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EUA saem na frente da Europa no pós-crise

EUA saem na frente da Europa no pós-crise

Atualizado: Quarta-feira, 15 Setembro de 2010 as 10:30

A recuperação ainda é tímida, mas os Estados Unidos estão saindo do buraco criado pela crise financeira mundial de 2008 na frente da Europa. Enquanto a atividade norte-americana começa a dar sinais de retomada, indicadores europeus – salvo os alemães - apontam para estagnação e até recessão. Na opinião de especialistas, a rapidez na tomada de decisões e o próprio tamanho e credibilidade da economia norte-americana foram cruciais para essa vantagem. Já a Europa, surpreendida por países menores com grandes déficits, demorou a chegar a consensos e encontrou espaço menor para medidas monetárias.

Nos Estados Unidos, as decisões chegaram antes. Em fevereiro de 2009, apenas cinco meses após a piora da crise, o Senado aprovou os US$ 838 bilhões propostos por Barack Obama, o presidente norte-americano, para salvar as instituições financeiras do país. Além disso, o governo fez  “um afrouxamento monetário sem precedentes”, diz Monica Baumgarten de Bolle, economista especialista em crises e sócia da Galanto Consultoria.

Entre as medidas de proteção dos consumidores, o governo aprovou a inclusão de US$ 100 bilhões para anistias fiscais a empresas e famílias de classe média, além de ajuda aos pequenos bancos comunitários afetados pela crise do crédito hipotecário.

A ajuda às instituições financeiras recebeu várias críticas da sociedade, mas permitiu que os bancos do país reorganizassem seus balanços mais rapidamente, afirma Monica. E, ao mesmo tempo em que os bancos conseguiam recursos, as medidas de alívio à população fizeram com que as famílias norte-americanas carregassem dívidas mais baratas.

O tamanho do mercado consumidor norte-americano e sua credibilidade, apesar de todos os problemas, também ajudaram. “A economia dos EUA é monstruosa. A capacidade de arrecadação da população é maior que na Europa”, diz Álvaro Taiar, responsável pela indústria de mercado financeiro da PriceWaterhouseCoopers (PwC). Já a Europa é uma colcha de retalhos, da qual fazem parte países pequenos com déficits altos. “O mercado acaba se retraindo, com medo de emprestar para os mais problemáticos e não receber o pagamento.”

Reinaldo Grasson, sócio da área de finanças corporativas da auditoria Deloitte, concorda que a capacidade norte-americana de lidar com algumas questões econômicas é maior. “Os EUA podem se financiar com a própria moeda”, acrescenta.

Desafios maiores

Na Europa, a ajuda chegou apenas em maio de 2010, um ano e três meses após o pacote americano. Os líderes europeus anunciaram US$ 957 bilhões – sendo US$ 321 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI) - aos países mais afetados. O fato de a Europa concentrar as decisões de vários países em apenas um banco central trouxe mais dificuldade para as resoluções, segundo Mônica. “Sem dúvidas, o pacote foi positivo e trouxe alívio aos mercados globais, que estavam à espera de definições europeias”, comenta Otto Nagami, professor de economia do Insper.

No entanto, as decisões vieram acompanhadas de cortes de empregos, para enxugar as finanças dos governos. “A Europa estava presa em uma armadilha. Os países precisavam gastar para estimular a economia, mas os governos tinham de cortar gastos para diminuir seus déficits”, afirma Taiar, da Price. Além dos cortes, as medidas de saneamento fizeram com que os chamados PIIGS (sigla em inglês para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) tivessem que elevar impostos. “A via que restou a esses países foi a dos ajustes, das políticas recessivas”, afirma Mônica.

Essas políticas tiveram um efeito significativo para atrasar a recuperação europeia. “As medidas para reduzir os déficits dos governos implicam em diminuição da capacidade de investir”, diz Grasson. “E economias que já estavam crescendo pouco passaram a não ter contribuição para avançar.”

Ao contrário da forte capacidade de arrecadação nos EUA, na Europa a maturidade das economias funcionou como freio. “Os europeus já estavam atingindo o nível de satisfação no consumo”, diz Nagami, do Insper. E, para piorar, os países tinham grande parte de suas correntes de comércio dependente dos vizinhos europeus. A Alemanha, que vem mostrando um desempenho um pouco melhor, tem sido ajudada por suas exportações à China, comenta Grasson, da Deloitte.

A economia norte-americana mostrou seus sinais de recuperação ao crescer 1,6% no segundo trimestre deste ano, na comparação com igual período de 2009. O número superou as expectativas de analistas, que eram de um avanço de 1,3%. Mais recentemente, dados do mercado de trabalho trouxeram novo otimismo, já que os pedidos de auxílio desemprego foram menores que o esperado. No início de agosto, a projeção era de 470 mil, mas foram registrados 27 mil, segundo o Departamento de Trabalho dos EUA.

 Entre os europeus, a Alemanha foi o único país com crescimento mais consistente, de 2,2% de abril a junho deste ano, em relação ao mesmo trimestre de 2009. Já a economia grega teve uma contração de 3,7% na mesma base de comparação. Portugal e Espanha tiveram crescimentos tímidos, de 0,3% e 0,2%, respectivamente, segundo instituições locais.

Postado por: Thatiane de Souza

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