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Economista vê em integração sul-americana possível saída para crise financeira

Economista vê em integração sul-americana possível saída para crise financeira

Atualizado: Segunda-feira, 15 Dezembro de 2008 as 12

Economista vê em integração sul-americana possível saída para crise financeira

A crise financeira internacional oferece riscos, mas também grandes oportunidades para o aprofundamento do processo de integração regional. Essa é uma das conclusões da Cúpula Social do Mercosul, que começou nesse domingo, dia 14 de dezembro, e prossegue hoje, dia 15 de dezembro, em Salvador (BA), com a presença de representantes de governos e de segmentos da sociedade civil organizada dos países membros e associados do bloco.

"Enxergo o processo de integração sul-americana como uma das possíveis saídas para atenuar os efeitos negativos da crise, que certamente virão. Tanto pelo lado do comércio quanto pelo lado dos mecanismos financeiros de apoio à integração sul-americana, acho eu, há um espaço para avanços", acredita André Biancarelli, economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que integrou a mesa  de um grupo de trabalho sobre os impactos da crise financeira no processo de integração sul-americana.

Ele lembrou que as trocas comerciais intra-regionais têm maior valor agregado do que a pauta exportadora da região para o resto do mundo. Alerta, no entanto, para os riscos das chamadas tentativas de diferenciação, já verificadas em outros momentos de crise, principalmente no aspecto financeiro.

"Podemos ver um país tentando se afastar do vizinho porque tomou uma ou outra atitude não muito bem vista pelos mercados, como por exemplo o Brasil dizendo que não é a Argentina. Certamente, a atitude do Equador de dar o calote na sua dívida vai atrapalhar a aproximação regional", ponderou. "Acima de tudo, é preciso tomar cuidado na condução do processo do ponto de vista político, já que a crise vai demandar mais do processo de integração e, ao mesmo tempo, pode criar as condições para que o processo de integração piore o seu ritmo", alertou.

Roberto Jeferson, do programa Mercosul Social e Solidário, disse que é hora de passar dos slogans bonitos - como "Um Outro Mundo é Possível’ (do Fórum Social Mundial), "Uma Outra Economia é Possível" e "A Integração é Possível" - para a indicação de mecanismos institucionais que efetivamente estimulem o processo de integração visando ao desenvolvimento integral da região. "Também temos que definir qual o modelo de Estado que queremos, qual o papel que o Estado deve ter", propôs.

Para Victor Hugo Peña, representante da chancelaria paraguaia no programa Somos Mercosul, é preciso reforçar o papel do Estado intervencionista  e também ampliar a participação social. "Tem que haver uma presença muito forte do Estado na economia que redimensione o papel do mercado e também o papel da sociedade. Necessitamos de uma sociedade que participe, que atue, que seja capaz de interferir nas tomadas de decisões e na formulação da agenda nacional e internacional do Mercosul", defendeu.  

Peña também defendeu o aprofundamento da integração financeira no processo de integração regional. "Os Estados Unidos estão perdendo sua capacidade dinamizadora e de consumo e esta redução vai trazer conseqüências que somente poderiam ser revertidas a partir justamente da maior integração", ressaltou. "Isso significa integração física, integração econômica, coordenação macroeconômica e, obviamente, chegar a uma moeda comum, mas esse deve ser um processo mais longo que o de integração financeira", ponderou.

Ligia Correa, da Confederação das Mulheres do Brasil, ponderou que a economia mundial era voltada ao consumo dos Estados Unidos e que a crise financeira é uma oportunidade para "virar a página"e construir uma nova ordem econômica e social. "Para a gente sair dessa crise não basta transferir o poder para outra região, cada país precisa buscar uma saída autônoma. Precisamos investir no nosso mercado interno e controlar o fluxo de capital. O papel do Estado é fundamental", afirmou.

Já Ubiraci Dantas de Oliveira, da Central Geral de Trabalhadores (CGTB), manifestou a preocupação dos movimentos sindicais com relação às taxas de juros no Brasil, lembrando que documento com esta posição foi levado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mês passado. "Há lugares em que os juros estão a 3%, 4%. Aqui está a 13,5%. Isso barra desenvolvimento porque barra investimentos", alertou. "Queremos que o presidente diga ao Meirelles [Henrique Meirelles, presidente do Banco Central] que não vire as costas para a nação. Se em 2010 voltar atrás, será ruim para nós, para a Argentina, para a Venezuela, para a Bolívia, para todo mundo ", acrescentou. Meirelles está na Costa do Sauípe para a reunião do Conselho do Mercado Comum - instância máxima decisória do Mercosul - e para encontro com presidentes de bancos centrais e ministros da área econômica do bloco.

A sociedade civil passou a participar formalmente da construção de uma agenda de integração em 2006. Este ano, a Cúpula Social do Mercosul tem como tema central a integração produtiva e social. Os resultados serão sistematizados apenas em um mês, mas as principais conclusões serão apresentadas na Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, nesta terça-feira, dia 16 de dezembro, na Costa do Sauípe.

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