Maurício Soares comenta as contratações e mudanças de gravadoras

Contratações, mudança de gravadora e comentário maldosos

Atualizado: Quarta-feira, 6 Junho de 2012 as 10:06

Observando as manchetes mais recentes dos sites no mundinho gospel fica claro que estamos vivendo uma fase de muitas mudanças em relação ao cast das gravadoras. E isso posso afirmar categoricamente que é algo absolutamente saudável e mais do que isso, deveria ser bem mais natural e frequente. Como já comentei em algum outro texto publicado por aqui, sou completamente avesso ao chavão ultra super piegas de “família + nome de gravadora”, simplesmente porque em relações familiares não há necessidade de contratos comerciais. Já numa relação entre artista e gravadora, é correto que haja um contrato e que este estabeleça direitos e deveres de cada parte.

Estamos neste momento vivendo o início do campeonato brasileiro de futebol e diariamente vemos jogadores se transferindo deste para aquele clube. Há jogadores que ao longo de 15 anos de carreira chegaram a vestir (e a beijar os escudos jurando fidelidade eterna) 8, 10, 12 camisas. Neste momento também temos o término dos campeonatos europeus e a banca de negócios e transferências vive um momento efervescente. E no mundo artístico essa mesma dinâmica se mantém, ou seja, um artista que até ontem gravava por uma determinada gravadora, no momento seguinte já assina com outra empresa e vida que segue.

O que me assusta é ver alguns comentários (cada vez tenho dedicado menos meu tempo a ler comentários de terceiros e isso tem me feito um bem tremendo!) como se o artista não tivesse liberdade de trocar de gravadora. Também nunca se leva em questão se aquela determinada gravadora também não ficou satisfeita com os resultados do artista ou mesmo no lidar com ele ao longo do tempo do contrato. Quando determinado artista gospel divulga que estará deixando a gravadora Y para assinar com a empresa X, alguns “experts” já começam logo a denegrir o artista, a gravadora ou ainda pior, aos dois simultaneamente!

Os contratos artísticos estabelecem tempo de duração e número de obras. A relação entre o artista e a gravadora tem o tempo certo de começar e acabar. A renovação (salvo em alguns contratos estranhos) nunca é automática devendo ambas as partes avaliar se o resultado do período anterior foi satisfatório. Neste momento, a análise por parte do artista deve ser prioritariamente a liberdade de trabalho, a questão financeira, a divulgação de sua marca/obra, o nível de respeito e a qualidade da relação com a gravadora e sua equipe. Por parte da gravadora, a análise prioritariamente deve ser pautada no retorno financeiro do investimento, no retorno de exposição e fortalecimento da marca, no atendimento às estratégias da empresa e também na relação com o próprio artista.

Todos estes itens devem ser avaliados cuidadosamente e dependendo do resultado, o artista e a gravadora devem optar em seguir o processo ou simplesmente interrompê-lo de forma civilizada. Simples assim! O que infelizmente constato em nosso meio é que um contrato de 3 anos acaba virando uma “algema” de 9 anos onde o artista fica inteiramente à mercê do bel prazer da gravadora em querer ou não lançar as obras em tempo determinado por contrato. Além disso, um rompimento, ou melhor, uma não renovação de contrato é determinante para que o artista (antes amado, da “família” e bla bla bla) passe a ser execrado por sua antiga empregadora, onde muitas das vezes sua obra é simplesmente banida como naquelas fotos históricas da URSS onde os desafetos de Stalin simplesmente eram apagados dos registros.

Mas o nível de retaliações não se resume ao desaparecimento do artista da história da empresa. Como muitas rádios de nosso meio são ligadas diretamente às gravadoras, o artista que tem a petulância de dizer: muito obrigado mas vou seguir por outro caminho! Este acaba desaparecendo também da playlist das FMs, dos programas e eventos daquele determinado grupo. Então, realmente o artista precisa ter muita coragem para tomar esse tipo de decisão, né?

Assim como no futebol, um determinado jogador encaixa bem numa equipe e já em outra, às vezes até mais estruturada e com maior torcida, o futebol do atleta não surte tanto efeito, na área artística também acontece esse mesmo fenômeno. Um artista que teve um CD de sucesso numa determinada gravadora não necessariamente pode conseguir manter o resultado elevado numa nova gravadora. Estamos falando de arte, de algo completamente irracional, então não dá para seguir uma cartilha, um livro de receitas e garantir que o resultado final será exatamente o esperado.

Já tive casos em que um determinado artista lançou 1, 2 .. 4 CDs e apenas no quinto trabalho realmente alcançou o sucesso. Em contrapartida, já tive casos em que um artista saiu do zero, sem qualquer histórico e já no primeiro CD detonou em vendas. Depois desse sucesso meteórico, ainda teve mais uns 2 ou 3 anos de sucesso até sumir no mais completo ostracismo. Ou seja, não há regras para o sucesso e a permanência de determinado artista num cast de gravadora.

O que quero dizer claramente aos 45 e ½ leitores do Observatório (Sim! Descobri que entre os leitores há até um anão, ou melhor, um ser desprovido de altura pra ficar mais politicamente correto ) é que o troca troca entre gravadoras, mesmo no meio gospel, é algo extremamente saudável. E que também nenhum artista é obrigado a manter uma relação de anos e anos com uma determinada gravadora. A mudança de um artista de gravadora não significa que ele é traidor, mercenário ou que está em pecado. Nem tampouco que a gravadora é incompetente, amadora, incapaz ou algo do tipo. Em meus 23 anos de trabalho nesse mundinho já trabalhei com boa parte dos artistas desse mercado. Fico feliz de manter amizade com boa parte deles. Com alguns tive oportunidade de trabalhar em mais de uma gravadora por onde atuei. Ou seja, a relação de amizade entre pessoas é uma questão. Já a relação profissional, comercial já é outro aspecto, independente.

Mais uma vez quero deixar minha satisfação ao ver artistas do meio gospel saindo de gravadoras e começando um novo trabalho numa nova empresa. Fico feliz em perceber que boa parte das gravadoras de nosso meio segue investindo em novas contratações, novos artistas. Isso é reflexo claro e inequívoco de que estamos atuando num mercado emergente e em franca ebulição.

Para sermos ainda mais corretos, talvez ainda falte apenas uma mudança de mentalidade dos donos e executivos de gravadoras em aceitar a decisão soberana do artista em não mais querer seguir no mesmo barco. Que estes profissionais entendam que o artista pode querer respirar novos ares, sem que com isso sejam obrigados a sofrer a mão pesada de quem tem o poder, a caneta, o cheque, os contatos e mídias nas mãos. Um artista que deixa uma gravadora sempre deixa uma obra por onde passa e não há lógica em simplesmente colocar essa obra num canto escuro do estoque ou, pior ainda, denegrir a imagem do artista perante o mercado. Assim a gravadora acaba perdendo literalmente todo o investimento feito na carreira e obra do artista e isso é sinônimo claro de falta de inteligência.

Por fim, posso garantir que no futuro cada vez menos teremos players atuando nesse mercado. Então, se você é artista analise muito criteriosamente as opções reais antes de decidir-se por uma nova empresa. Mas também jamais tenha medo de não conseguir sobreviver fora das amarras e da estrutura de sua empresa caso não esteja sentindo-se feliz. Se você está infeliz, a pior opção é permanecer no mesmo lugar pelo simples fato do medo do exterior. Confie em sua capacidade e talento!
 
Por Mauricio Soares - publicitário, jornalista, jogador de fim de semana, observador do mercado gospel, consultor de marketing.

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