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China 'corta' investimentos no Brasil em 2011

China 'corta' investimentos no Brasil em 2011

Atualizado: Quinta-feira, 3 Novembro de 2011 as 9:33

A  China colocou o "pé no freio" neste ano em seus investimentos no Brasil. De acordo com dados do Banco Central, de janeiro a setembro de 2011, os asiáticos fizeram investimentos diretos de US$ 333 milhões no país, montante 25% abaixo do registrado no mesmo período de 2010, quando entraram no Brasil US$ 444 milhões.

O protagonismo econômico chinês é acompanhado com atenção pelos líderes mundiais. Na quarta-feira (2), o presidente da China , Hu Jintao, e a presidente Dilma Rousseff participaram de um encontro bilateral. Os líderes estão em Cannes (França) para a 6ª Cúpula do G20.

A China hoje é o maior parceiro comercial do Brasil, à frente dos Estados Unidos. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, as trocas com os chineses chegaram a US$ 56 bilhões em 2010.

No ano, até setembro, considerando todos os países, o Brasil registrou o ingresso de US$ US$ 50,5 bilhões em investimento estrangeiro direto, contra US$ 22,557 bilhões no ano anterior.

Entre os motivos apontados por especialistas para a diminuição do volume investido pela China neste ano estão as medidas protecionistas que vêm sendo adotadas pelo governo brasileiro - como as tarifas sobre a importação de calçados chineses, para proteger os fabricantes locais - e o agravamento da crise europeia, que faz os investidor reavaliar seus planos de negócios.

“Houve realmente diminuição [dos investimentos]. O Brasil tem a sensação de que alguns setores estão sendo invadidos pelos chineses e impõe barreiras [a alta do IPI para carros estrangeiros foi a medida mais recente]. Diante disso, nenhum investidor se sente seguro e confiante em trazer tanto dinheiro para um terreno hostil. Por isso, em alguns casos, acaba revendo onde e no que vai investir. Mas posso dizer que a China continua apostando e enxergando o Brasil como uma grande oportunidade”, disse Tang Wei, diretor-geral da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE).

A política de desvalorização cambial que vinha sendo adotada pela China deu lugar a uma recente valorização do iuan frente ao dólar, contribuindo também para a distribuição dos investimentos chineses, segundo o professor de Economia e Finanças da Fundação Dom Cabral, Rodrigo Zeidan.

A fábrica de máquinas Sany está instalada em São José dos Campos (Foto: Darlan Alvarenga/G1) “Não existe uma única causa. Às vezes é algo pontual, mas o fenômeno ‘taxa de câmbio’ pode ser considerado. Os chineses são exportadores e precisam jogar dinheiro para fora. Mas, com o processo de valorização, não há essa necessidade e o dinheiro permanece no próprio país.” Com a valorização do iuan frente ao dólar, os produtos importados acabam ficando mais baratos, contribuindo, assim, para a redução da inflação no país. Em julho, a inflação na China alcançou 6,5% , na maior alta de preços em 37 meses.

O professor de Direito e Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) Marcus Vínícius de Freitas também disse acreditar que exista certa resistência no Brasil quanto aos investimentos chineses.

“A adoção de restrições à compra de terras, por exemplo, pode ter servido como um fator de diminuição do interesse chinês em expandir seus investimentos no Brasil. Também a ausência de regras definidas e um marco regulatório estável, em que as regras do jogo estejam claras, podem também refletir um desinteresse em aprofundar o relacionamento entre ambos os países. Essa instabilidade de regras gera insegurança nos investimentos", disse.   Há pouco mais de um ano, o governo decidiu regulamentar a aquisição de terras por empresas controladas por capital estrangeiro . Um parecer da Consultoria-Geral da União (CGU) limitou a venda de terras brasileiras a estrangeiros ou empresas brasileiras controladas por estrangeiros a no máximo cinco mil hectares.

Em 2011, os asiáticos trouxeram dinheiro para investir nos setores de máquinas, de automóveis, petróleo e, em menor intensidade, de mineração, de acordo com Tang Wei, da Câmara Brasil China. Neste ano, os asiáticos anunciaram que duas montadoras - Chery e Jac - e uma indústria de tablets, a Foxconn , serão instaladas no Brasil.

