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Obama assume sob desafio de imprimir políticas audaciosas contra crise, avalia Unger

Obama assume sob desafio de imprimir políticas audaciosas contra crise, avalia Unger

Atualizado: Segunda-feira, 19 Janeiro de 2009 as 12

Obama assume sob desafio de imprimir políticas audaciosas contra crise, avalia Unger

O democrata Barack Obama, que será empossado nesta terça-feira, dia 20 de janeiro, na Presidência dos Estados Unidos, necessitará de uma gestão audaciosa ante o desafio de oferecer alternativas de superação para uma das mais graves crises econômicas enfrentadas pelo país e também de promover um salto de qualidade nas relações multilaterais da superpotência. A avaliação é do ministro de Assuntos Estratégicos do governo brasileiro, Roberto Mangabeira Unger, conhecedor da cultura norte-americana, da personalidade de Obama - o democrata foi aluno de Unger na Universidade de Harvard - e de boa parte da equipe de auxiliares do novo presidente.

Em entrevista, Unger analisou a dimensão da crise, a composição da equipe e o projeto de governo de Obama. Segundo o ministro, a julgar pelas idéias dos principais colaboradores anunciados, o governo de Obama tenderia a uma trajetória "muito convencional". Entretanto, o professor acredita que o ex-aluno será impelido a intervir e a garantir arrojo condizente com as expectativas despertadas na sociedade americana e mundial.

"A crise é uma grande aliada da imaginação. As pessoas que costumam aflorar ao primeiro nível do mundo raramente são pessoas muito auto-questionadoras. Geralmente acham que já sabem, mas não sabem, como a crise demonstrou. O presidente eleito teria que forçar a barra. Ele tem dito publicamente: 'não se preocupem se muitos de meus colaboradores não parecem visionários, que eu providenciarei a visão'", assinalou Unger.

Em visita aos EUA na última semana, Unger apurou seis diretrizes já definidas no programa de governo de Obama: regular os mercados financeiros; adotar políticas fiscais e monetárias expansionistas; usar o poder do governo federal para aumentar a cobertura dos seguros privados de saúde; fomentar o uso de energias renováveis e tomar uma posição mais avançada em relação às mudanças climáticas; respeitar mais o multilateralismo nas relações institucionais e o "poder suave" em relação ao poder duro da intervenção militar; retirar tropas do Iraque e colocá-las no Afeganistão.

"É um projeto muito circunscrito, dada a amplitude das frustrações e aspirações suscitadas no país, neste momento de inflexão. O país está fervilhando em baixo e vai querer mais. O presidente, que é um homem sereno e cauteloso, mas também apreciador da imaginação, vai oscilar entre o horizonte programático restrito dos colaboradores e a impaciência do país por um programa mais audacioso", ressaltou Unger.

O ministro define a atual crise econômica vivida nos EUA como a mais forte sofrida desde a grande depressão do século 20. A perspectiva de adoção de políticas monetárias e fiscais expansionistas é vista com ressalvas por ele.  

"Essas políticas expansionistas surtirão poucos efeitos ou efeitos perversos, se não forem adotadas num contexto de superação dos desequilíbrios na economia do mundo, entre países superavitários em comércio e poupança, a começar pela China, e países deficitários em comércio e poupança, a começar pelos EUA. O primeiro efeito das políticas expansionistas é agravar o mal que produziu a crise: mais fome do consumo e de importação."

Na visão de Unger, a política de regulação dos mercados a ser imprimida pelo governo de Obama deve ser implementada com um dos elementos de um projeto maior, que seria o da reconstrução das relações entre as finanças e a produção, com uma reorganização das instituições que mobilizam a poupança de longo prazo para investimento na produção.

"Do jeito pelo qual se organizam hoje as economias de mercado, a produção em larga medida se autofinancia por meio dos lucros retidos das empresas. Todo aquele dinheiro que está nos bancos seria teoricamente para financiar a produção, mas, na realidade, a maior parte não é. Isso teria que mudar de forma que, ao recuperar o nível de atividade econômica, também se ampliasse as oportunidades", argumentou o ministro.

Unger não acredita em reação negativa da sociedade americana a uma postura intervencionista que, em certa medida, deverá marcar o governo de Obama. O ministro imagina uma coordenação estratégica entre Estado e empresas, nos moldes do que ocorreu com sucesso na economia americana durante a Segunda Guerra Mundial.

"O ponto forte da cultura pública dos Estados Unidos não é a devoção à livre inciativa, mas a devoção à flexibilidade institucional. Os americanos têm seus preconceitos doutrinários, mas, quando precisam, mudam de roupa com grande desembaraço", defendeu Unger. "O velho conflito ideológico entre estatismo e privatismo, que dominou o mundo por dois séculos, está morrendo. Não se torna uma economia de mercado mais inclusiva sem reconstruir as instituições que a definem. O problema está em como reconstruir o mercado", acrescentou.

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