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Brasil está pronto para meta de inflação menor, diz economista

Brasil está pronto para meta de inflação menor, diz economista

Atualizado: Segunda-feira, 10 Janeiro de 2011 as 3:31

O Banco Central já sabe que precisa alcançar uma inflação de 4,5% ao ano em 2011 e 2012. A discussão agora é: já não está na hora de o Brasil buscar uma inflação menor?

Em entrevista exclusiva ao Blog, o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, defende que o país já está preparado para perseguir uma taxa de até 3% ao ano, mais próxima da taxa de outros países emergentes. Barros avalia que o processo de redução da meta deve ser gradual, mas pode começar agora.

O tema já está na pauta do novo governo mas ainda nas entrelinhas de discursos e declarações. O receio está no efeito que a obrigação de se ter uma inflação menor possa causar no crescimento da economia.

A decisão sobre a meta de inflação será tomada apenas em junho, pelo Conselho Monetário Nacional. Desde 2003,  a meta central é a mesma, de 4,5% ao ano, com intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima e para baixo. A decisão é sempre para dois anos a frente. Portanto, este ano, o governo vai definir a meta a ser alcançada em 2013.

O Brasil está preparado, do ponto de vista dos fundamentos econômicos, para ter uma meta de inflação mais baixa?

Octavio de Barros - Não tenho dúvidas disso. No regime de inflation targeting (metas para inflação), a explicitação de uma meta de inflação tem como objetivo principal ancorar as expectativas dos agentes econômicos, desde que haja o compromisso formal e crível da autoridade monetária com essa referência. Nesse sentido, quanto menor a meta, menor a inflação efetiva. Nossa meta de 4,5% é a segunda maior do mundo. Acredito que o Brasil esteja preparado para experimentar metas de inflação menores. Esse movimento é respaldado pela ampliação do crescimento potencial brasileiro, ganhos de produtividade empresarial e a concorrência mais acirrada nos mercados de bens, inclusive com aumento das importações. Contudo, o impulso mais importante para redução da meta é que a sociedade brasileira já compreendeu os benefícios de longo prazo de uma inflação baixa e pouco volátil, depois de 16 anos de estabilidade monetária.

Como e por quanto começar a reduzir a meta de inflação?

Barros - Defendo que a meta seja reduzida gradualmente até alcançar patamares próximos dos padrões internacionais, algo como 3,0%. A depender das circunstâncias, poderíamos ter movimentos de 0,5 ponto percentual a cada 4 anos. A redução da meta só não pode ser maior neste momento por causa dos fatores estruturais que têm pressionado a inflação. Talvez seja possível também reduzir o intervalo de tolerância da meta, útil para acomodar choques de oferta, mas o ideal é reduzir a própria meta, já que é a referência dos agentes. O efeito sinalização seria muito positivo.

Já é praticamente certo que a inflação deste ano não alcançará o centro da meta, o que pode acontecer no próximo ano. Este roteiro corre que riscos?

Barros - Trabalhamos com IPCA de 5,2% para este ano de 2011 e 4,5% para 2012. Acredito que a probabilidade de convergência para a meta central seja alta, uma vez que trabalho com o cenário de que a política econômica não será substancialmente alterada no novo governo e que não haverá retrocessos nessa área. A convergência será tanto mais rápida quanto maior for a coordenação da política monetária com a fiscal, de modo a retirar parte do peso tradicionalmente assumido pelo BC em momentos de descompasso entre demanda e oferta. Vejo imensas chances de maior coesão entre Fazenda e BC no governo Dilma. Parece claro que a Fazenda está muito mais engajada no controle da demanda agregada. Nos momentos em que o  BC precisar fazer algum movimento de juros, vislumbro que assistiremos o respaldo técnico da Fazenda. Minha intuição é a de que não será mais requerida “arbitragem presidencial” no tema de taxa de juros. Quanto aos principais riscos, eles estão associados à convergência da inflação para a meta se dando de forma mais lenta se novos choques de oferta ocorrerem.

Como vê o processo de acomodação dos índices de inflação, todos mais altos em 2010, com efeitos sobre reajustes de tarifas e serviços?

Barros - A inflação mais elevada de 2010 deverá se refletir sim neste ano, através da renegociação dos contratos. Essa indexação da economia brasileira ainda é um desafio a ser endereçado nos próximos anos. Defendo que a acomodação da inflação, dentro dos limites impostos pelo intervalo de tolerância, deve ocorrer como forma de minimizar custos à sociedade, em termos de atividade econômica, somente diante de choques de oferta, cujos efeitos primários não são combatidos pela autoridade monetária. Choques de demanda, por outro lado, devem ser combatidos de forma tempestiva.

O cenário externo, levando em conta a expectativa sobre as economias dos países desenvolvidos, é inflacionário ou deflacionário hoje?

Barros – Hoje é inflacionário tanto pelos problemas climáticos que têm afetado as commodities agrícolas quanto pela demanda aquecida nos países emergentes. Contudo, ainda assistiremos a uma sobreoferta de bens industrializados no mundo e a um desemprego alto. Assim, não está no radar qualquer aumento de juros nas economias maduras, apesar da recuperação observada mais recentemente.

O amadurecimento e fortalecimento do sistema de metas requer mais participação da política fiscal no tripé que sustenta a política econômica hoje?

Barros – É isso mesmo. Quando as políticas monetária e fiscal atuam na mesma direção, de forma coordenada, os custos para desinflar a economia tendem a ser bem menores. Creio que veremos ao longo do novo governo uma coordenação maior, o que tira um pouco da carga que recaía sobre o BC. Outra válvula de escape é o câmbio flutuante, pois ao absorver choques externos, reduz a volatilidade do crescimento doméstico. Os agentes econômicos relevantes começaram finalmente a entender que todo banco central tem e deve ter sempre mais aversão à inflação do que o público em geral.

Está cético ou otimista, ou no meio dos dois, sobre o que esperar deste primeiro ano de governo Dilma para o ajuste fiscal necessário para ajudar o BC a cumprir as metas de inflação?

Barros – Gosto do que vejo. Importante registrar que na comparação internacional, a situação fiscal do país se destaca positivamente no G20, o que o habilita a ser o principal candidato a novas rodadas de upgrade por parte das agências classificadoras de risco. Porém, pela primeira vez, estamos nos referindo à queda da relação dívida/PIB não com o propósito de melhorar o risco de crédito ou a solvência, mas como um efetivo esforço de poupança e gestão da demanda agregada. Estamos falando do imperativo da abertura de maior espaço para o gasto privado em detrimento do gasto público corrente e de redução da carga tributária. Hoje investimos apenas 18,5% do PIB e já temos déficit externo forte. Com o investimento necessariamente maior e com consumo crescente não há como seguir avançando sem agravamento das contas externas e pressões inflacionárias. O aumento da poupança pública é a única forma de garantirmos o crescimento sustentado sem inflação.

A partir de quando espera uma redução da meta de inflação?

Barros – Acredito em reduções graduais a partir de 2013 ou quem sabe 2012. Talvez não dê tempo nem haja condições para se reduzir a meta do próximo ano. Em junho deste ano, na reunião do Conselho Monetário Nacional, pode-se confirmar ou alterar a meta de 4,5%. Seria algo muito positivo para o país, ainda que viesse a ser uma redução de apenas 0,25 ponto percentual. Cabe destacar que em seu discurso de posse, o presidente Tombini fez referência, logo no início, a essa possibilidade.

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