Música cristã contemporânea: Diversidade para a glória de Deus

Música cristã contemporânea: Diversidade para a glória de Deus

Atualizado: Quinta-feira, 15 Setembro de 2011 as 11:02

Perto do fim dos anos 1970, um novo gênero musical começou a ganhar corpo ao redor do mundo. Era a música cristã contemporânea (MCC), na verdade uma mistura de estilos e ritmos que tinham em comum a temática cristã. Surgida na década anterior, na esteira do Jesus Movement (vertente evangélica da expressão hippie, ou seja, uma contracultura dentro da contracultura), a MCC logo quebrou paradigmas. Ritmos até então considerado profanos pelos crentes, como o rock, o soul, o country e mesmo o funk, um pouco mais tarde, caíram no gosto dos ouvintes e das gravadoras do segmento cristão. Hoje, não só nos Estados Unidos, mas em países como Austrália, Méxixo, Canadá e Brasil, artistas da MCC vendem milhões de álbuns, aparecem nas paradas de sucesso seculares e dão grande visibilidade ao chamado segmento gospel. 

Para compreender o que é a música cristã contemporânea, é preciso olhar somente a música – e não as letras – por meio de um microscópio. Isso porque as letras, quase sempre, carregam elementos explícitos da fé cristã, da Palavra de Deus e do modo de vida evangélico. Verdade é que o trabalho de alguns artistas de proa da MCC, como os americanos Amy Grant e Michael W.Smith, inclui composições extremamente românticas, que tanto poderiam ser cantadas para Jesus como para a pessoa amada. No entanto, a ênfase desse tipo de música é sempre constante nos conteúdos bíblicos e expressões características do povo de Deus. Muito embora a maioria das pessoas a denomine como MCC ou “música de adoração” – ou apenas “adoração” –, ela é, antes de tudo, um subgênero da música popular americana e tem se infiltrado na sociedade desde então. Esta música pop relativamente recente, com suas ramificações quase infinitas, incluindo-se gêneros como soft rock, hard rock, punk rock, alternativo, contemporâneo adulto, rhythm and blues, hip-hop e assim por diante, constitui um modelo constante para a MCC e uns poucos artistas do gênero têm sido inovadores musicais por sua própria capacidade e criatividade.

Praticamente, toda música pop/MCC exibe três características musicais próprias, que não estão presentes nas tradicionais canções protestantes, como hinos e canto coral. Uma delas é a sincopação consistente. Trata-se de uma nota musical emitida em um tempo fraco e continuada em um tempo forte em, virtualmente, cada pauta da música. Frequentemente, o que ocorre é um complexo desses ritmos. Tal sincopação teve sua origem na música africana, sendo levada para os Estados Unidos entre os séculos 17 e 18. Outro traço marcante é a presença de uma constante batida de rock. Isso inclui colocar tonalidade na segunda e quarta batidas de uma medida em um tempo quaternário, o que constitui outra sutil sincopação. Por fim, a MCC, desde seu início, caracterizou-se por um estilo vocal agradável – o chamado back vocal, quase onipresente nos cultos e shows gospel.

As características musicais adicionais igualmente comuns, embora não encontradas em todas as canções, incluem uma boa paleta de acordes, a presença de uma guitarra executando acordes de apoio, um baixo elétrico executado em padrão rítmico complementar ao da bateria e muitos solos instrumentais improvisados e padrões substitutivos. Novamente, é notável que nenhuma dessas características musicais seja encontrada, de modo consistente, na música da igreja tradicional ou sinfônica. A única exceção seria certos tipos de modalidades presentes em obras clássicas britânicas do século 20. Em outras palavras, se um grupo tocasse o clássico Castelo forte e, em seguida, executasse uma canção como Aqui estou para adorar, ainda que com os mesmos músicos e vocalistas, estaria utilizando duas linguagens musicais distintas. A MCC não é meramente um desenvolvimento de estilo da música religiosa do passado, como a mudança nos estilos da arte renascentista para a barroca. Ao invés disso, constitui uma ruptura radical com o passado, sendo passível de comparação com a diferença entre uma catedral e um arranha-céu.

EXPRESSÃO EMOCIONAL

Inúmeros argumentos têm justificado a inclusão, e mesmo o domínio, da MCC nas igrejas de nossos dias. Ela é idêntica, em estilo e instrumentação, à música popular que cada membro ou visitante ouve, constantemente, nas rádios, lojas e anúncios da televisão, bem como nas trilhas sonoras de muitos filmes. Quando a música cristã contemporânea é executada ao vivo, especialmente com os efeitos de luz, cenários, amplificadores potentes e assim por diante, ela é capaz de evocar frenesi semelhante ao de um show de música pop secular. O estilo também inclui uma rica expressão emocional que pode explicar o domínio alcançado na adoração, fato não observado em outros gêneros, como o jazz e o swing, em suas respectivas décadas de popularidade. Por conseguinte, aquela geração tendeu a voltar-se para compositores clássicos como referência para músicas cerimonialistas, patrióticas e, em especial, de adoração. Em outras palavras, eles dançavam ao som de Glenn Miller, no sábado à noite, para adorar, na manhã seguinte, através da música de coral clássica, da música de tributo de Copland, dos hinos tradicionais e obras de Johan Sebastian Bach, como prelúdios para órgão, porque este tipo de música satisfazia suas necessidades emocionais mais que os estilos populares de sua época.

