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Análise: Lula na economia

Análise: Lula na economia

Atualizado: Segunda-feira, 3 Janeiro de 2011 as 10:20

Na economia, as etapas difíceis que Lula teve que enfrentar ocorreram apenas no início do seu primeiro mandato e na crise de 2008-2009. Tanto assim foi que recentemente ele disse ter sido fácil tocar o governo.

As dificuldades iniciais aconteceram por culpa dele – vieram por conta das ameaças que as pessoas e o mercado sentiram em relação ao que seria seu governo na esfera econômica. A cotação do dólar subiu, a inflação também, o Banco Central teve que aumentar os juros e a economia sentiu o baque em 2002 e 2003. Mas, inteligentemente, Lula logo abdicou de propostas malucas que tinha na cabeça, ali colocadas por companheiros radicais.

A partir de 2003 veio a forte expansão da economia mundial, e exceto pela referida crise ele surfou confortavelmente nessa onda. FHC não teve essa facilidade - quase que só pegou crises: no início, ainda enfrentou seqüelas da crise da dívida externa, que remonta aos anos 1980. Depois vieram as também externas de 1995, 1997 e 1998-1999. Assumiu um país que esteve perto da hiperinflação, também com seriíssimos problemas fiscais, e outros legados difíceis. Precisou fazer ajustes fiscais e reformas, privatizações e tudo o mais. Mesmo a dívida interna tinha componente cambial, que explodia em reais com os choques externos, aos quais o país sucumbia por ter escassas reservas.

Estudo economia há quase 50 anos. No Brasil, em grande parte desse período, a maior dificuldade era a mesma, conhecida como escassez de divisas ou “restrição externa”. Hoje, há excesso de divisas, com reservas perto de US$300 bilhões. Ao contrário de muitíssimas outras no passado, a crise de 2008-2009 não foi de escassez de divisas, foi de dificuldades de crédito e de comércio exterior. O Brasil está na situação confortável de ter esses bilhões de reservas. Já começa um desconforto, pois mantê-las custa muito caro.

Além de surfista da boa onda externa, costumo recorrer a outra metáfora para descrever Lula na economia, a de que se comportou como peão de touro manso. Num rodeio, quando o touro não pula bem, o peão não ganha pontos, tem que ser trocado. Mas, assim como Chacrinha era o maior comunicador na TV, Lula merece esse título na política. Mesmo montando touros mansos, e enganosamente se atribuindo coisas que não vez, sai aplaudido. Na única vez que montou um touro bravo, a já citada crise que veio em setembro de 2008, a economia caiu e até passou do chão, com um desempenho negativo em 2009. Mas Lula veio com a conversa da marolinha, e novamente enganou a platéia, deixando de reconhecer que de fato houve um vagalhão, que custou perto de R$200 bilhões, uma estimativa do crescimento que deixou de acontecer.

Sobre atribuir-se coisas que não fez, tome-se, por exemplo, os 14,7 milhões de empregos de empregos formais que atribui ao seu governo. Governo não gera tantos empregos, foi a economia que gerou, ajudada, por exemplo, pelos chineses. Lula gerou mesmo foi cerca de cem mil empregos públicos, muitos deles desnecessários, em particular os providos sem concursos.

Para firmar bem minha visão, aqui vai outra metáfora, abusando delas como faz o próprio Lula: é como se antes dele a economia fosse um barco encalhado na margem de um rio, por período de seca. Aí ele entrou no comando do barco, vieram chuvas, a água subiu, o barco também, pondo-se a navegar, e Lula diz que foi ele que conseguiu isso.

Reconheço que na área de crédito houve uma expansão benéfica, o que é um mérito, mas também apoiado em condições criadas por FHC, que ele não reconhece, como a estabilidade da moeda e juros mais baixos. E essa expansão foi também facilitada pelos avanços nas tecnologias de informação e comunicação, como no caso do crédito consignado. Já recorri a ele duas vezes. Na última vez, em apenas meia hora após chegar à agência bancária, o dinheiro já estava na conta.

Na área social também houve avanços, mas assegurados por recursos tributários vindos da expansão da economia e baseados muitas vezes na expansão de programas já existentes, como o Bolsa-Família, que consolidou vários deles. Mas, nesse caso a questão não se resume em entrar no programa. Como sair dele? Lula não ofereceu resposta.

Em síntese, na economia, além de surfista da onda que veio de fora e peão de touros mansos, Lula foi um grande sofista, no sentido de que utilizou sua enorme habilidade retórica para defender argumentos enganosos ou logicamente inconsistentes. Seu sofisma usual é do tipo “se foi bom e aconteceu no meu mandato, foi de minha autoria”. E vem com um adendo: “se foi ruim, não é comigo”.

Seu maior mérito foi o de não atrapalhar as circunstâncias favoráveis. E, mesmo deixando sua própria herança maldita na área fiscal, e não alcançando um crescimento que poderia ter sido maior se houvesse se empenhado mais nos investimentos, sai com todo esse prestígio, pois se criou essa mística em torno dele, graças ao seu poder de comunicação e às dificuldades da população e da própria mídia em analisar e entender o que se passou.

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