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"Cidades-empresa" têm economia dizimada com efeitos da crise

"Cidades-empresa" têm economia dizimada com efeitos da crise

Atualizado: Segunda-feira, 20 Abril de 2009 as 12

As empresas de grande porte costumam aproveitar incentivos de cidades longe das áreas metropolitanas para desenvolver suas atividades. Com isto, pequenos municípios, na maioria das vezes com baixa arrecadação e quase nenhuma demanda para empregar sua população acabam se tornando campeões em qualidade de vida e Produto Interno Bruto (PIB) per capita, em virtude da chegada destas companhias. Contudo, o processo inverso também ocorre. Principalmente em momentos de crise, como o atual.

Estas "cidades-empresa" têm por característica a dependência quase exclusiva de apenas uma grande companhia para ocupar praticamente toda a mão-de-obra local, seja por empregos diretos, seja por indiretos. Dentro do grupo dos indiretos, há pessoas que trabalham em um ecossistema que se desenvolve em torno desta grande corporação, mas em funções que não estejam necessariamente ligadas à atividade desta empresa central. Uma gama de prestadores de serviços, como pequenos comércios, restaurantes, bares e empreendimentos de lazer que servem os funcionários da corporação principal. Nestas cidades-empresa, praticamente todo comércio local sobrevive absorvendo a remuneração dada aos funcionários da companhia principal. Mas a atual crise econômica tem gerado demissões em grande escala e as companhias instaladas nestes municípios não fogem à regra. Só uma situação é ainda pior para estas pequenas cidades: quando a corporação decide encerrar suas atividades no local.

Este é o caso da pequena Rio Casca, em Minas Gerais, localizada a cerca de 190 km de Belo Horizonte. A cidade de, aproximadamente, 14,5 mil habitantes era casa de uma unidade da Perdigão. Em janeiro, a companhia interrompeu as atividades no local e demitiu 163 pessoas. O vice-prefeito da cidade, Paulo Sérgio Moreira Couto, afirma que a paralisação trouxe reflexos imediatos para a economia. Outros arranjos locais menores, como no setor de comércio e serviços, não resistiram e acabaram também fechando as portas. "Houve um efeito imediato. E vai agravar na hora que terminar o seguro desemprego. A maioria dos empregados morava na cidade", conta.

Se nas atividades indiretas o reflexo foi sentido, nas empresas que tinham seu negócio vinculado diretamente à Perdigão, o efeito não poderia ser diferente. Sem ter para quem vender a produção de leite, pecuaristas da região debandaram para outros lugares.

Sem ter conseguido minimizar a dependência quase que exclusiva de uma única empresa durante os tempos de bonança e com pouco que fazer depois da partida da Perdigão, Rio Casca agora torce para que a infra-estrutura deixada pela companhia atraia um novo empreendedor. "Estamos na expectativa que o imóvel seja vendido para outra empresa para gerar novos empregos e, no mínimo, absorver as pessoas que foram demitidas", espera Couto.

Efeito dominó

"É uma reação em cadeia e tende a desmobilizar os setores produtivos que foram gerados por aquele negócio", explica o professor do departamento de Economia da FEA/USP Danilo Igliori. O discurso do estudioso dá esperança para o vice-prefeito de Rio Casca. Para ele, o fato de um grande contingente de mão-de-obra qualificada ter ficado disponível na região, pode ser um atrativo para um novo empreendimento na mesma área.

"Há um pool (conjunto) de mão-de-obra qualificada disposto a negociar salários mais baixos do que recebiam anteriormente. Se a crise não durar muito tempo, isso pode ser uma oportunidade para empresas querendo entrar no mercado", explica ele, ressalvando que um período mais prolongado de crise pode desmobilizar esse conjunto de trabalhadores.

