O que fazer quando a sua igreja acabou de gravar um CD?

O que fazer quando a sua igreja acabou de gravar um CD?

Atualizado: Terça-feira, 17 Maio de 2011 as 8:19

Diariamente recebo pedidos de informação sobre esse assunto e pedidos de distribuição de CDs e dvds de bandas independentes e de igrejas que gravaram o primeiro CD.

Queria falar um pouco sobre esse assunto, pode parecer que não, mas o direito autoral também está muito presente nessas situações e por desconhecimento do assunto ele é desconsiderado. Na verdade queria falar mais com quem está pensando em gravar ou que esteja no meio de uma gravação, obviamente as informações abaixo servem para quem já gravou o CD e se descuidou de alguma parte do processo, ainda pode corrigir o que ficou errado.

Em primeiro lugar meu conselho para quem ainda não gravou é que se prepare da melhor forma possível para a gravação, falo dos arranjos, ensaios, aulas de canto, escolha das canções, conhecimento de todo o procedimento com a documentação, enfim que haja uma pré-produção muito bem feita e com muito critério. O sucesso de uma gravação começa com uma excelente pré-produção que na maioria das vezes é desconsiderada. Vou me ater às questões dos direitos autorais, nessa fase de pré gravação, mas toda a pré produção é vital.

Primeiro deve se escolher com muito critério o repertório. Eu valorizo muito as letras com um bom embasamento bíblico, porque creio que a música cristã é uma forma de "pregação cantada do evangelho", então não vejo sentido se a letra contradiz a palavra de Deus.

Escolhido o repertório é preciso trabalhar a documentação de liberação das canções com os respectivos autores, mesmo que eles sejam irmãos da mesma igreja. Seja como for eles são os autores e somente eles podem autorizar o uso de suas obras. É preciso então uma autorização por escrito onde o autor permite o uso de sua obra no CD específico, nas condições que ele acordou com o produtor fonográfico do CD. Pode ser que ele cobre o direito autoral ou então vezes vai querer ofertar gratuitamente. Isso não importa, o que importa é que depois de acordado como será, é fundamental um documento assinado por ele com todos os itens do acordo bem definidos. Não aconselho gravar nada sem antes ter esse documento.

O mesmo precisa ser feito com os intérpretes das músicas, eles têm o direito artístico de suas interpretações e igualmente precisam autorizar a inserção de suas interpretações no CD específico. Podem receber algo por isso, ou ceder gratuitamente se desejarem, seja como for, tem que haver um documento antes da gravação.

Se tiver alguma versão de música internacional, é preciso antes de tudo da autorização para o uso dessa versão. Muitas vezes as pessoas fazem uma versão e na última hora correm para licenciá-la, não é raro acontecer a não aprovação da versão, ou porque existe outra oficial, ou porque a versão não está boa. Sugiro sempre submeter uma versão ao editor ou ao autor antes mesmo de começar a ministrá-la na igreja, assim evita-se que a igreja conheça uma versão que futuramente não poderá ser gravada.

Os músicos acompanhantes também precisam ter definido um acordo de como será a participação deles, se receberão algo pelo trabalho da gravação ou se irão ceder gratuitamente o trabalho. Seja como for é preciso um documento individual com cada um deles estabelecendo o acordo feito para a gravação.

Como disse, não vou falar sobre a questão técnica porque não é tema desse estudo. Consideremos então que o CD foi gravado, mixado e masterizado. Agora é a hora de enviar para a fábrica.

Hoje no Brasil é obrigatório inserir o código ISRC de cada fonograma na máster do CD, para que ele seja produzido industrialmente. O ISRC é um código numérico que identifica cada fonograma gravado e entre outras coisas serve para o ECAD identificar a obra e distribuir direitos autorais pela execução pública. Quem gera o ISRC é o produtor fonográfico, ou seja, quem é o proprietário da máster. Para gerar esse código, o produtor fonográfico precisa se filiar a uma associação de direitos autorais ligadas ao ECAD, veja a lista delas no site www.ecad.org.br. Feita a filiação o produtor receberá o software gerador do ISRC. Todas as sociedades têm uma área de suporte técnico que auxilia no uso do software.

O que vejo sempre acontecer na produção independente é que por falta de informação o produtor não se cadastra, e na última hora fica sabendo que precisa ter o ISRC. Com o jeitinho brasileiro ele consegue que alguém que já é cadastrado e tem o software gere de favor esses códigos. Em geral algumas assessorias fonográficas fazem esse "favor". O problema é que quem gerou o código passa a ser considerado pelo ECAD como sendo o produtor fonográfico daquelas obras. Com isso todo o direito arrecadado pelo ECAD que deveria ser pago ao real produtor fonográfico, será pago para essa pessoa que prestou o favor. Isso pode não ser nada financeiramente, até que de repente aquela música exploda, e passe a ser cantada e executada ao redor do Brasil em todas as igrejas. Tarde demais, agora todo o valor arrecadado pelo ECAD que pertence ao produtor fonográfico está sendo pago para a pessoa errada. Estou "cansado" de ver isso acontecer, simplesmente porque na afobação de fazer logo as cópias do CD, a pessoa decide pelo "jeitinho brasileiro" no ISRC.

Temos então a máster do CD em mãos, toda a documentação de autores e intérpretes e os códigos ISRC. Agora é escolher a melhor fábrica e encomendar as cópias. Sugiro sempre uma análise bem criteriosa com as fábricas, há excelentes fabricantes no Brasil e outros não tão bons assim. A qualidade final é muito importante, sugiro então conhecer outros CDs feitos pelo fabricante escolhido. Vou nomear alguns que acho ótimo, falo desses porque já produzi CDs com todos eles, e todos têm uma qualidade excelente. Se alguma fábrica não estiver nessa lista não significa que não seja boa, significa que nunca trabalhei com ela. Sugiro então: Novodisc, Sonopress, Microservice, Sony DADC e a Videolar.

Depois disso é preciso cuidar da distribuição dos CDs. Começa outra batalha igualmente difícil, mas não impossível de se vencer. Sugiro para quem está começando, que faça a produção independente mesmo e tente esgotar as cópias produzidas no ciclo de relacionamento que tiver. Gosto muito do processo de divulgação boca a boca que tem uma consistência muito mais sólida do que outras ações de divulgação. Se pararmos para analisar a história de cada ministro que ficou conhecido nacionalmente, em mais de 90% dos casos, o que aconteceu foi que uma pessoa mostrou a canção para outra, e outra, e assim foi até que gerou um boca a boca enorme, fazendo com que a canção de tornasse super popular. Creio que a música cristã deve sair de dentro da igreja para fora e não o contrário, que se tente empurrar para dentro algo que não foi absorvido naturalmente pela igreja. Isso é somente a minha opinião, podem existir outras maneiras, mas nunca vi algo diferente disso acontecer.

Aconselho a se preocupar com uma distribuição nacional em livrarias somente quando houver se esgotado todo esse ciclo de relacionamento e que isso tenha gerado uma boca a boca que extrapolou esse grupo de pessoas. Nesse momento é a hora de se começar a pensar na distribuição em lojas, antes é uma questão prematura e às vezes prejudicial para o próprio CD.

Fiquem com Deus

Por Nelson Tristão - sócio proprietário da Editora Adorando, responsável pela administração dos direitos autorais de diversos compositores, nacionais e estrangeiros no Brasil.

Contato: [email protected]

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