Eles provaram que o pop era capaz de expressar uma enorme gama de emoções e que podia ser executado sem o acompanhamento de uma orquestra completa. Alguns denominariam tais canções como clássicos menores e a melhor delas poderia mesmo ser comparada com o gênero piano/vocal na música clássica, conhecido como “canção de arte”. Quando, no princípio dos anos 80, foram lançados álbuns de MCC, como o extremamente popular Age to age, de Amy Grant, (que inclui o arranjo de uma fuga de Bach como introdução a uma canção), o subgênero uniu-se à corrente principal, caracterizando uma poderosa força artística. Então, uma serie de artistas foram capazes de falar a toda uma geração de cristãos em sua própria linguagem, em vozes que variavam do berro ao sussurro.

Se a sociedade contemporânea for capaz de permitir a substituição, por completo, de todos os demais estilos musicais pela música pop, seria possível concluir que o mesmo poderia ser feito pelas igrejas. Afinal, se a congregação ouve apenas esse estilo de música durante toda a semana, por que a igreja deveria fornecer algo diferente aos domingos, acrescida, claro, de letras cristãs significativas? No entanto, a verdade é que nem a cultura americana, nem a cultura de outras nações onde o pop ascendeu à posição de música de massa, eliminaram os outros estilos. O competidor mais óbvio é a música das trilhas sonoras dos filmes, um compêndio tanto de elementos clássicos quanto populares. Embora muitas partituras de filmes incluam sons instrumentais, feitos famosos pelo pop, a maioria das trilhas sonoras também inclui segmentos executados por orquestras profissionais. Embora a execução de canções pop durante uma cena de ação seja comum, poucos filmes de sucesso utilizam exclusivamente esta técnica. Por vezes, há uma profundidade de expressão emocional para a qual a música sinfônica é mais apropriada que uma canção pop. Igualmente, as séries de televisão, documentários e até mesmo jogos eletrônicos favorecem essa alternativa.

TALENTO E TRADIÇÃO

A produção de um expoente compositor clássico, normalmente, inclui formas muito variadas, em adição à suas obras mais famosas. Johannes Brahms, por exemplo, escreveu inúmeras canções, porém igualmente compôs diversas peças de coral para a igreja, sem mencionar quatro sinfonias e outras obras extensas. Bach fez o arranjo de centenas de hinos, que podem ser comparados às canções cristãs contemporâneas de nossos dias, bem como escreveu obras para coral, piano e orquestra de variadas extensões, muitas das quais eram executadas nos serviços religiosos. Toda essa diversidade serve para mostrar que nenhum gênero musical – nem mesmo a MCC, considerada por tanta gente hoje como hegemônica no cenário de louvor e adoração – é único na preferência dos ouvintes. E, certamente, o gospel não é o único tipo de música que os crentes ouvem ou até mesmo apreciam entre um culto dominical e outro.

Dessa forma, a liderança da igreja atual detém a responsabilidade de edificar a sua respectiva congregação, apresentando tanto peças curtas quanto mais longas, em estilos variados, de diferentes épocas e para combinações de instrumentos distintas. Não será esta a melhor maneira de “preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado”, conforme recomenda Efésios 4.12?As canções contemporâneas de adoração cristã são, em geral, belas, emocionantes e inspirativas. Porém, ignorar todos os outros tipos de música devocional é sério um equívoco. Tal prática não apenas privará os jovens fiéis de conhecerem hinos e músicas sacras que consolidaram a fé de seus antepassados como poderá também produzir neles um senso artístico subdesenvolvido. Igualmente, isso dificulta o acesso e a função dos jovens em uma cultura que ainda valoriza o desenvolvimento intelectual e a arte da música em todos os seus estilos. Dessa forma, o crente dos dias de hoje verá a si mesmo como parte de uma estimulante e relativamente nova forma de arte – porém, respeitará o talento genuíno e o êxito, presentes em muitos outros estilos de música, criados para a glória de Deus. (Tradução: Fernando Cristófalo)

Por Lawrence Mumford, professor de composição no Conservatório de Música da Universidade Biola, em La Mirada, bem como na Faculdade Cristã de Providence, em Pasadena, ambas no estado americano da Califórnia (EUA) Fonte Christianity Today Via Cristianismo Hoje

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