Maurício Soares comenta a presença da de músicas gospel nas rádios FM

O que é sucesso nas FMs gospel do Brasil?

Atualizado: Terça-feira, 15 Maio de 2012 as 1:31

Em minha cruzada mesopotâmica pela profissionalização do mercado gospel no Brasil, uma das minhas constantes reclamações tem a ver com a carência, na verdade, inexistência de dados, informações, pesquisas. Todo profissional de marketing, por natureza, deve estar focado em informações técnicas de mercado para a elaboração de estratégias e ações. E informação em nosso mercado é algo realmente bastante escasso. Posso afirmar categoricamente que grande parte dos profissionais ou postulantes, no mercado gospel trabalham e tomam suas decisões baseados na intuição, na experiência própria, na repetição de modelos (isso é impressionantemente comum em nosso meio! Uma pessoa faz um projeto e depois todo mundo corre atrás copiando) e às vezes no puro e simples ”chutômetro”.

Especialmente no segmento fonográfico gospel as informações são também bastante raras. Duvido que alguém possa me dizer quantas rádios com programação evangélica temos no Brasil. Ou ainda, que alguém possa me afirmar quanto esse mercado movimenta ou quantos produtos são lançados anualmente. Muito desta escassez de informações se dá porque simplesmente as gravadoras do segmento não se juntaram em uma associação de classe ou algo semelhante. A idéia que ainda impera no segmento fonográfico gospel  tupiniquim é do “cada um por si e Deus por todos”, literalmente. Infelizmente nesse mercado ainda se perpetua o conceito de inimizade, de antagonismo, quando na verdade, deveria tão somente ser de concorrência. Em outros textos abordei sobre essa mentalidade reinante e numa próxima oportunidade posso voltar a esse assunto.
 
Mas o que estaremos comentando a partir de agora após essa introdução é a chegada no segmento dos serviços da Crowley. Para quem não está ambientando sobre o assunto, a Crowley é uma empresa multinacional que entre outras atividades, desenvolve um trabalho de aferição para gravadoras junto a emissoras de rádio em algumas das principais cidades do país. Em rápidas palavras, a Crowley emite um relatório diário da quantidade de execuções de músicas nas principais cidades e respectivamente, FMs pelo país. Já há algumas semanas, a Crowley iniciou esse tipo de serviço para aferir a programação das emissoras de rádio evangélicas.
 
No ano passado fui procurado pelo gestor da Crowley que atende as gravadoras seculares para ajudar com minha experiência no desenvolvimento deste projeto. Elenquei as principais emissoras, gravadoras, analisei os dados preliminares e juntos definimos algumas ações e estratégias. De alguma forma, fico satisfeito de ver o resultado destas conversas e muitas trocas de e-mails nos últimos meses. Nestas últimas semanas tenho me debruçado bastante nestas pesquisas da Crowley que vem aferindo as rádios de programação gospel das cidades do Rio de Janeiro/RJ, São Paulo/SP, Recife/PE, Belo Horizonte/MG, Goiânia/GO, Brasília/DF, Porto Alegre/RS, Florianópolis/SC, Camboriu/SC, Salvador/BA, Fortaleza/CE e Araras/SP.
 
As primeiras impressões que tenho com estes relatórios não são em geral alvissareiras. Na verdade, estas primeiras conclusões apenas estão corroborando para a certeza de que ainda estamos anos-luz de uma cultura coerente e de acordo com as tendências mais avançadas e profissionais. Em bom e audível português, o que temos – agora registrados oficialmente – é uma completamente ausência de critérios técnicos na elaboração do que se deve ou não tocar na programação das rádios evangélicas em boa parte do país.
 
NÃO TEMOS UM ÚNICO SUCESSO NACIONAL! – esta é a primeira leitura que temos ao avaliar os relatórios. Não há um único sucesso arrasa-quarteirão tomando de assalto as FMs evangélicas pelo país. Recentemente, Adele como “Someone Like You” varreu o Brasil sendo executada a mais executada em 11 de 10 rádios. Mesmo no relatório das rádios seculares, hoje não temos um único artista repetindo a liderança. No entanto, a grande diferença entre a lista gospel e a secular é a coerência entre os mais executados. No meio secular, hoje temos a presença constante no TopTen de mais executadas nomes como a própria Adele, Belo, Zezé di Camargo e Luciano, One Direction, Bruno e Marrone, Victor e Leo, Luan Santana, Paula Fernandes, Eduardo Costa, Michel Teló, entre outros. Já no meio gospel, o que é sucesso em São Paulo simplesmente inexiste em Ribeirão Preto ou Recife. E o mais estranho, um artista que é sucesso numa determinada emissora ou grupo de comunicação, não há uma única execução na emissora concorrente da mesma região.
 