Todos os ovos na mesma cesta

A pequena cidade de Gavião Peixoto, na região de Araraquara, interior de São Paulo, tem cerca de 5 mil habitantes e uma única empresa instalada. É a gigante Embraer, que emprega em torno de 2,5 mil pessoas, sendo 250 do município. Dentro de um anúncio de 4,2 mil demissões feito em fevereiro, quase 300 foram em Gavião Peixoto. Embora muitos funcionários vivam em cidades vizinhas maiores, como Matão e a própria Araraquara, a administração local sabe que o movimento vai afetar o município.

"O comércio com certeza vai sentir o reflexo em vendas e negócios. É que a maioria dos funcionários estava no seu primeiro emprego e alguns compraram até carro financiado e, agora, vão ter que lidar com as prestações. Cidade pequena é assim, o pessoal vem aqui na prefeitura pedir ajuda e estamos correndo para tentar encaixá-los em empresas de outras cidades e minimizar o problema", diz o prefeito Ronivaldo Fratuci (PDT).

A Embraer emprega diretamente cerca de 100 moradores de Gavião e mais 150 em funções terceirizadas, como serviços de vigilância, limpeza e alimentação. Esses grupos, segundo o prefeito, não foram atingidos. "Quem foi demitido estava no setor de produção da empresa."

Morador de Gavião, Amilson Aparecido Moreira, 20 anos, fez um curso oferecido em uma parceira entre prefeitura e Embraer, deixou o estágio em uma metalúrgica de Araraquara e, em junho do ano passado, foi trabalhar na fabricante de aviões. Lá, sonhava em crescer profissionalmente. No mês passado foi demitido. "Eu trabalhava na montagem da asa e, sinceramente, eu não esperava sair", diz o jovem que hoje procura emprego.

"Aqui (Gavião Peixoto) não tem nada e estou vendo se encontro alguma coisa em outra cidade. O ruim é que antes não tinha vaga por não ter mão-de-obra especializada e, depois que eu aprendi, me mandaram embora", conta Moreira, que tem como recordação a camisa que usava no serviço e uma réplica de um avião.

A Embraer está na cidade desde 2001 onde produz aviões de defesa, como o Super Tucano e F5BR, além da montagem das asas do EMB190 e fabricação de móveis para diversos modelos. No ano passado, Gavião Peixoto passou a montar e finalizar testes dos jatos executivos Phenom 100 e Phenom 300.

Experiência

Outra cidade afetada pelo fechamento de sua principal indústria foi Anastácio, no Mato Grosso do Sul, que fica a aproximadamente 140 km a oeste de Campo Grande. Em março, o Frigorífico Independência fechou sua unidade no município, que empregava 900 pessoas e era responsável pelo abate de 1 mil cabeças de gado por dia.

Segundo o prefeito Cláudio Valério da Silva (PMDB), além de ser a maior força empregadora do município, a filial do Independência deixou órfãos seus fornecedores na cidade. Silva afirma que não é a primeira vez que Anastácio vivencia essa situação. Segundo ele, a própria instalação que era utilizada pelo Independência já foi usada por outras empresas. Ele classifica a pecuária de corte, principal atividade econômica do município, como um setor que tem como característica a oscilação. "Nós, que estamos no quarto mandato, já vimos isso acontecer antes. (...) É muito ruim para nossa economia essa oscilação, essa falta de solidez na indústria de carne".

O prefeito conta que acredita ser "praticamente impossível" repor no curto prazo a mão-de-obra que foi dispensada. Por se tratar de um município que está próximo à planície do Pantanal, Silva afirma ser difícil atrair empresas de outros setores, por conta das restrições ambientais. Segundo ele, o turismo ecológico pode ser uma das saídas para diversificar a economia do município.

Outra alternativa, diz o prefeito, seria uma maior recompensa do governo para o trabalho de preservação ambiental que é desenvolvido em Anastácio, que atualmente tem PIB anual de apenas R$ 185,8 milhões. "A gente espera ser recompensado por preservar o ambiente aqui", conclui.

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