"Venha a nós o Teu Reino" ou "Venham vós ao meu reino"?

"Venha a nós o Teu Reino" ou "Venham vós ao meu reino"?

Atualizado: Quinta-feira, 17 Fevereiro de 2011 as 3:58

Outro dia, um músico amigo foi convidado a se apresentar numa determinada igreja local fora da sua cidade. Acompanhado ao convite veio a instrução de que ele não estaria autorizado a aceitar nenhum outro convite durante aqueles dias naquela cidade, face eles estarem bancando todas as despesas com a sua viagem e hospedagem. Era o aniversário da comunidade e, evidentemente, ele era uma das principais "atrações" do evento juntamente com o pregador também convidado para aqueles dias.

Para aquele músico, mais uma oportunidade de expressar a sua arte, expressão pessoal de adoração ao Pai e de ministração aos homens, além de levantar talvez parte do seu sustento financeiro com a venda do seu material disponibilizado.

Para aquela igreja, uma oportunidade ímpar de ser abençoada com a presença daquele irmão, cuja arte repleta de conteúdo poético bíblico e qualidade musical se traduz em consolo, encorajamento, reflexão e edificação - verdadeiros veículos de ministração do Espírito.

Mas, e quanto a instrução de não aceitar nenhum outro convite enquanto estivesse naquela cidade?

Vale a pena pensarmos! Seria necessária tal instrução? Não seria antiético o músico assumir outro compromisso? E se alguém o convidasse por meio da própria igreja? Seria aquele músico propriedade daquela igreja durante aquele período? Seria o dinheiro fator determinante para tal questão? O que seria ético? O que seria profissional? O que seria bíblico? O que seria evangelho? E se acrescentarmos à história a informação de que ironicamente, aquela igreja local conhecera aquele músico através de uma ida à sua cidade por outra instituição que graciosamente o ofereceu para que cantasse numa das suas programações?

Esse triste fato, que na realidade é quase nada diante de muitas outras "instruções" de bastidores que existem por aí, só nos revela algo muito preocupante, que cada vez mais permeia o chamado "reino de Deus":

Enquanto oramos sincera e reverentemente a oração que diz: "venha a nós o Teu Reino", parece que agimos hipócrita e inconscientemente como se disséssemos: "venham vós ao meu reino". Verbalizamos o desejo pelo "Teu" reino, como quem fala ao Senhor, mas demonstramos o anseio prioritário pelo "nosso reino", como quem age em favor de nosso próprio ego.

O pecado do egocentrismo pode tornar-se tão maléfico a ponto de, sem percebermos, nos encantarmos até com a oração "do Pai nosso" muito mais pela oportunidade nela apresentada do "Teu reino" vir a nós, do que pelas possibilidades sugeridas de santificarmos o nome do Pai, reconhecermos a Sua vontade "tanto na terra quanto nos céus", dividirmos o pão que não é meu, mas nosso, além de perdoarmos os nossos devedores e declararmos que d´Ele "é o reino, o poder e a glória para sempre – Amém!"

Parece que a igreja, que existe para promover o "Teu" reino aqui na terra, virou de "cabeça para baixo" (ou de "ponta a cabeça") e passou a praticar um outro reino, mais "nosso" do que "Teu", e porque não observar, cada vez mais diluído em vários outros "nossos reinos" com os nossos nomes, nossas doutrinas, nossos membros, nossos patrimônios, nossas estruturas, nossos programas, nossos ministérios, nossos arraiais, nossos valores, nossas visões, etc. etc. etc.

O efeito do egocentrismo em nós se evidencia para além do âmbito pessoal, alcançando a coletividade, a ponto de, como igreja, passarmos a valorizar, absorver e desenvolvermos métodos, crenças e práticas que, embora aparentemente saudáveis aos nossos próprios olhos, certamente são abomináveis para Deus.

Mas será que conseguimos enxergar tal fato? Creio que vale a pena refletir! Se atentarmos cuidadosamente, encontraremos esse mal enraizado em muitas outras práticas cotidianas da vida da igreja:

Estaríamos dispostos a evangelizar para que os convertidos fossem para outras denominações ou comunidades? (as paraeclesiásticas interdenominacionais faziam isso muito bem, melhor do que as paraeclesiásticas denominacionais). Realizaríamos batismos dos convertidos a Cristo sem que eles viessem a participar da nossa comunidade ou do nosso rol de membros? Aceitaríamos facilmente, por amor, aqueles que discordam da nossa doutrina? Dedicaríamos tempo ao ensino e à edificação dos santos se aqueles que aprendem não assumissem posturas de acordo com o padrão ou estereótipo de um cristão que estabelecemos e aceitamos? E se não revelassem entendimento de acordo com as doutrinas que adotamos e concordamos? Desenvolveríamos ministério com aqueles que não concordam cem por cento com a nossa visão? Enviaríamos missionários para outros locais sem que eles se apresentassem em nome da nossa instituição e se não compartilhassem dos nossos métodos? Estaríamos dispostos a ofertar financeiramente sem condicionar as nossas ofertas à utilização dos recursos de acordo com as nossas preferências? Fica a impressão de que os ensinos de Jesus, "que não veio para ser servido, mas para servir (Mt.20:28), se obedecidos, nos levam a responder afirmativamente a todas essas questões, pois "é mais feliz quem dá do que quem recebe" (Atos 20:35), "quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que sirva" (Mt.20:27), "se alguém quer ser o primeiro, deve ficar em último lugar e servir a todos" (Mc.9:35), ...o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve. Pois qual é maior: quem está à mesa ou quem serve? Pois no meio de vós eu sou como quem serve." (Lc.22:26b,27).

Por Augusto Guedes - ministro de louvor, atua no mercado imobiliário, frequenta uma comunidade de discípulos, cooperando com Instituto Ser Adorador e convivendo com esposa, filhas, amigos e irmãos em Fortaleza (CE).

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