. Na corrida insana das gravadoras nos tempos das vacas gordas, ou melhor, gordíssimas! chegou-se a investir milhões de dólares na simples produção de um único filme. Diretores eram disputados como garantia de sucesso, roteiros os mais tresloucados pululavam no meio, estruturas de produção de cinema eram montadas para meros 4 a 5 minutos de produção, ou seja, literalmente viveu-se o apogeu das produções e dos orçamentos para as mesmas.

Neste mesmo período, temos clássicos vídeos em que a história, a coreografia, os figurinos, o uso dos últimos recursos tecnológicos foram muito mais importantes e destacados que a própria música. Neste período, a música, o conteúdo, assumiu papel secundário perdendo espaço para a forma, numa clara alteração de papéis e valores.

Pois bem, eis que veio a crise no mercado fonográfico e a grana literalmente escasseou-se ao extremo! Os cortes de investimento em marketing, nas campanhas de divulgação, nas verbas de rádio, na promoção dos artistas e produtos foram drásticos! E os vídeo clipes seguiram a mesma toada da análise de despesas e simplesmente passaram a ser tratados de forma bem mais sensata. Aqui vale ressaltar que o período de crise do mercado fonográfico já ficou para trás. Em vários países, em 2011, registrou-se crescimento das vendas no mercado fonográfico, seja no formato físico como digital. O Brasil foi o país que registrou maior crescimento em faturamento e lidera o mercado fonográfico na

América Latina. Outro registro interessante é que pela primeira vez desde que passou a ser aferido, no Brasil uma gravadora alcançou 35% de Market Share e essa façanha coube à Sony Music, reforçando mais uma vez sua posição no país.

Mas voltando à questão do vídeo clipe, é interessante observar que se analisarmos, especialmente no Brasil, as produções nacionais dos últimos 5 anos, percebemos uma clara mudança na estratégia das gravadoras. Há muito tempo não temos clipes nacionais com megaestruturas e principalmente megainvestimentos. Isto deve-se primeiramente ao enxugamento de investimentos e também na própria utilização do vídeo clipe como recurso de divulgação. Com a ampliação de novos canais de relacionamento com o consumidor, principalmente através das redes sociais, e do ambiente web, as gravadoras atentaram novamente para a importância dos recursos áudio visuais na divulgação de seus projetos.

E muito mais do que isso, hoje grande parte das gravadoras já consegue rentabilizar o que antes era apenas despesas e investimentos. Nas plataformas YouTube e Vevo, atualmente duas das principais ferramentas de popularização de vídeos, as principais gravadoras já passam a receber recursos financeiros pela quantidade de visualizações. Basta que o internauta assista por 30 segundos o vídeo para que automaticamente a gravadora receba sua parte. Grande parte das marcas pelo mundo já investem bons nacos de suas verbas de marketing em ações digitais. Hoje ao assistir um vídeo na web, dificilmente não nos deparamos com alguma publicidade, patrocínio ou coisas do tipo. Com isso, o vídeo clipe que antes era despesa passou a ser considerado mais um canal de rentabilização.

Com os mais de 25 milhões de views, imaginem o quanto ganharia os autores de Galhos Secos com o hit viral #paranossaalegria?
Recentemente estive em Brasília num bate papo super interessante com vários jovens artistas. Entre tantas conversas e dicas, fiz questão de dizer que hoje vivemos a época do visual! Em minha opinião, os vídeos – não necessariamente clipes – terão papel fundamental no processo de popularização de artistas e suas obras. E quando falo em vídeos, estou dizendo de simples apresentações acústicas a tutoriais onde o artista ensina ou comenta sobre sua produção musical. E neste aspecto, o Facebook como principal mídia social tem papel importantíssimo! Hoje este canal deve servir como a principal ferramenta de divulgação do artista, principalmente usando os recursos áudio visuais. Todo vídeo que o artista tiver em mãos para popularizar sua obra, deve ser postado no Facebook. Vídeos tutoriais são muito bem vindos! Usem e abusem do Facebook como um canal de propagação de vídeos. Fiquem ligados nesta dica!
 
Confesso que comecei a escrever esse texto com uma diretriz e aos poucos fui seguindo por uma outra linha de pensamento. Queria escrever algo como uma análise dos clipes que temos observado no meio gospel ultimamente. Como acho que ainda tenho alguns minutos de vôo entre o Rio de Janeiro e Salvador, me alongarei neste assunto já pedindo perdão aos 44 leitores por estender-me além da conta neste post, mas é que este assunto tem tantas vertentes interessantes que vou me alongar um pouco mais.

