Não dá pra repetir fórmulas, ainda mais se estas fórmulas estão erradas

Repetindo fórmulas erradas

Atualizado: Terça-feira, 24 Julho de 2012 as 1:05

Grande parte dos meus textos do blog são colhidos de conversas com amigos no dia a dia. Muitas das vezes, uma simples frase mencionada sem qualquer preocupação acaba se transformando num belo insight para que depois eu desenvolva a idéia e a apresente aos leitores do Observatório Cristão. E foi numa destas conversas com minha mui leal e competente Cláudia Fontes, responsável pelo marketing em minha equipe de trabalho, que surgiu o tema que irei apresentar. Estávamos jantando depois de um dia de reuniões e muito trabalho, já no último dia em Nashville, antes de regressarmos ao Brasil, e comentei sobre diferenças no mercado brasileiro e norte americano. Falava sobre como certas posturas, estratégias, estruturas e mentalidades da maior gravadora gospel do mundo, neste caso a Provident, chocavam-se com o que víamos e vivenciamos várias vezes em nosso país.

Questionei sobre como poderia uma empresa fazer tanta coisa errada, seguir por estratégias tão diferentes, não ter em sua estrutura profissionais realmente entendidos do que é ser uma gravadora e, ainda assim, essa empresa sobreviver num mercado tão competitivo? E aí Cláudia disse uma frase que será o pontapé inicial do texto de hoje. Ela afirmou, enquanto desfrutava de um Prime Rib meio diferente – geralmente volto dos EUA uns 2 a 3 quilos mais magro, mas acho que dessa vez devo ter emagrecido ainda mais. Amo esse país, mas a comida daqui é um sufoco só! My God! – a seguinte frase: “O problema é que todo mundo foi ensinado dessa forma. A coisa começou errado e tornou-se padrão no Brasil. Infelizmente eles não têm acesso ao que é feito em outros lugares e acaba achando que dessa forma é o certo!”

Havia uma cidade, no meio do nada. Ali moravam não mais do que 300 pessoas. Luz elétrica não havia, apenas geradores a diesel. Uma vez por mês surgia por lá alguém que trazia as novidades do mundo exterior, além de comida, combustível, remédios. Não se tinha acesso à TV, internet, jornais, revistas … nada disso! O isolamento era absoluto e ninguém questionava nada, afinal sempre viveram ali e quem saía de lá, jamais voltava. Certamente haviam sido devorados por algum monstro ou coisa que o valha. Num certo dia, esse caixeiro viajante comprou na capital, todo o estoque de roupas que haviam acabado de chegar no armazém. Por um preço em conta, bastante vantajoso, aquele rapaz comprou 300 camisetas amarelas nos mais variados tamanhos. Quando chegou na cidade isolada, reuniu toda a população e anunciou: “Pessoal, acabo de trazer a maior novidade de todos os tempos!”, com expectativa e curiosidade todos se aglomeravam para ver o que era essa tal de novidade. “Consegui, com muito esforço e boa dose de inteligência, as roupas mais bonitas de todo o nosso país! Venham ver e comprar!”, e em poucos minutos todo o seu estoque foi vendido.

Percebendo que sua estratégia havia dado certo, em toda viagem à capital vinha ele trazendo mais e mais ‘novidades’. Numa determinada vez, o caixeiro viajante comprou todo um lote de casacos de neve. E mesmo sendo a cidade isolada, instalada numa área quase desértica, ele comprou todo o estoque e seguiu no rumo para mais uma viagem de boas vendas. Chegando na cidade, como de costume, ele convocou a todos os moradores. Imediatamente todos reunidos e atentos às novidades. “Trago desta vez, a salvação para nossa cidade! Fui informado de que muito em breve teremos uma chuva de meteoritos em nossa região e somente com esses casacos iremos sobreviver à radiação! Venham todos comprar esses casacos!” E assim foi sendo formada uma nova cultura naquela cidade. Tudo o que o caixeiro viajante dizia, o povo cegamente seguia sem ao menos questionar nada, mesmo as questões mais estranhas.

Anos depois, aquela cidade foi adquirindo hábitos estranhos, vestindo-se de forma diferente, criando uma cultura própria de falar, de comer. Até que um dia chegou um visitante da capital. “Nossa, que estranho! Que povo é esse? Que roupas são estas? Por que esse casaco no meio do deserto?”, ele ficou ali, parado, olhando um povo diferente, em casas diferentes, com uma forma toda própria de falar, vestir, de entender o mundo. Ele caminhou mais um pouco pela cidade até que encontrou alguém que não havia fugido de sua presença ao ver uma pessoa tão esquisita (no caso, o próprio visitante). “Meu amigo, por favor. Qual a razão de vocês se vestirem assim? Por que as pessoas têm TVs e geladeiras em suas casas se até hoje não há energia elétrica na cidade e nada funciona como deveria? É tudo tão diferente?”, com cara de mesmo espanto, o rapaz da cidade respondeu: “Mas eu também acho que você é estranho! Eu cresci aqui, sempre vivi aqui. Se tem algo ou alguém errado aqui, é você e não nós!”

Esse é o risco de nos mantermos isolados do mundo. Isso é o que acontece quando achamos que o nosso mundo é o melhor, o único, o perfeito. Quando simplesmente repetimos fórmulas, o resultado é: atraso, perda de competividade, estagnação. Durante muitos anos seguimos um modelo imposto por pessoas que não necessariamente conheciam o que era o melhor para o mercado. Temos um mercado gospel influenciado por muitas pessoas que sequer conhecem o que acontece do lado de fora de seus confortáveis e climatizados escritórios. Hoje vejo muito claro que esse isolamento acabou por trazer uma cultura ultrapassada, mesquinha, bizonha, muitas das vezes.

Recordo-me que há alguns anos atrás um determinado artista que àquela época despontava como um dos mais importantes de nosso mercado, exigiu da gravadora numa possível contratação, que se colocasse em contrato 3.000 bonés, chaveiros, cartazes, postais … Lembro-me até hoje o comentário do presidente da gravadora: “O que esse rapaz quer fazer com tanto boné? Será que ele acha que alguém vai querer usar um boné hoje em dia? Que coisa mais ultrapassada!”

No mercado gospel brasileiro ainda hoje convivemos com alguns padrões que nos foram impostos há anos atrás. Se realmente quisermos ser enxergados com respeito e alcançar vôos mais altos, boa parte de nossa cultura precisa ser repensada. Digo isso com muita calma porque conheço hoje os dois lados do mercado fonográfico. Se o mercado gospel continuar a repetir fórmulas e atitudes do passado, iremos perder o melhor e mais prodigioso momento de nossa história em todos os tempos. Não podemos mais fingir que nada mudou e que não seremos atingidos pelas mudanças do mercado e da sociedade. Não podemos ter a “estratégia do avestruz”, simplesmente escondendo sua cabeça no buraco com o medo do que está pra chegar!

No meu dia a dia vejo algumas atitudes de artistas que não condizem mais com o atual estágio do mercado fonográfico. Vejo também atitudes de empresas isolando-se cada vez mais para tentar manter o pouco que ainda lhes resta. O mundo mudou. Não podemos ficar isolados. Temos que abrir nossos horizontes. Rever por completo nossas ações e estratégias. Ainda dá tempo, mas cada vez temos menos tempo!

por Mauricio Soares

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