Maurício Soares fala sobre o cachê dos cantores

Maurício Soares fala sobre o cachê dos cantores

Atualizado: Sexta-feira, 25 Maio de 2012 as 3:36

Por sugestão da Amanda Neuman e de mais algumas pessoas, falaremos neste post a respeito da questão do cachê, oferta de amor, pagamento, contribuição, din din, caixinha ou qualquer outro nome que vocês queiram dar para o simples fato de alguém ser remunerado por algo realizado. Acho simplesmente hilariante em nosso meio a utilização de termos eufemísticos para designar o que todo mundo sabe claramente o que significa. Nesta linha, uma apresentação musical, comumente conhecido como show, transforma-se em culto de louvor e adoração! Um cantor, alguém que vive de arte, é chamado de levita ou adorador e não de artista que é visto como algo mais pejorativo. Enfim, sem querer seguir por essa linha de análise, até porque já falei a respeito desse assunto em outro post, vamos falar sobre como deve ser o procedimento que um artista deve ter na relação com o contratante e sua remuneração.

Antes de sair escrevendo sobre o assunto quero apenas ajustar com os seletos 45 leitores do Observatório Cristão sobre os termos que vou utilizar a partir de então. Levita, Ministro, Adorador e o que mais for, será tratado como artista. Pastor, igreja, líder, promotor de evento e afins serão tratados simplesmente como contratantes e, por fim, o pagamento sobre o trabalho será friamente chamado de cachê. Resolvido isso vamos avançar!

Muitas das experiências que relato aqui no blog foram vividas por mim ao longo destes 42 anos de vida. Algumas experiências são fruto do meu dia a dia profissional. Outras remetem à nossa experiência espiritual e de relacionamento com Deus. Já em alguns casos comentamos sobre o que vivemos como cidadãos. Talvez o que muitos não saibam é que na minha adolescência e mesmo já na juventude, fiz parte de um grupo musical. No Rio de Janeiro e principalmente no meio da juventude batista nosso grupo chegou a ter um certo destaque. Naquela época era tudo muito menos glamouroso do que vemos hoje, mas ainda assim sentíamos meio artistas. Estou contando isso porque já naquela época tínhamos muita dificuldade em lidar com as questões de cachê. Os contratantes ligavam, sondavam, negociavam e como nós não vivíamos daquilo, sempre acabávamos aceitando a oferta proposta. O tempo passou (e olha que passou mesmo!) e o conceito de cachê tornou-se mais usual. Hoje temos vários contratantes que realmente entendem a necessidade de uma contrapartida financeira. Hoje podemos dizer que há tipos muito distintos de artistas, contratantes, eventos. Vamos tentar esmiuçar um pouco mais sobre esse tema.

“Sou artista iniciante e não sei como devo fazer para cobrar o cachê.” – primeiramente é importante frisar que artista iniciante, estagiário e foca de redação não escolhe trabalho, função, mesa, chefe … não escolhe nada! Simplesmente esse tipo de ser deve agradecer de joelhos pelo fato de já estar sendo “testado”. Do ponto de vista artístico, sempre é bom recordar que Roberto Carlos não começou cantando na Rede Globo ou que Victor e Leo receberam como cachê, um sanduíche com refrigerante. Ou seja, artista iniciante não deve se preocupar com cachê mas sim em cantar! É óbvio que o trabalho escravo foi abolido pela Princesa Isabel há séculos atrás, mas não há como tornar-se uma Cassiane ficando refastelado no sofá da sala esperando uma gravadora ligar!

Quem está chegando agora deve primeiramente buscar a oportunidade. Se ainda conseguir o dinheiro da passagem ou do lanche, então já é um bom começo. Nos primeiros anos, o cachê do artista é recebido do lado de fora da igreja, na mesinha onde se vende CDs. Se você for bem, se conquistar a empatia do público, a chance de você vender uns CDs é bastante real. O início de praticamente todo mundo é sempre difícil, exceto do Thor, filho do Eike Batista, o destruidor de Ferraris e afins. Todos devemos ter uma cota de sacrifício, isso é fato! Apenas não se deixe ludibriar ou mesmo explorar por aquele contratante que sempre te chama para animar aquele culto ou evento e na hora de ‘comparecer’ simplesmente toma chá de pirlimpimpim e puf! … some! Já ouvi casos escabrosos de pastores que deixaram o artista sozinho na igreja após o culto, desaparecendo sem deixar a oferta e ainda, desligando o celular e tornando-se subitamente incomunicável! Triste mas é vero!

