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Mercado de locadoras de filmes cai à metade no Brasil

Mercado de locadoras de filmes cai à metade no Brasil

Atualizado: Sexta-feira, 15 Janeiro de 2010 as 12

No início, era preciso rebobinar as fitas antes de devolvê-las. Depois, quando o século virou 21, o DVD tornou antiquado o verbo rebobinar, mas deixou eufórico o público. E, por consequência, os empresários.

O mercado estima que, entre 2003 e 2005, havia, no Brasil, quase 14 mil locadoras de filmes. Mas, a partir de 2006, a festa começou a esvaziar. Hoje, há, no máximo, 6 mil lojas.

A União Brasileira de Vídeo ainda não fechou os números de 2009, mas, entre 2006 e 2008, o número de DVDs comercializados no país caiu 14%, de 28,7 milhões para 24,7 milhões de unidades. Quando se leva em conta apenas a venda para locadoras, a curva acentua-se ainda mais: de 8,5 milhões para 4,6 milhões, ou seja, uma redução de 45%.

"Achei que se estabilizaria em 2009, mas a queda deve ter sido de mais 10%", estima Wilson Cabral, da Sony. "Fechei minhas lojas por causa da pirataria", diz Hélio Pereira, da Vídeo Norte, rede que chegou a ter 15 lojas em São Paulo. Hoje, são apenas três - e só uma dele, mais por afeto que por dinheiro. "Mesmo assim, não sei quanto tempo vai durar. Quando você puder baixar um filme em casa em dez minutos não tem mais por que ir à locadora."

Mania de aluguel

Para acompanhar o auge e a queda desse negócio é preciso pontuar, primeiro, que o Brasil tinha o maior mercado de locação do mundo. As locadoras surgiram na era do VHS para atender a um público que, ao contrário de europeus e norte-americanos, não comprava filmes. Alugava.

Quando o VHS murchou, veio o DVD e, com ele, o boom de um negócio que atraiu tanto grupos internacionais, como a Blockbuster, quanto aventureiros. "São comuns os casos de gente que pegou o FGTS e abriu uma locadora no andar de baixo de casa e ficou morando em cima", diz Rodrigo Drysdale, da Warner. "Em todo canto havia uma locadora."

Para os estúdios, foi um negócio e tanto. Eles chegavam a vender por R$ 100 um produto que saía da fábrica por R$ 5. Mas eis que, com o DVD, tornado objeto-fetiche, o hábito do aluguel foi sendo substituído.

Em meados dos anos 2000, as Lojas Americanas passaram a trabalhar com preços baixíssimos, colocando filmes em cestos, com a etiqueta R$ 9,90. Para que alugar se comprar era tão barato? Redes como Fnac e Saraiva também passaram a ser concorrentes indiretos. "As locadoras resistiram a vender filmes. Achavam que matariam o próprio negócio", analisa Cabral. Quando acordaram para a venda, encontraram concorrentes mais difíceis de enfrentar: a pirataria e o download, que tornaram ainda mais anacrônica a espera pelo lançamento de um filme em DVD.

Conforme aumentava a venda de filmes nas barraquinhas de camelôs, saía de cena, por exemplo, a Blockbuster, comprada pelas Lojas Americanas, em 2007. "Em São Paulo, o público foi afastado da locação pelo fim da Blockbuster. Mas em outros lugares, a situação não é a mesma", avalia Victor Camargo, da Videoteca, que possui 20 lojas no sul do país e comprou, em 2009, a Mega Mil, que está em sete Estados. "A onda do DVD passou e alguns empresários ficaram desanimados. Mas ainda tem muita gente que busca atendimento personalizado. Brasileiro gosta de conversar."

Mas, mesmo no interior, há quem desconfie da tese da conversa. "Dar boas dicas não resolve. Não dou cinco anos para esse negócio acabar", diz Carlos Sbruzzi, que abriu uma locadora em 1986, em Carasinho (RS), mas jogou a toalha.

Tábua de salvação

A impressão de Sbruzzi está longe de ser unanimidade. Há, de um lado, as locadoras de nicho, como a 2001, e, de outro, o blu-ray, disco de altíssima definição, com mais possibilidades interativas, que pede uma TV full HD. "Não é uma mudança tão radical quanto do VHS para o DVD, mas é uma nova tecnologia muito atraente", diz Drysdale.

Em 2009, foram vendidas 230 mil unidades de blu-ray, ante 90 mil em 2008. "Neste ano, devemos chegar a 600 mil unidades. Com a Copa do Mundo, muita gente vai trocar de TV", aposta Cabral.

Os estúdios buscam incentivar as locadoras a investir em séries de TV que, hoje, são mais vendidas que alugadas, e games. "Eles precisam acreditar que vão sobreviver", diz Drysdale. "Aluguel, venda e internet vão coexistir."

Na tentativa de animar os sobreviventes, a Sony engendrou extras exclusivos para locação no DVD "This Is It", de Michael Jackson. "É a primeira vez que fazemos isso", diz Cabral. "Queremos mostrar aos donos de locadoras que acreditamos que o mercado não está morto."

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