DIFERENÇAS REGIONAIS EXISTEM, MAS HÁ ALGO A MAIS NO MEIO GOSPEL! – é óbvio que num país continental como o Brasil, as culturas são bastante diferenciadas e isso fica evidente também no gosto musical. Vendo os relatórios das rádios seculares percebemos que Goiânia e Brasília são muito sertanejas, que São Paulo é sertaneja mas com boa abertura para a música internacional. Percebemos também o crescimento do samba, recuperando espaço perdido há anos atrás. Ou seja, cada cidade tem um estilo próprio e isso tente a ser repetido entre as rádios evangélicas. No entanto, com um olhar mais apurado percebemos que muito mais do que a influência regional, o que vem determinando o estilo de programação das rádios gospel são outros aspectos. Um dos pilares para a definição do que deve ou não ser executado nas rádios gospel tem a ver com um conceito peculiar: interesses particulares. Como boa parte das emissoras de rádio no segmento gospel nacional estão ligadas a igrejas/denominações ou a gravadoras, é perceptível a influência de seus interesses próprios na elaboração de um playlist. Com isso temos casos clássicos de artistas que tocam 898 vezes na mídia própria e nenhuma vez nas outras rádios.
 
A MÚSICA GOSPEL É RICA EM ESTILOS E REPRESENTANTES! – vendo cada nome de artista citado no relatório da Crowley vemos como a música gospel hoje é pródiga em nomes, estilos, propostas e talentos. Confesso que nem todos os nomes eu conheço o trabalho, mas em sua grande maioria são artistas que de alguma forma temos contato ou conhecimento. Num tipo de pesquisa como essa nos deparamos com os sucessos regionais. Com isso facilita muito o trabalho de “garimpagem” de novos talentos, artistas e projetos. Quando um determinado artista começa a se destacar numa região, todo diretor artístico deve buscar maiores informações a respeito. Entre os destaques da pesquisa, observamos artistas pop, sertanejo, pentecostal, um pouco de black music, um pouco de hip hop, adoração e louvor e uma infinidade de estilos e artistas. Essa variedade demonstra claramente a riqueza deste segmento artístico.
 
SUCESSO HOJE, APAGÃO NA SEMANA SEGUINTE! – tenho acompanhado as pesquisas nas últimas 4 semanas. É estranho notar que um determinado artista numa semana estava entre os TopFive e na semana seguinte foi catapultado ao ostracismo. Fui pesquisar melhor essa impressão e confirmei que isso vem acontecendo periodicamente em determinadas emissoras. O que posso supor é que nestes casos houve algo que subitamente fez o artista e sua música sumirem da playlist. As opções podem variar entre a descoberta de que o artista fazia parte de uma célula da AlQaeda, de que a música foi apagada acidentalmente do computador da rádio, de que o artista foi abduzido por uma nave espacial e com ele todos os seus registros na Terra. Talvez o artista tenha ido na rádio e suplicado para que sua música fosse excluída da programação ou, em último caso, de o contrato de divulgação do lançamento do CD tenha expirado na emissora. Hummm … é estranho, mas não consigo chegar a uma conclusão. Apenas creio que se a música é sucesso e o público se interessar pela própria, o correto é que seja mantida na playlist independente de qualquer disco voador ou mesmo carruagem de fogo.
 
Vou ficando por aqui. Gostaria apenas de deixar registrada a chegada da Crowley ao mercado gospel e de como essa novidade poderá modificar positivamente o segmento. Hoje, particularmente, me chama mais a atenção a programação das rádios aferidas pela Crowley. Torço para que muito em breve a cobertura deles atinja mais municípios e regiões do país. E se você quer conhecer um pouco mais deste serviço, vale a pena conferir o sitehttp://www.crowley.com.br/
 
 
Mauricio Soares, jornalista, publicitário e agora, analista de pesquisas de rádio.

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