Segundo Maurício Santoro, professor de Relações Exteriores da Fundação Getulio Vargas (FGV), é de interesse do governo brasileiro contar com investimentos no setor produtivo, nas áreas de tecnologia e de automóveis. “Há preocupação do governo Dilma de que os investimentos da China dêem um salto de qualidade, não só de quantidade.” No ano passado, a maioria dos investimentos foi concentrada no setor primário.

Conforme afirmou Wei, a atenção dos chineses também está direcionada para o setor de serviços. Quatro dos principais bancos chineses estão em fase de estudo ou de implantação dos projetos no Brasil, à espera das autorizações legais para iniciar as atividades.

“Há que se ressaltar que os investimentos chineses obedecem sempre à logica de atender às necessidades econômicas daquele país, e não necessariamente investir em setores que aumentem a capacidade exportadora do Brasil”, ponderou Freitas.

Apesar de a entrada de investimentos ter diminuído em relação ao ano passado, as perspectivas de Tang Wei são otimistas. Ainda que faltem apenas pouco mais de dois meses para o ano terminar, o diretor-geral da Câmara Brasil-China disse que a China não deverá fechar 2011 com volume de investimentos menor do que o verificado em 2010.

Já para o economista Luis Antonio Paulino, diretor titular do Instituto Confúcio e professor da Universidade Paulista (Unesp), é possível que os investimentos de 2011 não cheguem ao volume do observado no ano anterior. “Talvez esse resultado seja apenas por uma questão circunstancial. De qualquer forma, em 2010, houve muitos investimentos, e esse ano pode não repetir o mesmo montante.”

Caminho aberto para Espanha

Enquanto a China diminuiu seus investimentos no Brasil, a Espanha multiplicou o valor investido, passando de US$ 156 milhões de janeiro a setembro de 2010 para US$ 8 bilhões no mesmo período deste ano, aumento de 5.030%.

Em 2011, de acordo com dados do Ministério de Indústria, Turismo e Comércio da Espanha, o país realocou boa parte dos seus investimentos estrangeiros, reduzindo em algumas regiões e aumentando em outras. Os maiores destaques foram Brasil e Polônia.

“Isso pode ser motivado por uma maior confiabilidade nos ativos brasileiros, recursos de brasileiros retornando ao Brasil ou a consolidação de investimentos estrangeiros via Espanha para utilização de benefícios tributários, não tidos com outros países”, disse Marcus Vinícius de Freitas. Apesar da crise que atinge a Europa, há empresas saudáveis, com folga de caixa, que veem não só o Brasil, mas a América Latina, como uma saída. “Ainda que haja agravamento da crise, eles [espanhóis] continuarão aqui. Vão continuar investindo no Brasil, a uma taxa menor, pode ser, mas continuarão aqui. O Santander Brasil, por exemplo, é um braço importante do Santander”, citou o professor de Economia e Finanças da Fundação Dom Cabral, Rodrigo Zeidan.

Nesses próximos anos, o país deverá passar por uma terceira grande onda de investimentos espanhol, a exemplo, do que ocorreu na década de 1990, segundo o professor da FGV, Maurício Santoro. “A primeira leva foi de privatizações. A segunda chegou em 2000 nos setores de prestação de serviços, construção de rodovias...já pegando esse momento de crescimento pelo qual a economia brasileira começou a passar”, disse Santoro.

A partir de agora, os investimentos que deverão ingressar no país deverão ser alocados nos eventos esportivos e no pré-sal, de acordo com o professor. “A Espanha sofreu uma bolha imobiliária, e as construtoras veem o Brasil como uma alternativa... A Espanha aposta no mercado interno brasileiro, usando o país como uma plataforma de exportação da América do Sul.”

Primo rico

Conforme aponta o levantamento de ingressos de investimentos estrangeiros diretos do Banco Central, os Estados Unidos aparecem como o segundo país que mais investiu no Brasil neste ano, até o mês de setembro, atrás apenas dos Países Baixos, considerados paraísos fiscais e, portanto, locais de "passagem" de recursos de outros países. No período, os norte-americanos injetaram US$ 8,57 bilhões, contra US$ 4,89 bilhões no mesmo período do ano passado, um crescimento de 75,1%.

O foco dos EUA está tanto no setor automotivo como em outros como o de infraestrutura, principalmente com a proximidade da Copa em 2014 e das Olimpíadas, em 2016, de acordo com informações da Câmara Americana de Comércio (Amcham).        

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