Recebo vídeos praticamente todos os dias através do twitter ou do Facebook. O convite para conferir essas produções sempre vem acompanhando de um “Se der assista” ou “Por favor, nos diga o que achou” e coisas do tipo.

Dificilmente consigo interromper meus afazeres para dedicar mesmo que poucos minutos para essas análises, mas de vez em quando reservo um tempo e saio clicando em todos os links sugeridos.

Hoje temos os seguintes estilos de clipes no meio gospel abaixo da linha do Ecuador.

1)   Novelinhas de pessoas chafurdando no pecado que são alcançadas por um crente – entre os pecadores temos assaltantes, doidões, traficantes, drogados, adúlteros. Geralmente as novelas são em preto e branco em contraponto com o artista crentão nas imagens a cores;

2)   Artistas com ”cara de paisagem” caminhando e cantando (tipo Geraldo Vandré) por entre florestas, jardins, cachoeiras, praias. A imagem da calça enrolada até a altura dos joelhos caminhando na beira mar já foi usada pelo menos umas 876.548 vezes;

3)   Banda de rock com atitude, tipo óculos escuros, calças meticulosamente rasgadas, cara de mau fazendo um som irado em meio a um galpão abandonado, fábrica desativada ou algo tipo;

4)   Entre as novelinhas também tem aquela em que o ator começa na maior bagaceira, tudo dando errado para ele até entrar numa igreja ou encontrar uma Bíblia e a partir dali o cara vai melhorando de vida chegando próximo ao perfil do Eike Batista. Eita milagre! Dá um glória aí mermão!

Sugiro aos 44 leitores para que façam esta pesquisa. Assistam a 50 clipes lançados no meio gospel no Brasil e confiram se esta lista está razoavelmente correta ou se ainda carece de alguma inserção de tema recorrente. Creio que se houver, serão apenas mais um ou dois estilos não incluídos, mas basicamente o que rola no meio é isso mesmo aí. E neste caso até tento dar uma leve justificativa pelo fato, afinal, sem medo de errar, cerca de 70% dos temas das canções no meio gospel do país giram em torno de um mesmo conceito.

Mas até mesmo em se tratando da repetição de temas musicais, ainda temos muitas possibilidades de representar em vídeo alguma ideia realmente criativa. Recentemente vi clipes simples com excelente resultado final. Um vídeo acústico recém lançado pela jovem cantora Marcela Taís ou o vídeo do Bruno Branco, produzidos sem tantos recursos mas com apuro estético são produções que merecem atenção especial.  Nos próximos dias teremos a felicidade de apresentar o clipe da canção “Novo” do Leonardo Gonçalves gravado em Londres e na República Tcheca pelas lentes do diretor Hugo Pessoa. E ainda, o clipe “Milímetro” com Daniela Araújo, com direção de Lucas Motta gravado na Suíça e Alemanha. Dois filmes extraordinários!

Infelizmente em nosso meio ainda temos muitas produções dignas do trash movie, do filme B. E posso afirmar categoricamente que muitas destas produções não chegaram ao resultado ruim pela falta de recursos, mas principalmente pela falta de um profissional de qualidade, pela interferência de “executivos” das gravadoras, pela “co-direção e co-roteiro” da própria artista ou mesmo pelo simples erro na escolha da canção. Nem sempre a melhor música a ser trabalhada em rádios é a qual onde se consegue o melhor resultado visual.

Pronto! Já vem a comissária de bordo pedindo para desligarmos todos os equipamentos eletrônicos, retornando a poltrona à posição inicial e travando as mesinhas à frente. Ou seja, chegamos ao fim de mais um texto! De qualquer forma, creio que o recado já tenha sido devidamente passado. Nada de vídeo clipe com qualquer profissional! Nada daquelas novelinhas piegas (vale a pena reler a lista de modelos de clipes)! Apuro estético e criatividade sempre!

Cuidado na escolha da música! Utilizem o Facebook como ferramenta de divulgação postando vídeos interessantes. Não errando no básico, sempre fica mais fácil acertar no fim!
 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, ex-radialista, durante anos à frente do A Noite é Nossa e Gospel Line, dois programas de TV na Rede Record, com alguns clipes no currículo – inclusive com novelinhas trash, cachoeiras e praias – mas buscando a excelência sempre!

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