“Sou artista com alguma experiência, alguns CDs lançados na carreira, mas sou independente ainda. Às vezes ganho um cachê, outras vezes vendo CDs e em outras ocasiões levo mesmo é um ”beiço”!” – este é um caso super comum. O artista já tem uma carreira, mas ainda não suficiente para sair de casa somente com o cachê depositado na conta. Para estes, o ideal é ser cuidadoso e principalmente, ter bom senso. Este perfil de artista é daquele profissional que precisa de divulgação e que ainda faz contas para chegar ao fim do mês sem apelar para o gerente do banco. O ideal é que um planejamento seja estabelecido. Procure estabelecer o mínimo de ganho por mês e priorize as agendas que poderão garantir esse objetivo financeiro. Essa remuneração pode ser garantida pelo cachê em espécie ou também pela venda de CDs e produtos. Por exemplo, digamos que com 5 mil reais você consiga viver confortavelmente. Se a média do seu cachê for de 500 reais, então você precisará ter confirmados pelo menos 10 eventos ao mês. Conseguindo isso, você poderá investir em outros convites onde necessariamente a questão financeira não seja tão importante. Existem certos eventos em que mesmo sem receber qualquer receita vale a pena participar. Há eventos estratégicos onde é interessante participar para que ali sejam fechados outros convites futuros além da divulgação junto ao público e/ou mídias.

“Já passei por todas essas etapas e hoje sou um mega pop star gospel! Se quiser me contratar, é só do meu modo! Diferente disso, nem saio de meu sofá de couro de antílope!” – o maior risco de alguém que alcançou sucesso é acreditar que essa bonança é ad eternum. Erro gravíssimo! É óbvio que existem fases numa carreira artística e nada mais arriscado para a longevidade de uma carreira do que não saber lidar com o sucesso. O artista que consegue chegar ao sucesso deve se empenhar ao máximo para fazer uma boa poupança já preparando-se para a fase de queda (que é inevitável sempre!). Se você é um artista consolidado e pode cobrar por cachês mais elevados faça isso! Apenas saiba manter as relações de forma saudável. Hoje temos casos clássicos de artistas que tempos atrás foram grandes, não souberam tratar bem as pessoas e os contratantes e na fase da queda, foram simplesmente abandonados à própria sorte. É aquela história da roda gigante … uma hora em cima, outra em baixo …

Algumas dicas interessantes sobre o tema:

# O ideal é que o artista NUNCA seja a pessoa responsável pela negociação junto ao contratante! Tenha sempre alguém para fazer essa parte … mesmo que seja aquele cunhado meio mala sem alça!

# No fechamento da negociação deixe muito claro o que foi decidido. Se possível, deixe registrado num email.

# Não acredite em depósitos em caixa eletrônico feitos depois das 16h em plena sexta-feira.

# Seja o mais educado possível. Mantenha sempre as portas abertas!

# Em uma negociação há o SIM, o DEPOIS e o NÃO! Nem sempre dará para aceitar a proposta. Não precisa se martirizar se não der pra atender aos convites.

# Nunca faça leilão. Mantenha seu valor e jamais deprecie seu produto!

# Seja coerente. Analise artistas que estejam num mesmo patamar seu e procure informar-se sobre o valor do cachê. Nunca fique abaixo da “concorrência e nem absurdamente acima, procure estar na média.

# Se um contratante não aceitar o seu valor e depreciar muito seu trabalho, às vezes até mesmo comparando com outros artistas, então ele realmente não valoriza seu trabalho e não merece tê-lo no evento.

# Tenha um contrato padrão. Quanto mais responsabilidade para o contratante melhor para você!

# O ideal é que o cachê seja recebido antes do evento. Também vale a pena estabelecer um valor de reserva de data com 20% do cachê. Este valor não deve ser devolvido em caso de desistência do contratante.

Acho que é isso! Espero que tenha sido proveitoso! Pelo menos foi de graça, nem teve cachê!

 
Por Mauricio Soares, jornalista, publicitário, consultor de marketing.

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